Diário do Nordeste Plus

Vida com restrições

Ficar sem pão, sem leite ou cerveja comum? Saiba como as intolerâncias ao glúten e a lactose podem afetar a sua rotina

O tradicional café com leite com pãozinho carioca, combinação muito presente nas mesas dos brasileiros, pode parecer uma dupla inofensiva ao nosso organismo. Porém, para um parte da população, essa pedida pode ser prejudicial ao organismo. Dores de barriga, náuseas, inchaço, diarreia, emagrecimento, gases e até desnutrição são os principais sintomas que pessoas com intolerâncias ao glúten e/ou a lactose podem sentir após o consumo de um simples “carioquinha” com café com leite.

Mas, o que são as intolerâncias a lactose e ao glúten? A intolerância a lactose consiste na incapacidade de digerir completamente o açúcar (lactose) de laticínios. O organismo do portador dessa intolerância nasce com a deficiência da enzima (lactase) que quebra a lactose, ou porque deixa de produzi-la ao longo da vida, seja pelo envelhecimento ou por lesões do próprio intestino. Podem haver os graus de intolerância, de acordo com a quantidade de enzimas presentes no organismo desse indivíduo: primária, quando você vai adquirindo ao longo da vida com a redução da quantidade de enzimas; a secundária, depois de um processo infecioso, podendo ser temporário; e a congênita, quando a criança já nasce sem a produção da lactase.



A intolerância ao glúten é uma reação do sistema imunológico à ingestão de glúten, uma proteína encontrada no trigo, na cevada, no centeio e nos alimentos derivados. A intolerância ao glúten também é chamada de doença celíaca, desenvolvendo, além dos sintomas clássicos do trato gastrointestinal, como diarreia, dor de barriga, náuseas, inchaço, entre outros, o individuo pode ter cansaço, dores de cabeça, ansiedade, alergias na pele, chegando até lesões neoplásicas.

De acordo com o médico Ranilson Alves Silva, pediatra com mestrado voltado para alergias alimentares, com destaque para o glúten e a lactose, é muito importante identificar as intolerâncias às duas proteínas desde cedo e diferenciar da alergia à proteína do leite de vaca (APLV). “ É de extrema importância identificar desde cedo as doenças e principalmente, a intolerância à lactose da alergia à proteína do leite. Quem tem intolerância à lactose, tem que se alimentar de alimentos sem lactose, os derivados do leite e afins. Quem tem alergia à proteína, não deve comer substâncias, porque pode desenvolver uma reação sistêmica, como anafilaxia, em que a pessoa pode desenvolver um edema de glote, chegando a ser fatal. Por isso é de extrema importância que esse diagnóstico seja feito ainda quando pequeno”, destaca Ranilson Alves.

Sintomas - Intolerâncias

Quais os sintomas?

O sintoma clássico é a diarreia, porém é fundamental que cada indivíduo procure um especialista para o diagnóstico correto através de exames médicos. Confira os sintomas nos círculos

Cólicas, dor no abdômen, arroto, diarreia, gordura nas fezes, refluxo ácido, vômito ou flatulência
Queimação no peito
Dor nas articulações
Anemia, perda óssea
Coceira, erupção cutânea, intolerância à lactose ou perda de peso
É comum baixo ganho pôndero-estatural, cólica do bebê ou malestar
Arroto, diarreia, gordura nas fezes, inchaço, indigestão, náusea, dores de estômago ou flatulência

De acordo com o Ranilson Alves, a intolerância ao glúten e a lactose não são recentes. São doenças que, pelo não desenvolvimento da própria medicina, não tinha como ser identificada em tempos atrás. “Você via crianças serem alimentadas e ficarem defecando, morrerem defecando sem saber o que poderia ser, ou tendo um diagnóstico errado. Mas nós acreditamos que essa doença sempre existiu, mas não tínhamos os meios suficientes para diagnosticar, não tínhamos conhecimento sobre a existência dessas intolerâncias”.

Vivenciando

As descobertas

Aline Saraiva
Aline Saraiva levou mais de um ano para descobrir a doença. Foto: Thiago Gadelha

Apesar de ter se descoberto intolerante ao glúten aos 30 anos, a pedagoga Aline Saraiva tem familiaridade com o mundo das alergias e intolerância alimentares há alguns anos. Seu primeiro contato com esse universo começou após o nascimento do seu filho, o pequeno Enzo. O garoto nasceu com alergia à proteína do leite, o que faz com o indivíduo não possa ingerir e nem estar em contato com o substância. Aline descobriu a doença quando o filho estava com cerca de um ano e meio. “Foi um processo muito doloroso. Eu comecei a estranhar porque ele amamentava, ele sempre colocava para fora e nunca ganhava peso. Levei ele em uma médica, que desconfiou que ele estivesse alergia a lactose. Testamos outros leites e vimos que era a proteína do leite. Foi muito desgastante. Ora, quando você é mãe, você quer que o seu filho cresça saudável, ganhe peso, não tenha doenças. E demoramos muito tempo para descobrir o que ele tinha”, destaca Aline.

Junto com a alergia ao leite vieram outras: à soja, ao milho e outros componentes. “Foi muito difícil. Antes de descobrirmos, uma médica tinha receitado o leite de soja, já que ele não poderia tomar leite de vaca. O efeito foi devastador. Ele bebeu e ficou todo queimado. Eu pensava: o que meu filho vai comer? Até que fui estudando e pesquisando sobre universo. Hoje já entendo, já consigo administrar isso bem melhor. Desde cedo fui ensinando a ele que ele não poderia comer de tudo, que tem que sempre perguntar se tem leite, se tem soja. Quando tem festinha de colégio, eu sempre preparo o lanche separado, vai o brigadeiro que ele pode, vai tudo que ele pode. Se não tem, ele não come”, diz.

No caso da alergia, além da ingestão, o contato também não é permitido. Em casa, todos os preparos para o Enzo, como o liquidificador, as panelas, os depósitos, são exclusivos dele. O menor contato com a proteína da vaca pode levá-lo à morte.

Após ter descoberto como lidar com a condição do filho, Aline levou outro baque. Há cerca de mais de um ano, a pedagoga descobriu que era celíaca. A descoberta veio após uma grande perda de peso, diarreias constantes, erupções na pele, fraqueza, dores abdominais, desidratação. “Foi arrebatador. Fui para uma gastro e para uma dermato, que identificou que eu realmente tinha. Ai, tive que mudar completamente a minha rotina. Fiquei um ano sem andar em restaurante, um ano se ter contato nenhum com nada que tivesse glúten”, afirma.

A partir daí, a rotina mudou completamente. Os momentos de socialização com a família e amigos mudou completamente. A mãe de Aline, que fazia salgados para vender, abandonou a atividade. Os encontros com os amigos ficaram mais raros e a boa cervejinha teve que ser abolida após ter se descoberto celíaca. Até a maquiagem, o hidratante e o sabonete foram trocados por outros mais adequados. “Foi um processo de conhecer o que podia e ver quais eram as opções, que são poucas no mercado. Tudo a gente encontra com dificuldade. E com preços caros. Lugares para comer fora é mais difícil ainda”, ressalta.

Hoje, ela e o filho conseguem ter uma rotina adequada, mas sempre com cuidados. “Só consegui viajar com o Enzo uma vez e foi para Recife, onde ficamos na casa de parentes. Viajar para ficar em hotel, não tem condições. Aqui em casa, as panelas são inox, não podemos misturar os nossos recipientes. Quando minha mãe traz um bolo que ela desenvolveu especialmente para nós dois, ela traz em um depósito que só é usado por nós, e não tem contato de nada. E assim vamos. Tivemos que nos adequar em tudo. Tá mais fácil, mas continua sendo muito difícil”, finaliza.

Infância controlada

Yuri Barros
Yuri Barros durante preparo de uma das suas refeições. Tudo sem glúten. Foto: Nah Jereissati

O estudante Yuri Barros,22, descobriu que era celíaco desde pequeno, quando a mãe estranhou o fato de o filho não estar ganhando peso, apesar da alimentação regular. Após consultas, o diagnóstico foi dado: Yuri era celíaco e deveria evitar alimentos com glúten.

Um dos sintomas permanece até hoje. O estudante tem dificuldade para ganhar peso. Hoje, com 1,73 de altura, o jovem pesa 48 quilos, tendo um IMC abaixo do normal. De acordo com Yuri, essa sempre foi uma característica sua. Para tentar ganhar peso de forma saudável, ele está recorrendo a um tratamento com nutricionista, mas sempre com o cuidado redobrado para o que pode e não. Além da não ingestão de certos alimentos, o jovem tem utensílios próprios, para que não fique nenhum rastro da proteína.

Desde pequeno, Yuri foi advertido pelos pais a sempre perguntar o que poderia comer. Hoje, o jovem já sabe o que pode, mas, de vez em quando, cai em tentação “Às vezes eu como. Não é sempre, mas quando saio com amigos, quando estou no shopping. Apesar de eu saber que eu não posso, é um pouco complicado seguir”, destaca Yuri. De acordo com o jovem, a maior dificuldade está em encontrar alimentos sem glúten. Nos shoppings, por exemplo, há, de acordo com Yuri, pouquíssimas opções com pratos sem a proteína. “Esse é um dos maiores impecílios. Quando a gente sai, não vemos essas opções, por isso comemos errado. E logo depois sentimos os efeitos. Quando tem algum restaurante com comidas sem glúten, os preços são caros, sem condições”, enfatiza.

Cápsula companheira

Priscila
Priscila e sua cápsula de lactase. Foto: Thiago Gadelha

Foi apos sentir fortes dores de barriga e diarreias constantes que a professora de natação Priscila Oliveira se descobriu intolerante à lactose. O diagnóstico foi recente, há pouco mais de 1 ano. De lá pra cá, algumas mudanças foram necessárias. A que Priscila destaca como a mais difícil foi a de reaprender a tomar o leite, a bebida preferida da moça. “O leite é muito presente na minha vida. Eu tomo antes de dormir, tomo várias vezes ao dia. E foi complicado ver que o leite que eu gostava tanto estava me deixando tão mal”, destaca.

Os sintomas já vinham desde que Priscila era pequena. Sempre que comia um brigadeiro na casa de um amiguinho ou tomava o seu bom copo de leite vinha aquele incômodo chato no abdômen. Mas só aos 30 anos que ela descobriu a razão dos incômodos. Hoje, Priscila até degusta uma coisa ou outra com lactose, mas sempre acompanhada da sua cápsula de lactase. E procura não exagerar. Além de fazer mal, as capsulas costumam não ser tão baratas em território nacional.

Apesar da dieta ser controlada, ela conta que conseguiu se adaptar. A rotina de supermercado é sempre procurar por produtos sem lactose. “Encontro produtos sem a lactose mais em supermercado. Mas em restaurantes, praças de alimentação, lanchonetes é mais difícil. Por isso que sempre ando com a cápsula de lactose”, diz.

Alimentando-se

De acordo com a nutricionista Tanara Ferreira, a alimentação de quem possui intolerância ao glúten ou lactose deve ser de extrema atenção. Ambas as intolerâncias devem ter dietas isentas de alimentos com glúten e lactose. Ou seja, para os intolerantes ao glúten, nada de pães, massas, salgados, bolos, cervejas, nem alimentos que contenham traços da proteína. “Vai embora o macarrão, a farinha, as massas, a aveia, tudo será retirado. Se o alimento industrializado for produzido no mesmo local, mesmo sem glúten, também deve ser retirado, já que ele pode ter contato. No lugar do pão carioca, pode ser colocado o cuscuz, a batata doce, a macaxeira, a tapioca. Na hora do almoço, pode comer o arroz, que não tem glúten”, diz Tanara.

Para os intolerantes a lactose, a dieta deve excluir todos os alimentos com leite de vaga e derivados, como lacticínios e pratos feitos com esse açúcar presente em diversos alimentos. “Hoje no mercado já tem várias opções de alimentos sem lactose. Se for um alimento sem lactose, mas que contenha o leite, na verdade ele tem a lactose, mas ele tem a adição da enzima lactase. Daí acontece o processo de digestão normal. Assim como essa pessoa pode consumir leite e usar enzimas como suplemento alimentar. Mas não é o adequado, já que o indivíduo pode estar causando inflamações no intestino, processos inflamatórios. Então, o ideal é retirar no dia a dia e consumir de vez em quando, usando a enzima, que tem em pó e em caixa”, destaca Tanara.

A nutricionista atenta para substituição das fontes de cálcio na dieta de quem tem intolerância à lactose. “É substituir por outras opções, como os vegetais verde escuros, que são boas fontes de cálcio. Entram o brócolis, o couve-flor, rúcula, couve-manteiga. E também podemos colocar as sementes, gergelim preto, gergelim marrom, linhaça, chia e sempre com uma adequação individual”, avisa.

É importante ressaltar que as dietas Vida com restrições devem ser usadas por quem tem intolerância às proteínas, e não para quem busca perder peso. “Toda dieta deve ter uma adequação. Muitas pessoas querem fazer uma troca e ainda fazem errado por não saber a quantidade certa, por não saber o que usar. Então, o ideal é consultar, sempre, a opinião do especialista”, finaliza.

Tramitando

Conhecimento sobre o preparo é de fundamental importância, principalmente para a parcela da população, sobre intolerâncias e alergias alimentares. Pensando na responsabilidade dessas espaços, foi criado o Projeto de Lei Ordinária nº 33/2015, que obriga restaurantes, bares e padarias de Fortaleza a informarem os ingredientes de cada produto.

De acordo com o projeto, deve ser dado destaque para existência ou não de lactose, glúten e açúcar nas receitas. Apesar da importância, o projeto segue parado desde março de 2015.

Em âmbito nacional, foi aprovado, em março de 2016, o Projeto de Lei 8194/14, que obriga fabricantes a informar, no rótulo dos alimentos, a presença de lactose e caseína (proteína do leite). Além de informar sobre a presença dessas substâncias, devem ser inseridos a quantidade de cada uma no rótulo.

Comidas

Apesar de restrito, existem alguns lugares que oferecem comidas Vida com restrições. Há algumas opções em Fortaleza. Existem restaurantes, lojas e supermercados que vendem produtos para celíacos e intolerantes à lactose. Veja dicas de estabelecimentos: