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O avanço da medicina esportiva

Novas técnicas e equipamentos encurtam a recuperação de atletas profissionais e amadores e afastam os medos de contusões

Um dos maiores desejos de todo praticante de atividade física, seja profissional ou amador, é evitar as contusões. Uma lesão no joelho ou um problema no púbis, muitas vezes, poderia significar que o atleta iria ficar meses afastado ou até ter que deixar de fazer tal exercício. O avanço dos equipamentos e das técnicas, no entanto, tem mudado essa realidade.

A contusão de Ronaldo "Fenômeno" pela Inter de Milão em 2000 quase o tira da Copa do Mundo de 2002. A recuperação foi dramática. Hoje poderia ter sido mais rápida Foto: Reuters/Paolo Cocco

Os especialistas em medicina esportiva destacam que a área evoluiu bastante em virtude tanto do desenvolvimento tecnológico de aparelhos de imagens e técnicas cirúrgicas, como também pelo entendimento da importância do trabalho de uma equipe multidisciplinar. Segundo os médicos, esses avanços diminuem o tempo do atleta no departamento médico e ajudam a prevenir lesões.

O ortopedista e médico do esporte, José Roberto, explica que a medicina no esporte não é uma especialidade nova, mas que foi conhecida como especificidade em 1927, quando foi criada a Federação Internacional. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte foi fundada em 1962 e congrega os profissionais que atuam e desenvolvem a área.



José Roberto afirma que os aparelhos de imagem, como a ressonância magnética, contribuíram para um diagnóstico mais preciso que ajuda no tratamento e na recuperação dos atletas. O médico enfatiza também que as técnicas cirúrgicas evoluíram em função das máquinas e os procedimentos agridem menos, favorecendo assim o retorno mais rápido à prática da atividade física.

Médico José Roberto (à direita) ao lado de Kenneth Cooper, autor do livro Aerobics, que deu origem a ginástica aeróbica praticada tanto nas academias quanto competitivamente Foto: Arquivo Pessoal

Para o especialista, outro fator que colaborou para o desenvolvimento da área foi a quantidade de pessoas praticando exercícios físicos. Ele explica que o maior número de pessoas levou a um intercâmbio entre as áreas, tornando cada vez mais indispensável o trabalho de uma equipe multidisciplinar.

“O maior número de pessoas praticando exercícios físicos levou a um intercâmbio entre o professor de educação física, nutricionista e fisioterapeuta. Hoje não se admite mais um esporte competitivo sem ter uma equipe multidisciplinar. É impossível você tratar tudo”, destaca. Ele acrescenta ainda que até as empresas que produzem artigos esportivos estão pesquisando para aperfeiçoar a performance e assim ofertar itens que diminuem impactos, por exemplo.

O ortopedista e médico do esporte, Flávio Henrique, acredita que a vida útil do atleta hoje está maior devido aos conhecimentos adquiridos nos últimos anos. Ele destaca o salto das técnicas, da aparelhagem e do protocolo de evolução como fatores que ajudam a melhorar a performance do atleta e tratam as lesões mais precocemente.

Vágner Love, quando estava no Corinthians, passando por bateria de testes no departamento médico do clube Foto: Assessoria de imprensa do Corinthians/Divulgação

O consultor médico do Sport Club Corinthians Paulista, Joaquim Grava, também ressalta que houve uma mudança muito grande para o bem. Ele enfatiza que a aparelhagem e os novos conceitos de fisioterapia ajudaram a mudar o cenário. “Houve uma mudança para o bem muito grande. Tem uma série de aparelhos que fazem com que os atletas melhorem mais rapidamente”, diz.

Em relação especificamente ao futebol, Grava aponta que está ocorrendo uma evolução no trabalho. Ele explica que fundou, junto com José Luís Runco, médico da Seleção Brasileira, a Comissão Nacional dos Médicos de Futebol e promove um encontro anual com os médicos das séries A, B e C. Para ele, ainda falta muito a ser feito, mas a área está evoluindo bastante.

“As diretorias dos clubes, a grande maioria, do Campeonato Brasileiro perceberam que se você tem um departamento médico, com médico profissional, contratado, que tem condições de administrar esse departamento multidisciplinar, economicamente para o clube é muito importante porque diminui a permanência do atleta no setor”, reforça.

O médico cita o Corinthians para mostrar a importância da equipe multidisciplinar. No clube, há, além dele, médicos, fisioterapeutas, nutricionista, fisiologista e um aparelho de ultrassonografia. Grava revela que essa equipe prepara desde os exercícios antes dos atletas irem a campo até orientação dos gramados.

Medicina esportiva no futebol cearense

Os dois maiores clubes do Estado vêm investindo em suas equipes do departamento médico. Com um time cada vez mais congregado às mais diversas áreas, tanto o Ceará quanto o Fortaleza mostram como realizam o trabalho no dia a dia de forma que atuam tanto na prevenção como na recuperação dos atletas.

Equipe multidisciplinar do Fortaleza trabalha para reduzir o número de atletass no departamento médico do clube Foto: Bruno Gomes

O trabalho do departamento médico do Fortaleza Esporte Clube conta, dentre outros, com médico, nutricionista, fisioterapeuta, massagista, fisiologista, psicólogo e preparador físico. Todos os profissionais atuam de forma integrada e seguem um protocolo de trabalho, no qual as informações são repassadas entre as áreas, discutidas e compiladas até chegar ao treinador do time.

O preparador físico Glydiston Ananias conta que o trabalho desenvolvido dentro do clube é uma engrenagem e cada área é como se fosse um dente desta engrenagem. Ele fala que todos os dias a equipe se reúne para conversar e leva a situação de cada atleta para que o treinador possa desenvolver o melhor treino possível.



Ananias detalha que após os jogos os atletas passam pelo departamento de fisiologia que vai avaliar cada jogador, o estado que ele se apresenta e traçar como será a recuperação individual. Já quando o atleta é contratado, a equipe multidisciplinar começa a atuar somente após a avaliação do médico, que faz exames como cardíacos e ósseo.

“É muito melhor pararmos o atleta e ele perder duas sessões de treino do que ele se machucar e o perdermos por duas semanas. O objetivo sempre é prevenir, mas nem sempre é possível. Quando a lesão acontece, temos um protocolo a seguir, para que ele volte o mais rápido possível, mas com segurança”, conta.

Maranhão, médico do Fortaleza, fala que o profissional tem papel de orientar e alertar os atletas Foto: Bruno Gomes

O médico do Fortaleza, Glay Maranhão, diz que a atuação da equipe vai desde a contratação do atleta até a parte assistencial e preventiva. Ele explica que há uma escala para que a equipe cubra jogos e treinos e o médico tem o papel também de orientar e alertar sobre as substâncias para evitar que os atletas tomem medicamentos que não são permitidos.

“A importância do médico na equipe de futebol é primordial porque atuamos de várias maneiras. Atuamos aqui no clube desde médico do trabalho, vendo a parte quando o atleta chega ao clube, vai ser contratado, para ver se o atleta tem algum impedimento, estratificar o risco de contratar o jogador. Trabalhamos a parte assistencial, tanto a parte preventiva - nessa parte trabalhamos com fisioterapeuta, nutricionista, departamento de fisiologia e preparador físico, para prevenir lesões - como a parte curativa, já que futebol é esporte de contato”, esclarece.

Liana Benício é a psicóloga do Fortaleza que iniciou recentemente um trabalho mais profissional nesta área Foto: Bruno Gomes

O Fortaleza também iniciou um trabalho recente com psicólogo. No clube há pouco mais de um mês, Liana Benício está desenvolvendo um serviço de longo prazo voltado para o rendimento do atleta, buscando trabalhar as habilidades psicológicas direcionadas à performance. Ela conta que, no primeiro momento, faz atendimentos individuais e depois irá realizar trabalhar em grupo.

Médico Henrique Bastos, do Ceará, fala que os avanços da medicina ajudaram muito os clubes de futebol Foto: Nah Jereissati

No Ceará, o departamento médico é formado por médicos, nutricionista, fisioterapeuta, dentista, fisiologista, preparador físico e massagista. O traumato-ortopedista e médico do esporte, Henrique José Bastos Pinheiro, conta que os avanços da medicina esportiva ajudam a precisar os limites do atleta e assim fazer trabalhos cada vez mais individualizados.

“Antigamente tínhamos muitos problemas em relação à condição do atleta que chega. Antigamente, a gente era muito empírico, no achismo e na experiência do profissional. Hoje, nós temos como ter dados, como ter medidas que servem até de comparativo para outras avaliações”, explica o médico.

Antônio Carlos em tratamento no departamento médico do Ceará Foto: Nah Jereissati

Henrique Bastos diz que os parâmetros atuais permitem trabalhar com o atleta para que ele apresente uma boa resposta em campo. “Hoje, temos como determinar isso para a preparação física e para o treinador. É também uma forma de prevenir, sabendo os limites de um atleta, sabemos passar para a preparação física e para o treinador até que ponto aquele atleta pode ser requisitado. É até uma forma de prevenir uma lesão, você faz todo um trabalho preventivo nesse intuito”, diz.

O médico ressalta também a importância de se trabalhar com uma equipe multidisciplinar. No Ceará, por exemplo, o processo de recuperação do atleta começa com o trabalho do nutricionista e fisiologistas.



“A medicina esportiva chegou ao patamar que ela está hoje graças ao aprimoramento dos estudos, à tecnologia que chegou e também ao avanço das profissões afins, fisiologista esportivo, nutricionista esportivo... Há um tempo, você via que um jogador ia fazer uma partida à noite, ele não podia comer alface porque dava sono. Hoje, temos um nutricionista dentro do clube que faz toda essa preparação para que à medida que ocorra essa preparação física, o atleta tenha uma boa resposta e no dia da competição ele vai fazer uma dieta adequada e após a competição ele também vai ter essa dieta”, fala.

Para Marconi é possível ter um acompanhamento mais individual dos atletas hoje em dia Foto: Nah Jereissati

O nutricionista do Ceará, Paulo Marconi, revela que realiza um trabalho de performance e acompanha cada atleta de forma individualizada e no grupo visando rendimento e recuperação. O serviço de nutrição, segundo ele, cuida das refeições dos jogadores e tem cozinheiro, confeiteiro e auxiliares que produzem as comidas.

“Os atletas quando estão no clube têm todas as refeições. Eles têm café da manhã, almoço, jantar, lanche e ceia. A concentração é feita aqui e toda essa parte é produzida sob minha responsabilidade. Os cardápios são pensados no sentido da rotatividade. Se você pensar a carga horária do atleta, ele passa o ano todo concentrado, então, temos que ter muita expertise na questão dos temperos, molhos e na preparação para não cair na mesmice”, esclarece.

Além das refeições, a equipe de nutrição do clube trabalha com a suplementação dos atletas. Marconi fala que cada jogador tem sua coqueteleira e esta também é feita antes, durante e depois do jogo.

"No pré-jogo, temos fruta, água de coco, isotônico e a suplementação. Quando o jogador retorna da partida, começamos um processo de recuperação. Geralmente, trabalhamos com alimentos que tenham índice glicêmico elevado para recuperar o glicogênio muscular e hepático, então utilizamos pizza e refrigerante. Não é a melhor preparação, mas é o que nós temos. Também fazemos o hipercalórico porque precisamos, após a partida, de recuperação", explica.

Outro serviço presente no departamento médico do Ceará é o de odontologia. O cirurgião dentista Antônio Teixeira desenvolve um trabalho tanto preventivo quanto recuperativo. Quando o atleta chega ao clube, ele faz uma avaliação inicial e faz um relatório em que diz os tratamentos que o jogador precisa.

O dentista afirma que um problema dentário pode potencializar outra lesão que o atleta venha a ter, por isso, é importante o trabalho preventivo. Segundo Teixeira, ele ainda acompanha os clubes nos jogos na capital cearense para cuidar, dentre outros, de fraturas faciais e também da parte curativa.

Em relação à contratação de atletas, Henrique Bastos conta que existe a Associação de Médicos do Futebol, na qual os profissionais tentam passar os dados de um médico para outro. Quando o jogador chegar ao Ceará, ele passará por uma avaliação com toda a equipe do departamento médico que vai preparar um treino individual.

“Eu digo hoje em dia que o médico não veta ninguém. O médico tem uma função importante na contratação, ele estratifica riscos para o diretor de futebol. Nós pegamos o atleta, avaliamos e dizemos que o risco de contratação é esse. Se o diretor de futebol achar que vale a pena, ele contrata, se não, procura outro. Esse é o papel do médico na contratação”, diz.

Lesões que já foram vilões para atletas

Zico teve a carreira encurtada após uma grave lesão no joelho provocada por uma entrada do zagueiro Márcio Nunes Foto: Arquivo Diário do Nordeste

Uma das lesões mais temidas no esporte é no joelho. Antigamente, alguns atletas ficavam meses afastados e tinham, às vezes, a carreira ameaçada. Zico é um exemplo. O craque brasileiro se machucou em 1985, permaneceu longo tempo fora dos gramados e quase fica fora da Copa do Mundo de 1986.

O médico do Fortaleza Esporte Clube, Glay Maranhão, explica que a técnica para tratar a lesão sofrida por Zico melhorou muito e, hoje, ele voltaria muito mais rápido para os treinos. “A medicina como a parte de fisiologia e fisioterapia evolui muito. O Zico teve uma lesão de menisco, foi tratado com uma técnica invasiva. Hoje, melhorou muito a técnica, o atleta volta muito mais rápido para os treinos e jogos”, diz.

O especialista Flávio Henrique esclarece que, no fim da década de 70, os atletas que tinham lesões como a do Zico acabavam retirando o menisco e alguns chegavam até a parar de jogar. “Lesões do menisco, no fim da década de 70, faziam com que ele fosse retirado. O atleta via como troféu. Hoje, você vai preservar, é fundamental para a estrutura, para trabalhar o equilíbrio da musculatura”, diz.

O ortopedista e médico do esporte José Roberto cita ainda exemplos de lesões ligamentar e na cartilagem como contusões que prejudicavam muito o desempenho do atleta. Ele explica que o diagnóstico por imagem e a artroscopia fizeram que o tratamento fosse muito mais rápido na atualidade.