Diário do Nordeste Plus

Perder peso para viver

Conheça as histórias de três pessoas que chegaram a pesar mais de duzentos quilos e hoje espalham saúde e disposição

Comer é um dos maiores prazeres da vida. Esse simples hábito pode tornar o dia mais feliz. Mas para muitas pessoas a hora de se nutrir acaba virando uma obsessão, ou seja, elas consomem alimentos em grandes quantidades, muito mais do que precisam. Comer em excesso, por muitas vezes, é ocasionado pela fome imaginária e torna a pessoa refém de alimentos gordurosos, calóricos e de fácil mastigação, ocasionando o acúmulo excessivo de peso.

Os obesos precisam de orientação antes de tentar a cirurgia bariátrica. Foto: Helene Santos

O índice de massa corporal (IMC) dos brasileiros tem aumentado nos últimos anos. Um estudo publicado pela revista Lancet aponta que um quinto da população brasileira, ou seja, 30 milhões de pessoas são obesas. O número é maior entre as mulheres do que os homens, 23% e 17%, respectivamente. Atualmente, o Brasil está na 5ª (mulheres) e 3ª colocação (homens) no ranking da obesidade. Dado alarmante, já que em 1975 estávamos ocupando os 10º e 9º lugares.

Para tentar controlar a obesidade, novas técnicas foram e estão sendo criadas. E, a cada ano que passa, cresce o número de adeptos. Um grande exemplo é a cirurgia de redução de estômago, que aumentou em 6,2%. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), no ano passado, 2015, 93,5 mil pessoas passaram pelo método.

No entanto, a operação não é algo simples. O paciente deve estar disposto a mudar de vida totalmente e deixar todos os seus vícios no passado. Antes da cirurgia em si, ele deve passar por uma equipe de profissionais para orientá-lo, como nutricionista, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, dentista, psicóloga e por fim cirurgião.

Cada profissional desempenha um papel específico para que o paciente elimine o peso de forma corretamente e saiba conduzir seu novo corpo. As especialistas Andréa Cavalcante e Karine Moura contam como auxiliam os usuários.

Uma vida de sobrepeso

Adeus roupas gigantes feitas pela mãe. Foto: Helene Santos

Isac Aires sempre foi uma criança fofinha, digna de comercial de fralda. As gordurinhas foram um charme na época de criança. Todo mundo parava o menino e o presenteava. O mimo? Comida. As pessoas sempre tinham um biscoito, um bolo, um sanduíche para oferecer e o menino ia aceitando. Aos 11 anos de idade, já vestia calças de número 50 e essa foi a primeira maior dificuldade de ser obeso. Com o passar dos anos, Isac viu seu peso aumentar, ultrapassando a casa dos 200kg. Sua mãe precisou aprender a costurar para fazer suas roupas.

Conforme o peso aumentava, sua vida ia sendo desperdiçada. Formou-se em Matemática, porém, não conseguiu dar aulas, pois não aguentava ficar de pé, ou seja, teve que sair do emprego. A 'prisão' ia além da sua casa. Todos os locais que frequentava a exclusão estava presente. “O mundo não está preparado para as diferenças e para os grupos minoritários. Tinha muita dificuldade de encontrar roupas que me coubessem. Sempre havia uma peça ou outra de que eu gostava e não podia usar porque ficava extremamente apertada. O que eu não gostava cabia em mim, ou seja, eu não escolhia as roupas, elas que me escolhiam, só tinha aquela opção e pronto. Além disso, a variedade era mínima e com preços exorbitantes. A maioria das minhas roupas eram feitas pela minha mãe. Ela ia ao Centro, comprava o tecido e passava dias costurando o que eu precisava. Da cueca à camisa, tudo era feito na máquina de costura dentro de casa. Outra dificuldade era dentro do ônibus. Passar pela catraca era ser alvo de olhares tortos. Muitas vezes fiquei preso na catraca, outras o cobrador permitia eu descer por trás, ciente da minha situação. No ônibus ninguém sentava ao meu lado, afinal eu sabia que o meu corpo ultrapassava o limite de um banco. Na praia, quebrei muitas cadeiras plásticas, isso quando elas me embarcavam. Depois pedia logo pro garçom uma cadeira de madeira do salão assim não corria o risco de cair. Eu tinha medo das pessoas nos relacionamentos pessoais. Uma verdadeira fobia social. Faziam chacotas, bullying, preconceito. A população enxerga o gordo um sujeito preguiçoso, não um doente”.

Isac conta sua experiência para um grupo de obesos. Foto: Helene Santos

Após 29 anos vivendo como um obeso, Isac decidiu mudar de vida. Depois de não obter sucesso nas inúmeras dietas que fez (começavam na segunda-feira e terminavam na quarta), ele decidiu que o melhor a ser feito era a cirurgia bariátrica. Antes da operação, o cirurgião alertou que ele deveria perder 21 kg naturalmente. Essa pré-eliminação de peso faz total diferença na hora do tratamento, fazendo com que o paciente fique mais preparado.

Com a cirurgia realizada, Isac eliminou 109 kg e fala que a maior dificuldade depois de perder tanto peso não é a mudança alimentar, mas sim, se acostumar com o seu novo corpo. Mesmo depois de algum tempo, ele se olha no espelho e se surpreende com algumas diferenças.

Antes e depois de Isac que agora pesa 90 kg. Foto: Arquivo pessoal

Atualmente, Isac mantém a forma e está pesando 90 kg. Sua vida é outra. Hoje, sua alimentação não chega aos pés do que era antes e ele também virou fã da academia e de qualquer outros esportes que chamarem ele. Mesmo com várias atividades no seu dia, ele ainda encontra tempo para dividir suas histórias com pessoas obesas, que assim como ele querem eliminar peso e começar uma outra vida.

De atleta para obesidade

Elvis Carlos, gerente de redes alimentícias de Fortaleza, teve uma adolescência sempre ativa nas competições esportivas. Dedicava boa parte de sua vida aos esportes. Porém, aos 23 anos, deixou os exercícios de lado e depositou sua paixão para a comida. Comer descontroladamente virou hábito. Não deu muita importância ao peso que estava ganhando no momento e nem aos comentários das pessoas e se deixou levar. O tempo passou, e quando se olhou no espelho já estava pesando 206 kg e não conseguia mais voltar ao peso de antes.

Depois de perder a confiança, ver sua saúde ficando cada vez mais debilitada e notar que as oportunidades estavam fechando as portas em seu rosto, foi em busca de ajuda, teve que reeducar seu paladar e passou por vários profissionais, até atingir seu objetivo, voltar ao corpo e à vida que tinha.

Ele nos fala que quando era obeso não reconhecia o preconceito. Mas ficou nítido o prejulgamento das pessoas com o obeso após perder 106 kg. Após a eliminação, muitos comentários vieram à tona, mostrando como era o sentimento das pessoas com o seu antigo corpo.

Elvis antes de perder 106 kg. Foto: Arquivo pessoal

Atualmente, ele vivencia a vida com os seus 97 kg. É muito mais ativo hoje do que era na adolescência. Tem tempo de gerenciar seis estabelecimentos comerciais na Capital cearense e ainda se exercita diariamente, hábito impossível de se fazer antigamente com os seus 206 quilos. “Busquem urgente por ajuda médica, pois não justifica viver em uma prisão (seu próprio corpo), a vida é muito bela para ser vivida, pois tudo na vida é possível basta você decidir e focar”.

De volta para o mundo

Ayla mostra roupas que perdeu graças à redução de peso que teve. Foto: Thiago Gadelha

A advogada Ayla Saldanha, que teve uma infância ativa, saindo para vivenciar o mundo, viu-se trancafiada em casa pelo excesso de peso. Com dificuldades de se vestir e vendo sua saúde cada dia ficar pior, decidiu se reinventar. Largou o cigarro e resolveu eliminar peso.

Ayla antes de perde peso. Foto: Arquivo pessoal

Segundo Ayla, ela não sofreu nenhuma dificuldade após a eliminação. Ao contrário, sua vida só melhorou e tudo teve um sabor a mais. Antigamente, ela só vivia dentro de uma rede e agora aproveita todos os dias para conhecer o lado bom da vida com os amigos e a família.

Principais receios

A psicóloga Roberta Costa, especialista em obesidade e transtornos alimentares, diz que os maiores medos dos pacientes em relação à bariátrica é com a anestesia geral e o pós operatório. Isso porque o primeiro mês após a cirurgia costuma ser o mais difícil para a maioria por conta da dieta líquida restrita. Porém, todos estes receios são trabalhados junto com a profissional no pré-operatório. “Nesse período, o paciente é preparado e avaliado para ver se tem condições emocionais de assumir compromissos", afirma Roberta.

Após a realização da cirurgia, é indicado que o paciente continue tendo seguimento terapêutico. Esse acompanhamento faz com que ele se adapte à nova vida e aos novos hábitos.