Diário do Nordeste Plus

Os bailes para a melhor idade

Atividade como a dança ajuda a exercitar a mente dos idosos, além de ser uma opção de diversão

Ideal para qualquer idade, a dança traz inúmeros benefícios positivos para quem pratica a atividade, inclusive na melhor idade. É o que destaca a psicóloga Monisa Segundo Miranda. “Uma das principais causas de depressão na terceira idade é justamente a inatividade após a aposentadoria, que oportuniza perdas pessoais e sociais e, muitas vezes, leva ao isolamento, à ausência de projetos de vida, à redução da autoestima, ao sentimento de inutilidade. O idoso também precisa ter momentos de lazer, projetos de vida, sonhos e objetivos. A dança contribui para tudo isso de uma forma extremamente lúdica e prazerosa”.

O caminho do baile

A dança funciona como uma terapia para os idosos. Foto: Kid Júnior

Em Fortaleza, apontada como a capital brasileira em que é possível encontrar opções de entretenimento diariamente, festas voltadas para esse público, em especial, se consolidam entre a terceira idade, que é figurinha carimbada nos eventos, com programação que vai de terça-feira a domingo.

As mulheres são em maioria, no entanto, os homens também marcam presença. Bem vestidas e maquiadas, acompanhadas dos maridos ou de dançarinos profissionais, chegam assim que a badalação começa e só arredam o pé da pista de dança quando todos vão embora. É o caso de Maria Aidê Dantas, de 91 anos, que toda quinta-feira marca presença na whiskeria do Parque Recreio, que tem como atração o cantor Fonseca Jr. Acompanhada do dançarino profissional, Antônio Alexandre Filho, de 63 anos, a parceria entre os dois é antiga: nasceu há cerca de 10 anos.

Maria Aidê Dantas vai ao Parque Recreio acompanhada do dançarino Antônio Alexandre. Foto: Kid Júnior

Maria Aidê recebeu indicação médica para começar a dançar, aos 75 anos, quando descobriu que estava com artrose, considerada a mais comum das doenças reumáticas e que tem como principal sintoma a dor nas articulações. Como nunca tinha se aventurado em nenhum ritmo, procurou um curso no Sesc (Serviço Social do Comércio). Desde então, se apaixonou pela vida de dançarina.

“Quando descobri a artrose, o médico disse que eu não podia caminhar e indicou a dança como atividade física. Eu disse que não sabia. Tive que entrar no curso para dar os primeiros passos. Hoje eu não consigo viver sem”.

Antônio Alexandre garante que a parceira é animada. “Às vezes ela pede para sentar, devido ao problema no joelho. Quando o movimento tá melhor, ela fica até o fim, não quer ir embora”. Com exceção da segunda-feira, da terça e do domingo, todos os dias da semana do dançarino estão ocupados com suas parceiras. “Na quarta-feira, vou ao Alpendre da Villa, na quinta danço com a Aidê no Parque Recreio, sexta-feira vou ao Círculo Militar e, geralmente, no sábado a programação não é fixa”.

“A dança nos proporciona saúde. Tenho diabetes há 32 anos, mas não me lamento de nada. É tudo controlado. Sou um dançarino maduro, mas também um dos mais invejados”, completou, sobre os benefícios da atividade, sem perder o bom humor.

Família unida

Líriam Maia posa ao lado da filha, Verônica Maia. Após ficarem viúvas, é normal fazerem companhia uma à outra. Foto: Kid Júnior

Líriam Maia, de 85 anos e “6 meses”, como gosta de frisar, é uma das primeiras a chegar ao Parque Recreio às quintas-feiras. Ela vai à “tertúlia” acompanhada da filha, Verônica Maia. Às vezes, até a neta acompanha a programação da família. Verônica diz que, desde que as duas ficaram viúvas, é comum fazerem companhia uma à outra.

Apesar de se encaixar no grupo da “melhor idade”, Líriam tem fôlego para sair três vezes por semana para dançar. Ao contrário de algumas amigas, não tem um dançarino fixo, mas costuma dizer sim quando recebe um convite para entrar na pista de dança. “Tenho muitos amigos que me convidam. Isso aqui é minha vida. Mesmo que acorde me sentindo mole, eu venho de qualquer jeito”.

Líriam recebe convite de amigos para dançar. Foto: Kid Júnior

“Eu nasci dançando. Com 2 anos, minha mãe já me matriculou nas aulas. Gosto muito de forró, pois me lembra o meu marido”.

Solange Cadilha, de 66 anos, é carioca e mora em Fortaleza há dois. Conheceu a “tertúlia” do Parque Recreio através da dica de uma amiga. “A gente fica sentada na mesa e alguns homens nos tiram para dançar. Quando não tem ninguém, a gente dança com o dançarino, sem problema nenhum”.

Ela, que é apaixonada pelos boleros e por músicas românticas, faz questão de destacar os benefícios que a atividade traz para o seu corpo. “A gente faz movimento corporal, além de fazer bem para a cabeça, pro nosso dia a dia e é importante para socializar com outras pessoas”.

Solange Cadilha mora em Fortaleza há dois anos e frequenta as tertúlias acompanhada das amigas Foto: Kid Júnior

Leide e Evilásio Fialho se mudaram de Natal para Fortaleza há cinco anos e, desde então, frequentam “tertúlias” durante a semana onde dançam juntos. Quem indicou a festa na whiskeria do Parque Recreio foi a irmã de Leide, que gosta de sair para dançar com seu dançarino.

Além de dançar na companhia da esposa, Evilásio, que já foi cantor profissional, por hobby, eventualmente se junta ao artista da noite, Fonseca Jr. e solta o vozeirão. “Gosto de música romântica e o bolero é um dos ritmos que traduz mensagens de carinho. Somos cearenses, mas estávamos há 42 anos fora do Ceará e voltamos há pouco tempo. Ainda estamos conhecendo a noite cearense”, contou ele.

Casal Leide e Evilásio Fialho são presença constante na noite de Fortaleza. Foto: Kid Júnior

“Nós éramos professores universitários e já que hoje somos aposentados aproveitamos nosso tempo livre para nos divertir”, acrescentou Evilásio.

“A dança faz bem não só para o corpo mas também para a cabeça. Quando eu me arrumo, me sinto jovem. Eu gosto muito de me arrumar, sou vaidosa, além de nos proporcionar a companhia dos amigos”, disse Leide.

Estrela dos bailes

O cantor Fonseca Jr. se dedica aos bailes dançantes. Foto: Kid Júnior

Apesar de ser uma das principais atrações dos bailes dançantes de Fortaleza (ele se apresenta na whiskeria do Parque Recreio, no Alpendre da Villa e no Círculo Militar), Fonseca Jr. nasceu no interior do Piauí. Em 1987, após uma apresentação no Ideal Clube, se apaixonou pela cidade alencarina e, desde então, adotou Fortaleza como casa.

Com agenda lotada durante a semana, é um dos principais incentivadores da dança de salão em solo cearense. Por isso, em 2012, decidiu reunir dezenas de depoimentos de quem mudou de vida após inserir a dança em sua rotina. Assim nasceu o livro “Um baile, minha história”.

“Quando viemos de Teresina, percebemos que havia uma invasão de outros ritmos e a sociedade dançante ficou sem eventos que os satisfizessem. Eles não tinham, por exemplo, onde dançar um bolero”, relembrou.

“Eu ouço muitos depoimentos de pessoas que antes tinham depressão e depois dos bailes mudaram de vida. Quis juntar essas história, por isso surgiu o livro. A atividade dá uma sobrevida com qualidade”.

A cada semana, Fonseca Jr. tem o cuidado de atualizar o repertório das tertúlias onde é a principal atração. E ele garante que toca música para todos os gostos. "A gente divide a festa em blocos, como bolero, samba, forró, xote e, assim, todos os estilos compõem o baile. Também organizamos os bailes temáticos, como por exemplo o Baile da Saudade, no Carnaval, que acontece no Náutico”.

Receber depoimentos de pessoas que mudaram de vida depois que começaram a frequentar os bailes dançantes são gratificantes para o cantor. “Eu acho que é até mais gratificante para mim do que para eles. É fazer o bem e se alimentar dele”.

Sandra Veloso e Ítalo Girão. Foto: Kid Júnior

Sandra Veloso, de 64 anos, sempre gostou de dançar e há cerca de sete anos descobriu na noite, por indicação de um professor, mais um prazer. “É um divertimento que preenche minha rotina e me traz benefícios. Primeiro porque criamos um círculo de amizade grande, além do bem estar, já que eu tenho uma vida quase sedentária e a dança entra no meu dia a dia para balancear”.

Em uma quarta-feira no Alpendre da Villa, ela estava acompanhada do dançarino Ítalo Brasil, de 36 anos. Ele tem uma relação mais longa com a atividade, já que está inserido no meio há cerca de 16 anos. “Sou apaixonado por forró, já que foi onde tudo começou começou, mas há 10 anos tenho um carinho especial pelo tango. O que costumo dizer é quando você entra para a dança, rejuvenesce a alma, seu espírito e você ainda cria uma nova família”.

Serviço

Psicóloga
Monisa Segundo Miranda
WhasApp: (85) 99746.5762