Diário do Nordeste Plus

PROFISSÃO ÁRBITRO:
conheça a rotina dos homens do apito

Saiba quanto eles ganham, como é a rotina de trabalho e de que modo se pode atuar na profissão

Ser jogador de futebol já foi e continua sendo o sonho de quase todas as crianças. O desejo de um dia vir a ser um profissional do mundo da bola, na maioria das vezes, é transferido de pai para filho. Porém, apenas poucas pessoas conseguem ver essa fantasia se concretizar. O esporte, além de ser árduo, é para poucos. Algumas pessoas, no entanto, possuem um amor tão grande pela atividade que não conseguem se imaginar fora das quatro linhas. O sonho de ser atleta não se realizou para muitos, mas o não que ouviram foi tangível para surgir outro encantamento: fazer parte do time da arbitragem.

Profissão de árbitro é sempre complicada. Aqui, profissionais precisam ser escoltados até o túnel pela polícia no estádio
Foto: A.Hermes/BomtempoFM

O árbitro e a sua performance mudaram muito conforme o tempo. A atividade, que há alguns anos era realizada apenas para manter um contato direto com os jogadores profissionais, tornou-se profissão, reconhecida pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) e, aqui no Brasil, pelo governo da presidente afastada Dilma Rousseff. Mesmo com essa condecoração ainda é difícil se viver apenas do exercício. A Fifa junto com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), propõem aos árbitros que, além da arbitragem, eles tenham uma segunda profissão.

Os profissionais não possuem uma renda mensal fixa e só ganham dinheiro quando arbitram uma partida. Ser escalado para um jogo também não é tão fácil quanto parece. Os árbitros devem contar com a sorte, já que toda convocação é feita através de um sorteio. Há casos que profissionais passam meses sem serem sorteados. Isso tudo influencia no seu faturamento. Um juiz mais capacitado, que possui escudo Fifa, tem mais chances de ser escalado do que um com bandeira da CBF, que, por sua vez, tem mais oportunidade do que um com bandeira regional e assim sucessivamente.

Calcular quanto um árbitro de futebol arrecada por mês não é uma das tarefas mais simples. O dinheiro que o profissional ganha é bastante relativo, varia de acordo com a categoria em que ele se encontra (CBF3, CBF2, CBF1, Aspirante à Fifa e Fifa) e da competição em que apita (estaduais, regionais, nacionais e internacionais). Atualmente um árbitro que apita Série A, ganha em torno de R$ 1.900 a R$ 3.850 por jogo e aqueles formados pela Federação Cearense de Futebol (FCF) ganham em torno de R$ 4 mil mensais. O valor, no entanto, pode variar.

O que você conhece de arbitragem? Teste seus conhecimentos neste vídeo:

Léo Simão: Do subúrbio de Fortaleza à Copa do Nordeste

Léo Simão, segundo da esquerda para a direita em partida pelo Estadual Foto: Arquivo pessoal

O cascavelense Leonardo Simão Holanda, conhecido profissionalmente como Léo Simão, quis ser jogador de futebol desde jovem, devido às influências do pai, um amante do esporte. Ele até que tentou, mas aos 17 anos reconheceu que não teria como seguir carreira jogando pelos gramados. Para manter o contato com o mundo esportivo, ingressou em uma faculdade de Educação Física. No entanto, durante o curso percebeu que não era aquilo que queria para a vida. Perdido, foi conversar com o pai, que, dessa vez, o incentivou a entrar num curso preparatório para arbitragem da FCF.

Nas aulas, ele soube teoricamente como executar a profissão. Porém, seu melhor professor foi o “estágio” nos subúrbios, no qual ele recordará para a vida toda. Nas competições amadoras, comuns nas capitais e no interior, é normal ocorrerem agressões físicas ao árbitro. “Não foi fácil, afinal tudo no início tem suas dificuldades. Comecei apitando em subúrbios onde, na maioria das vezes, não existe respeito daqueles de que estão jogando perante a arbitragem, mas tenho certeza que tudo foi fundamental para meu desenvolvimento profissional”, ressalta Léo.

Depois do amadorismo, chegou a fase profissional. Em 2014, em uma tarde no estádio Alcides Santos, realizou seu sonho e o de seu pai. Apitou profissionalmente o jogo entre Tiradentes e Icasa, pela primeira divisão do Campeonato Cearense. Depois desse vieram outras marcas importantes, como clássicos-reis (jogos entre Ceará x Fortaleza), Copa do Nordeste e Série B do Brasileiro.

O combustível para que o árbitro dê continuidade à sua profissão é a família. Ele diz que, desde o princípio, o pai, mãe, esposas e filhos os apoiaram, mesmo com a aflição. Quando Léo é escalado para apitar os jogos, os parentes se reúnem para assistir e torcer.

O momento mais complicado na carreira de árbitro não aconteceu dentro dos gramados, mas, sim, fora dele. Dias depois de receber escudo da CBF, o pai, melhor amigo e incentivador, faleceu. Depois do ocorrido, o profissional se desmotivou e demorou para encontrar forças para seguir em frente e só se reanimou com a ajuda da família.

Quase abandono

Léo, com a bola na mão, antes de um Clássico-Rei. Foto: Arquivo pessoal

Antes de um Clássico-Rei, o árbitro recebeu ameaças pessoais. Quando estava saindo de casa para apitar a partida, viu a mãe chorando, ajoelhada em frente a um altar pedindo proteção. Nesse momento, ele confessa que pensou muito na desistência, mas o seu caráter, profissionalismo e honestidade o fizeram ir adiante.

A profissão afasta o árbitro de momentos fundamentais junto das pessoas mais importantes. Léo, por exemplo, abdicou de muitas datas marcantes para ter que viajar e apitar jogos. “Não é fácil, arbitragem é um sacerdócio, só consegue prosseguir aqueles que fazem isso com paixão. Recordo de muitos momentos que perdi, como aniversário de parentes queridos, momentos com meus filhos, festinhas no colégio, e realmente não é nada fácil. Mas os sonhos só são alcançados se persistimos naquilo que desejamos. Foram momentos sofridos, mas recompensadores. Estamos sempre em treinamento teórico e físico, tanto junto à Federação quanto no dia a dia, visto que sempre temos que estar prontos. As viagens são constantes e temos sempre que ter disponibilidade”, destaca.

Aposentadoria

Léo durante um curso da Fifa. Foto: Arquivo pessoal

A idade máxima para um árbitro apitar jogos é de 45 anos. Ainda faltam muitos anos para Léo se aposentar, mas o profissional já pensa no futuro. Ele não quer abandonar de vez a arbitragem. Depois de aposentado, pretende ser instrutor, comentarista ou virar membro da comissão. “Aprendi que honestidade e caráter são fundamentais em todos os campos da nossa vida. Nada é mais recompensador que finalizar algo com o sentimento de trabalho bem feito, de certeza que sempre estamos ali para fazer o melhor”, finaliza.

César Magalhães: Uma família de árbitros

César apitando a Série A. Foto: reprodução da TV

A carreira do profissional é daqueles casos diferentes. César Magalhães se preparou a vida toda para atuar na profissão. Isso porque, sua grande motivação estava dentro de casa. Seu padastro, Luiz Viera Vila Nova, foi árbitro renomado. César passou a infância indo para jogos importantes, como os da seleção, para assistir seu Luiz atuar.

O árbitro começou a apitar nas categorias de base e no Campeonato Cearense de futebol feminino. Sua primeira partida atuando como profissional aconteceu no jogo entre Alvinegro x Verdes Mares, no Colégio da Polícia Militar, no dia 1º de março de 2008. Ele se lembra que

Família e fase mais difícil

César antes de um jogo entre Fortaleza e Ceará. Foto: Arquivo pessoal

Os familiares de César Magalhães apoiaram e incentivaram o árbitro desde o início da sua carreira. Como a família já tinha uma conexão com a profissão foi mais normal de aceitarem a decisão do profissional.

Por falar nos parentes, foram eles que reergueram e sofreram junto com o profissional na fase mais complicada. No ano de 2012, César foi afastado do Campeonato Cearense por conta de um erro cometido na partida entre o Guarani de Juazeiro e o Guarani de Sobral. Na ocasião, o árbitro errou ao marcar um pênalti. Isso gerou revolta na torcida, que invadiu o gramado.

Quase desistência da arbitragem e outras profissões

César, com a bola na mão, antes de amistoso entre Ceará e Flamengo. Foto: Arquivo pessoal

César Magalhães quase desistiu da carreira por não possuir uma renda mensal fixa e por causa das inúmeras dificuldades encontradas para se manter atuante na profissão, como: treinamento psicológico, corporal e nutricional. As atividades no fim do mês pesavam no bolso do profissional.

Para manter sua paixão viva, ele ingressou em outra carreira. O profissional é formado em administração de empresas, cursa MBA em gestão de projetos e atualmente é gerente de implementação do grupo Casa Magalhães. “Aprendi muito como lidar com pressão, acho que isso é o que mais acontece com os árbitros. Conseguir racionar rápido em ambientes de pressão não é fácil”, finaliza.

Dacildo Mourão: O primeiro árbitro cearense que chegou ao quadro da Fifa

Dacildo Mourão antes de um Clássico-Rei. Foto: André Lima

Ser árbitro de futebol nunca foi o sonho número um de Dacildo. O desejo do menino era seguir os passos dos seus irmãos e se firmar em um time profissional. Por isso, desde muito novo começou a jogar na escolinha do Sesi, na Barra do Ceará, bairro de Fortaleza. No centro de treinamento, ele conheceu Manoel Araújo, seu treinador e ex-árbitro. Foi com o professor, que Dacildo começou a observar a profissão com outros olhos.

Com 14 anos, ele começou a entrar na arbitragem. Dacildo ia diariamente assistir ao campeonato das indústrias e em um desses jogos o juiz faltou. Como não tinha substituto imediato, chamaram o menino para apitar e na estreia expulsou seis atletas. Encerrou a partida agradando todo mundo e virou árbitro titular. Depois desse momento, ele soube o que queria como carreira. Com 18 anos decidiu fazer o curso de arbitragem pela Federação e aos 20 já estava no quadro.

O primeiro jogo de Dacildo como profissional foi entre Quixadá x Tiradentes, partida relativamente “fácil”. Querendo testar o aspirante, o presidente da Federação na época, coronel Barroso, o escalou para apitar o Clássico da Paz (jogo entre Ceará x Ferroviário) no seu segundo jogo. O desempenho de Dacildo foi brilhante e impressionou o coronel, que quis imediatamente colocá-lo na CBF, mas o regulamento só permitia a entrada de novos árbitros com 23 anos de idade mínima.

Enquanto esperava para ingressar na CBF, Dacildo decidiu seguir carreira acadêmica. Ficou apitando partidas do Campeonato Cearense e estudando administração na Universidade Federal do Ceará (UFC). Aos 23 anos, ele começou a percorrer o País para arbitrar e aos 33 conseguiu um feito impressionante, entrou no quadro de árbitros da Fifa. A condecoração foi um divisor de águas. O profissional teve que se dedicar especialmente à carreira e foi jubilado da Universidade.

Após o ingresso na Fifa, Dacildo participou de torneios importantes como as Olimpíadas Universitárias no Japão, Eliminatórias da Copa, Sul-americana, Libertadores, Conmebol, entre outras.

Profissão do árbitro na atualidade

Dacildo durante premiação do Sistema Verdes Mares

O profissional que se aposentou há um tempo, nunca deixou por completo a carreira. Hoje se dedica em repassar o que aprendeu para outros árbitros e em organizar campeonatos no interior do Estado. Dacildo também fica decepcionado ao ver que o perfil do árbitro tem, cada dia, ficado pior.

Muitos árbitros desistiram da carreira pelas exigências impostas pela CBF. Atualmente os testes físicos aplicados pela Confederação têm aposentado os profissionais muitos antes do tempo previsto. Segundo Dacildo, os árbitros estão deixando de lado o olhar clínico dos detalhes na partida, para se dedicar ao corpo.