Diário do Nordeste Plus

Jogos para potencializar o seu cérebro

O estímulo cerebral é recomendado para todas as idades, a fim de combater o sedentarismo mental e proporcionar qualidade de vida.

Os avanços tecnológicos impactam significativamente as nossas vidas e atividades cotidianas, proporcionando facilidade e melhor aproveitamento do tempo. Ganhos realmente incríveis. Porém, com tantos recursos nós deixamos o nosso cérebro acomodar. Como assim? Pense em quantos números de telefone você tem armazenados em sua memória. Provavelmente o dos seus pais e/ou filhos, do marido/esposa, do trabalho e o próprio número.

Agora, lembre-se de quantos amigos você parabenizou pelo aniversário, apenas quando recebeu o lembrete de alguma rede social! Muitos, certamente. Perceba que atribuímos tarefas simples, que exigem o uso das nossas capacidades cognitivas à tecnologia. Assim, o cérebro acomoda-se na zona de conforto, deixando de ser exercitado e, por consequência, de aprimorar competências como: memória, raciocínio lógico e atenção, fundamentais em nosso cotidiano.

Independentemente da carga genética, o cérebro humano tem de ser constantemente desafiado para que mantenha e até melhore as suas funções cognitivas, como memória, percepção, raciocínio lógico-matemático, linguagem, atenção e aprendizado.

O estímulo cerebral por meio de jogos é recomendado para todas as idades, a fim de combater o sedentarismo mental e proporcionar qualidade de vida. Desse modo, podemos lidar com as facilidades que o mundo moderno nos oferece sem prejudicar a nossa saúde mental.

Como funciona a máquina

Saiba mais abaixo
Fonte: Dr. Paulo Ribeiro Nóbrega - neurologista do Instituto Hipocampus

Brincar para crescer saudável

Durante a infância se desenvolvem as bases da inteligência. Exercitar os neurônios desde cedo é tão importante para a garotada quanto ir à escola, dormir cedo e obedecer aos pais.

Assim que a criança nasce, os estímulos têm de ocorrer da forma mais variada possível. Desde o simples toque no bebê recém-nascido até brincadeiras e atividades mais complexas e desafiadoras a partir dos seis ou sete anos.

Neurologista Paulo Nobrega / Foto: JL Rosa

Segundo Paulo Nóbrega, neurologista do Instituto Hippocampus, é através dos estímulos sensoriais que são formadas as chamadas sinapses, conexões que favorecem a comunicação entre os neurônios. “Quanto mais sinapses se formarem, melhor serão as capacidades cognitivas e maior será o aprendizado ao longo da vida. A capacidade de compreensão dos bebês é muito maior do que a maioria dos pais pode julgar", alerta o neurologista.

A maioria dos pais também não sabem que têm um papel fundamental para o desenvolvimento do cérebro de seus filhos. "Especialmente nos primeiros seis meses de vida, o vínculo afetivo favorece conexões cerebrais do bebê que irão valer para a vida inteira", garante a neuropsicóloga Varienka Bulcão, especialista em desenvolvimento infantil do Instituto Hippocampus de Fortaleza.



Tratamento multidisciplinar pode deixar a vida com microcefalia mais feliz

A interação com a família é fundamental / Foto: JL Rosa

O caminho não é fácil, e ninguém diz que é, mas para quem tem a sorte de receber o tratamento e os incentivos adequados desde o nascimento, a vida com microcefalia pode ser longa, saudável e, por que não, feliz.

Aos 4 anos, Maria Luiza Sales de Almeida tem uma rotina agitada de fisioterapias, fonologias e brincadeiras. Aos poucos, aprende a identificar sons e cores, hoje seu principal desafio.

Da síndrome, diagnosticada ainda no sexto mês de gestação, Maria Luiza tem uma condição que não a impede de ter uma vida social ao lado da mãe, Tamires dos Santos Sales, de 28 anos. Ela acredita que a filha desenvolveu a microcefalia em função de uma dengue adquirida durante a gravidez.

No dia a dia, repetição e paciência são palavras-chave. As orientações repassadas pela equipe multidisciplinar do Instituto Hipocampus, onde a pequena aprende a ter autonomia, são levadas para casa e repassadas à exaustão.

"A grande estimulação não ocorre no consultório, mas no meio da família, a partir das tarefas mais simples, como segurar, ver vídeos, ler livros com estímulos sensoriais e visuais", explica Tamires.

Com a visão comprometida, Maria Luiza demora mais a completar algumas atividades, mas as realiza com concentração e cautela, sem qualquer sinal de irritação.

Os médicos afirmam ser impossível ou mesmo irresponsável prever como se dará o desenvolvimento de crianças com microcefalia, ainda mais nos casos derivados do zika vírus, com consequências ainda pouco conhecidas.

Segundo Felícia Rodrigues dos Santos, psicóloga infantil comportamental, cada caso é um caso, a única regra é iniciar os estímulos o mais precocemente possível, mesmo em bebês recém-nascidos.

“O tratamento considerado ideal é multidisciplinar, realizado por profissionais especializados, como fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, pediatras, neurologistas e geneticistas, além de assistentes sociais. A Malu tem esse acompanhamento e já é possível observar uma evolução, Neste caso os jogos com apelos sonoros e visuais são fundamentais para auxiliar na terapia”, explica.

A busca por uma melhora na vida dos pacientes independe do grau da doença.

"Mesmo aquela criança que é mais comprometida tem o direito de ser estimulada, de receber as terapias, os cuidados médicos necessários. No fim, o que buscamos diariamente aqui é qualidade de vida. Quem tem microcefalia pensa, sente, tem vontade de viver, como todos nós", acrescenta Felícia.

Não tem hora para a brincadeira

Crianças brincando com peças de montar Foto: JL Rosa

A memória é um sistema de redes complexo distribuído por todo o cérebro, responsável pela criação, armazenamento e lembrança das informações. Assim, não basta ter um dado gravado na sua cabeça, é preciso saber também como chegar até ele. O aprendizado tem uma relação estreita com a plasticidade cerebral, que é a capacidade de reorganizar o cérebro conforme o uso, ou seja, você faz novas conexões em células nervosas para aprender. E não são poucas, estima-se que mais de 100 bilhões de células nervosas são usadas ao longo da vida no processo de aprendizagem.

“Na criança o circuito neuronal é extremamente plástico, moldável, em relação ao processo de formar aprendizado. Os primeiros 2 anos são extremamente sensíveis à criação de vias cerebrais para o funcionamento de diversas funções, como a memória, linguagem, percepção, atenção etc. A criança nasce e permanece, durante os primeiros cinco ou seis anos de vida, com as janelas de aprendizado totalmente abertas. Isso significa que toda criança já nasce pronta para aprender”, explica a neuropsicóloga Sarah Teófilo de Sá Roriz, doutora em Saúde Mental pela Universidade de São Paulo.

Mas a plasticidade não é exclusividade das crianças, o cérebro dos adultos também se adapta e reorganiza a comunicação entre os neurônios a cada novo aprendizado. E isto implica em mudanças tanto para massa cinzenta, formada pelos corpos neurônios, que compõem o córtex, a camada externa, quanto para a substância branca (os axônios, ou extensões dos neurônios, que fazem a ligação) do cérebro.

Um aliado inusitado: o videogame

Meninas brincando com jogos eletrônicos Foto: JL Rosa

Agachado atrás de um pilar, o guerreiro espacial contempla a morte certa. Sua munição está no fim, a barra de energia pisca em vermelho e o gigante metálico avança, disparando saraivadas intermitentes de lasers. Na única brecha possível, o soldado rola para o lado e dispara tudo o que pode na cabeça do inimigo. O robô cai de joelhos e explode, inundando o cenário com labaredas. Do outro lado do fio, o jogador está em pé, gritando contra a TV e esmagando o joystick entre as mãos. Ele se sente imerso em um mar de euforia, sensação de vitória e superação – mas a verdade é o seu cérebro que, nesse momento, boia delirante em um oceano de dopamina.

Videogames já levaram a culpa por vários problemas, desde a obesidade até a agressividade, mas muitas pesquisas relevam que alguns jogos podem, na realidade, fazer bem à sua saúde. O neurologista Paulo Nóbrega comenta sobre os resultados de um estudo publicado na revista Scientific American Mind, de 2015, onde mostra que jogadores desse gênero de jogos aumentam suas habilidades cognitivas e de aprendizagem.

“Entre os jogos de ação mais comuns estão os de tiro em primeira pessoa, Call of Duty e Battlefield. Após duas semanas expostos aos jogos foi possível observar habilidades aprimoradas ao se jogar os títulos citados como a coordenação espacial, o foco e a rápida tomada de decisão, fazendo com que jogadores pontuem mais em testes do gênero do que não-jogadores”, explica.

Segundo o neurologista, os videogames ativam conexões entre diferentes partes do cérebro, mostrando que ao jogá-los o indivíduo confere habilidades que podem ser usadas no mundo real. “Além dessas funções aprimoradas, também pode-se observar relativa melhora na alternância de tarefas, memória operacional (gravar nomes e números). Isso é possível porque o indivíduo trabalha vários domínios cognitivos ao mesmo tempo. Ele precisa montar rapidamente estratégias, identificar inimigos, e , tentar sobreviver”, explica.

Escape se puder: Enigmas e desafios para todas as idades

Foto: JL Rosa

Deixe de lado esses apps que fazem tudo por nós hoje em dia, esqueça quaisquer consultas no Google ou traquitanas tecnológicas. Sejam bem-vindos ao bom e velho raciocínio “natural”, que requer o uso de seus instintos puros e sua intuição para progredir.

Há cerca de três anos, surgiu na Ásia a ideia de reunir grupos de pessoas em salas temáticas para solucionar enigmas em apenas 60 minutos. O objetivo foi proporcionar uma opção de entretenimento presencial para aqueles que se interessavam por grandes desafios e que curtiam uma verdadeira experiência sensorial, estimulada pelos detalhes da ambientação com muitos objetos e móveis, de sons e de tudo que pudesse envolver o participante no clima proposto.

E foi neste clima que reunimos um grupo de desconhecidos, com idades completamente diferentes para solucionar os enigmas das novas salas do Escape 60, recentemente inaugurado em Fortaleza.

Como funciona?

Cada jogo comporta um grupo, de quatro a oito participantes, que deve desvendar o mistério por meio de dezenas de pistas espalhadas no cômodo e escapar em até 60 minutos. Caso contrário, as pessoas são resgatadas do local.

Segundo Pedro Ximenes Rodrigues Lima, 30, sócio-administrador da casa, a porcentagem dos participantes que conseguem resolver todos os enigmas e escapar é de aproximadamente 20%, algo que mostra a dependência da tecnologia adquirida ao longo dos anos. “É uma nova forma de entretenimento, inteligente, agradável e diferente, voltada para famílias, amigos e equipes de trabalho. Também se destina a outros públicos, que se interessem por uma verdadeira experiência sensorial, estimulada pelos detalhes da ambientação, dos sons, objetos e móveis e por tudo que envolva o participante no clima proposto. Os participantes são desafiados a descobrir o enigma do jogo para, então, retornar à liberdade, com uma única condição: que tudo ocorra em apenas 60 minutos”, explica.

“É impressionante como percebemos, em momentos como esse, o quão dependentes estamos da tecnologia. Ao abrir mão de aplicativos ou fontes de consulta como Google, parece que nos sentimos vulneráveis”, analisa a aposentada Maria Fátima Guimarães, 69.

“Aqui, é preciso interagir em equipe e jamais desistir ou ficar com “preguiça”, afirma Wellisson Cordeiro, 12

Corpinho de 50 e mente de 20

O envelhecimento é um processo contínuo que faz parte da biologia dos seres humanos. Ficamos mais velhos a cada dia e, para que este processo aconteça de forma positiva, é preciso manter hábitos saudáveis desde a infância.

Socorro Bezerra Farias / Foto:Fabiane de Paula

Aos 70 anos, a aposentada Socorro Bezerra Farias é apaixonada por leitura. Ela conta que quando foi alfabetizada leu o primeiro livro e não parou mais. Para passar o tempo vale qualquer gênero e com o avanço da tecnologia, até na internet ela se diverte. "Pra mim é um divertimento, eu não sinto minha memória enferrujada. Acho que é porque eu nunca deixei, estou sempre ativa. Se não leio, eu danço, escuto música ou viajo" assume.

Assim como Socorro, o Brasil tem hoje 23 milhões de pessoas acima de 60 anos, o que corresponde a 12,5% da população, segundo o último Censo do IBGE/2015. E como eles estão cada vez mais ativos a preocupação e os cuidados com o cérebro não podem ser esquecidos.

E é exatamente o que faz Thereza Fernanda Saraiva Leão Câmera Teles, 56. Uma vez por semana ela frequenta as aulas de ginástica cerebral, no dia a dia conta que já percebeu melhoras acentuadas. "Somos expostos a muitas informações diariamente e por isso não podemos deixar de cuidar da saúde do nosso cérebro. Com as aulas, que estimulam bastante a memória, vejo que minha concentração nas atividades potencializou, a criatividade aflorou e até o raciocínio lógico melhorou. Hoje, consigo resolver problemas bem mais rápidos que antes", assegura.

Para o neurologista Paulo Nóbrega, os exercícios para o cérebro devem ser praticados todos os dias. "Ler um romance, aprender novas línguas, ouvir música, manter uma alimentação saudável, se exercitar e manter uma vida social agradável são fatores que melhoram a oxigenação cerebral”.

Socorro Bezerra e Thereza Fernanda Saraiva / Foto Fabiane de Paula

“É impressionante como percebemos, em momentos como esse, o quão dependentes estamos da tecnologia. Ao abrir mão de aplicativos ou fontes de consulta como Google, parece que nos sentimos vulneráveis”, analisa a aposentada Maria Fátima Guimarães, 69.

“Aqui, é preciso interagir em equipe e jamais desistir ou ficar com “preguiça”, afirma Wellisson Cordeiro, 12

Diversão inteligente

A intenção inicial é se divertir. Mas, principalmente para um público que se distrai há mais tempo, os jogos eletrônicos podem ir além. Idosos que brincam com joguinhos de computador, videogames e tablets, além de se manterem mais ativos, evitam o surgimento ou o agravamento de doenças neurológicas, comenta o neurologista Paulo Nóbrega. “A indicação desses jogos é bastante favorável para idosos e os resultados são promissores, possibilitam um tipo de atividade que vence o sedentarismo”. O site Lumosity, por exemplo, surge com a proposta de, através de uma assinatura mensal, treinar o cérebro de assinantes com o objetivo de retardar o envelhecimento mental. A técnica dos jogos é o treinamento cognitivo. Esses exercícios envolvem atividades para a memória, treino para atenção, capacidade construtiva, inclusive atividades de lazer e o convívio com pessoas fora do círculo social padrão.

Maria de Fátima Guimarães, 69, se diverte com os jogos e conta que se sente cada dia melhor com o corpo e a mente. “Além de treinar muay thai, gosto de viajar, ler e estar entre os jovens. Diferente do que muitos pensam dos idosos, adoramos a tecnologia. Participo de um grupo da melhor idade onde aprendemos a usar aplicativos nos celulares e tablets”, afirma.

De acordo com Paulo, os videogames que combinam jogos com exercícios ajudam a melhorar o desempenho motor e podem diminuir os sintomas de doenças como depressão. O idoso vivencia movimentos realizados em lutas, partidas de golfe, tênis ou boliche. “A pessoa exercita diferentes partes de seu corpo como dedos, mãos, braços, pernas e cabeça, e trazem resultados positivos em relação à coordenação motora do jogador”, relata.

Há também jogos eletrônicos para exercícios de memória, como quebra-cabeças, que se mostram eficazes na saúde cognitiva dos idosos. Paulo explica que a memória é solidificada, formada e reformulada com o passar dos anos, entretanto, a velocidade de captação e distribuição são alteradas na medida em que envelhecem, mas podem melhorar muito com o uso das novas tecnologias voltadas ao entretenimento, como sites de jogos interativos.