Diário do Nordeste Plus

Nova geração de documentaristas

Com a indústria local do audiovisual aquecida, jovens do Ceará apostam no documentário para ganhar cada vez mais espaço no mercado

Uma câmera na mão e uma boa ideia na cabeça? É preciso muito mais para produzir um bom documentário. No entanto, um time de jovens documentaristas mostra que o Ceará é, sim, um berço de novos talentos.

O professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), Valdo Siqueira, por exemplo, frisa que a demanda no setor tem crescido. A criação dos cursos de audiovisual na cidade também aumentou em número a produção de vídeos documentais.

“Mas, nem sempre foi assim. Pois embora considere um gênero fílmico dos mais democráticos, em âmbito local não possuímos um histórico mais amplo. É relativamente recente o crescimento do número de realizadores em documentário no Estado. Em parte, esse recrudescimento se dá pela sociologização do documentário no Brasil dos anos 60 e 70, e pela necessidade da criação de conteúdos didáticos, que reverberam por aqui, com a inclusão de professores e alunos. Apenas recentemente, com a criação desses cursos, como também pela atividade das ONGs de audiovisual, se ampliou um horizonte para os realizadores de documentário”, pontuou ele.

“Dentro da trajetória documental no Estado, os filmes sempre vinham de fora pra dentro, vide exemplos de ‘Fortaleza anos 20’, recuperado por Paulo Salles e ‘It’s all true’, de Orson Welles, que misturava ficção com imagens documentais ou os filmes de Jean Manzón sobre arquétipos da cultura cearense, além dos filmes da agência de propaganda estatal. É de alguns anos que se percebe um olhar de dentro pra fora. Um olhar bem diverso daquele que vem procurar um exotismo identitário ou uma característica marcante do cearense, como nos filmes antigos”, completou ele, citando exemplos de uma nova geração de documentaristas em atividade, como Arthur Leite, Pedro Cela e Eduardo Cunha, os dois últimos integrantes do coletivo 202b em parceria com Saulo Thiago

Arthur, de 25 anos, venceu, este ano, com o filme “Abissal”, o 21º É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários na categoria “melhor documentário brasileiro curta-metragem” pelo júri oficial. Atrelado ao prêmio, o cearense ainda ganhou uma pré-indicação ao Oscar 2017. Mas sua trajetória no meio começou anos atrás, quando, antes mesmo de entrar no curso de audiovisual, participou do edital “Revelando os Brasis” e foi um dos 40 selecionados. “Sempre foi meu sonho, de menino, fazer filmes. Só que eu nasci no interior, em uma cidade chamada Quixeré, que tem menos de 20 mil habitantes, e em uma família em que a profissão artística era pouco relevante. No Revelando os Brasis, foram 800 e poucos inscritos e apenas 40 projeto selecionados. O meu foi um deles”.

Após participar de uma série de oficinas no Rio de Janeiro, conseguiu colocar em prática seu primeiro documentário, intitulado "Mato Alto: Pedra por pedra". "Foi muito especial a repercussão que o filme teve, porque ele participou de muitos festivais nacionais e internacionais e eu ganhei uma certa projeção. Recebi muitas críticas positivas e meu pai entendeu que eu tinha o dom”.

Após o primeiro trabalho bem sucedido, iniciou o curso na Unifor, onde entrou para um grupo de documentário e afiou ainda mais seu olhar. Durante esse percurso, em 2013, também foi selecionado para o 1º laboratório de audiovisual do Porto Iracema das Artes, onde desenvolveu, em parceria com Bárbara Cariry e Danielle Rotholi, a minissérie ficcional para a TV “Caminho de volta".

Arthur Leite se prepara para lançar "Ferrugem" em 2017 Foto: Thiago Gadelha

“Ela é livremente inspirada na história dos meus avós que, depois de uma década de relacionamento, terminou após uma traição do meu avô. Há quarenta anos, após esse episódio, nunca conheci meu avô e ninguém tem notícias dele. No processo de pesquisa, para compor a protagonista da ficção, decidi questionar minha avó para ter noção do que realmente aconteceu. Ela se negou durante meses a falar e quando a gente bateu o martelo do roteiro, me ligou e perguntou se eu ainda queria a entrevista. Em menos de uma semana, a gente armou tudo e foi para o interior gravar. Foram quatro dias de gravações”.

Desse material, que inicialmente seria para aprofundar a minissérie, surgiu a vontade de transformar a história familiar em documentário. E assim surgiu “Abissal”, que além de premiado e exibido em festivais mundo afora, se tornou o Trabalho de Conclusão de Curso de Arthur. “Eu fui com o foco de fazer um filme sobre o meu avô, que é o personagem desconhecido, só que se tornou um documentário sobre minha avó e eu, porque ela falou muito mais dela e isso refletiu tanto em mim no processo de gravação, que era inevitável que não fosse dessa forma”.

Engana-se quem pensa que transformar um acontecimento de sua vida em um filme foi uma decisão fácil. “Fiquei um pouco abalado com as informações. Oito meses depois, minha equipe, a Dani e a Bárbara, me convenceram a revisitar esse material e eu acabei me apaixonando por ele. Foi quando eu percebi que eu tinha, sim, um filme. Foi um projeto que nasceu no Porto Iracema, por conta da minha série, e eu resolvi montá-lo no meu período do TCC”.

Arthur ressalta a importância de ter vencido o “É Tudo Verdade” na sua carreira. “Sem dúvida nenhuma, é o prêmio mais importante que a gente tem na América Latina em documentário. Com a pré-indicação ao Oscar que também ganhamos, a gente está aguardando até dezembro a ‘short list’, que são os 10 semifinalistas”.

Por enquanto, o cearense segue trabalhando na minissérie “Caminho de volta”, que ele irá gravar ano que vem e ainda contará com a ajuda de Petrus Cariry, além de realizar os festivais “Cine Jardim”, em Pernambuco, e Curta Vazantes, no interior do Ceará, em parceria com o pernambucano Leo Tabosa.

Arthur ainda fará assistência de direção do filme “Nova York”, também de Leo Tabosa, que entra em pré-produção em janeiro e terá como protagonista a atriz Hermila Guedes, além de já ter um novo documentário gravado, intitulado “Ferrugem”, previsto para ser lançado em 2017.

Ele também destaca que, se comparado a produção nacional, nos últimos 10 anos, a produção do Ceará tem despontado no mercado de cinema. “Se a gente pegar a região Nordeste e o eixo Rio-São Paulo, com certeza a produção do Ceará e de Pernambuco se destaca no mundo, com vários realizadores e filmes rodando os principais festivais do circuito. Tem muito a ver também com esse ‘boom’ que tivemos com as escolas de audiovisual”.

Da computação para o audiovisual

Eduardo Cunha, de 24 anos, deixou o curso de Computação e iniciou Publicidade & Propaganda. Foi na segunda graduação que descobriu o talento para a fotografia e o olhar apurado para documentar histórias. O primeiro que produziu, em parceria com Pedro Cela, “Negro Lá, Negro Cá”, mostra a visão de quatro imigrantes africanos residentes em Fortaleza sobre o que é o racismo.

“Eu comecei na fotografia, só que percebi que a difusão é mais fácil com o vídeo. No começo do 202b, a gente fez o site e foi postando ensaios. Aprendemos na garra. O dinheiro que a gente ganhava cobrindo um evento, por exemplo, era utilizado para fazer um projeto próprio. Uma vez viajamos para o Cariri, onde passamos sete dias entrevistando os mestres de cultura da região. No final, guardamos esse filme como experimento, mas foi muito bom para aprender as técnicas”.

Eduardo Cunha integra o coletivo 202b Foto: Thiago Gadelha

“Negro Lá, Negro Cá” nasceu no fim de 2014, como projeto de TCC de Eduardo. “Foram seis dias de entrevistas. Um dos personagens eu já conhecia, o Andy, mas não imaginava as dificuldades que ele passava. Ele tem black power e o pessoal puxava o cabelo dele no ônibus, pois achavam que era peruca. Eu já tinha interesse em fazer um filme sobre os africanos que moram aqui, mas não sabia a partir de qual temática e o depoimento dele me deu um norte”.

O filme ganhou grande repercussão positiva, sendo exibido em mais de 10 festivais como, por exemplo, o XV Encontro de Cinema de Viana do Castelo, em Portugal. “Para mim é muito interessante que esse filme tenha passado por essas mostras, porque quanto mais gente melhor. E eu não gastei quase nada para fazer”, ressalta Eduardo.

Os outros documentários feitos pelo coletivo 202b, “Becco do Cotovelo" (2015) e “Botes Bastardos” (2016) também rodaram ao redor do País. “Nossa proposta é seguir essa linha de trabalho documental. Agora a gente tá em um ponto do coletivo que é de mudança, já que estamos em fase de transição para se tornar uma produtora”.

Eduardo reforça que o trabalho como documentarista lhe proporciona viajar e conhecer personagens incríveis. “Uma vez a gente tava em uma palestra do Tiago Santana [fotógrafo], no Porto Iracema, e ele disse que escolheu fotografar porque viaja e conhece pessoas e o mundo. Também já falei para algumas pessoas a mesma coisa, que se eu trabalhasse em um banco, por exemplo, não iria viajar e conhecer os mestres de cultura do Cariri ou a história do Andy, que é de Cabo Verde. Nós não pensamos em fazer um documentário só porque aquela história vai aparecer e sim porque a gente gosta. A intenção é se manter com o 202b e mantê-lo como prioridade”.

Do Ceará para o mundo

Faltando um mês para a entrega do Trabalho de Conclusão de Curso da graduação em Jornalismo, em 2013, Lucas Maia-Dantas, 25, desistiu da ideia de escrever um livro-reportagem e resolveu montar um documentário como projeto final. Escolheu a Praia do Batoque como cenário da história. “Comecei a gravar no dia 12 de novembro e apresentei no dia 12 de dezembro. Foi meu primeiro contato com o documentário. Peguei minha câmera que gravava vídeo e fui, só que eu me apaixonei muito rápido. Eu aprendi exatamente o que eu gostava de fazer em um mês”.

Foi quando decidiu se inscrever na New York Film Academy em um curso voltado para documentário com duração de um ano. No dia 9 de janeiro do ano seguinte, já tinha se mudado para os Estados Unidos. Como projeto de conclusão de especialização, escolheu um município cearense, Nova Jaguaribara, cidade que submergiu para a construção do açude Castanhão, para ser protagonista de mais um documentário de sua autoria.

A escolha do município não foi à toa, já que os pais do cearense possuem raízes na antiga Jaguaribara. “Eu só sabia qual iria ser a locação. Imaginei que uma cidade inteira embaixo d’água devia ter uma história legal”.

Lucas Maia-Dantas e Alana Oliveira vão abrir juntos a produtora Uno Foto: Thiago Gadelha

Enquanto morava em Nova York, Lucas se comunicava com Alana Oliveira, 23, que na época, apesar de ser cearense, morava em Istambul. Foi quando ela escreveu o projeto “O Terminal" e convidou Lucas, Eduardo Cunha e Pedro Cela para colaborarem. O roteiro da série documental não tinha data para sair do papel, até que em 2016 todos se reencontraram em Fortaleza.

“A partir da nossa amizade e dentro do meu crescimento pessoal, nasceu esse projeto de um nova perspectiva, de como eu achava que o jornalismo deveria ser, que é prezar pela essência de cada pessoa. ‘O Terminal’ são várias histórias que se conectam. O grande lance do documentário, para mim, é que a imagem chega com mais força do que o texto escrito. Foi assim que juntei as pessoas que eu achava que eram as mais talentosas em um projeto”, explicou ela.

Dessa parceria, vieram várias outras. Lucas voltou para Fortaleza esse ano para começar um novo projeto, bancado por uma produtora americana sobre o vírus da zika. “Esse filme vai ser exibido em uma conferência da ONU sobre mudança climática que acontece em novembro, no Marrocos, e também foi vendido para o canal americano CBS. A pergunta inicial era como a mudança climática afeta desproporcionalmente mulheres e crianças e isso inclui o vírus da zika”, explicou ele. Alana se encantou com a ideia e resolveu ajudá-lo.

“A perspectiva dele é muito sensível. O Lucas olha muito a pessoa antes da história no macro. Me sensibiliza justamente esse olhar, que ele focou principalmente nas mães. Como elas são afetadas naquela relação o filme é muito focado nos personagens. Nosso envolvimento foi tão verdadeiro que nós saímos sendo padrinhos de uma das crianças”, acrescentou ela.

Deu tão certo que agora os dois se preparam para abrir juntos a produtora Uno. “A gente viu que tinha uma demanda. A ideia é trabalhar não só com documentário, mas também com conteúdo de marca, que visa desenvolver uma relação entre o cliente e a empresa não só pela perspectiva da venda”, pontua Alana.

Lucas, inclusive, destaca que se surpreendeu com as possibilidades que voltar ao Brasil lhe trouxeram. “Eu pensava em ir para o canto que eu poderia aprender mais. Por isso escolhi Nova York, que tem um monte de gente que vive de documentário. Quando eu voltei, as coisas começaram a dar muito certo aqui e eu me surpreendi muito. Eu não sei se existe um mercado no Ceará, mas acredito que haja um mercado a ser criado. Aqui tem histórias tão legais quanto Nova York, isso é um fato. O que me renovou é ver que eu posso fazer parte desse crescimento”.

Parto Humanizado

Emilly Gama, de 25 anos, terminou a faculdade de cinema, mas não sabia ao certo em qual ramificação do audiovisual gostaria de construir uma carreira. Chegou a fazer alguns curtas-metragens durante o período que foi estudante, um trabalho e outro retratando famílias, mas foi quando a filha nasceu que ela decidiu oficializar a profissão de fotógrafa e videomaker. A amazonense, que veio morar no Ceará aos cinco anos, é requisitada principalmente para documentar partos.

“Depois do nascimento da minha filha, percebi que não tinha uma pessoa que se dedicasse aos filmes de parto e decidi cobrir esses momentos que não tem hora, nem dia. A pessoa precisa ter uma disponibilidade muito grande. Não é todo mundo que topa, faço porque gosto muito. Quando eu entro em plantão, porque a gente usa esse termo, plantão, a partir da 37ª semana de gestação da mulher, eu não viajo, tento me resguardar muito”.

Emilly Gama acredita que os filmes desmistificam o parto humanizado Foto: Eduardo Queiroz

Ela acredita que os filmes que produz ajudam a desmistificar o parto humanizado, além de mostrar o que acontece realmente naquele momento para as mães que ainda estão em dúvida. “Com a mídia também falando sobre o assunto, além das pessoas terem acesso aos vídeos e fotos, se desmistifica o assunto. Na verdade, o parto é um processo muito natural e biológico. Com o tempo, ele foi se tornando um bicho de sete cabeças e virou um mistério”.

“Às vezes as pessoas me procuram e já chegam se explicando quando o parto é cesárea. Acho que existe um parto adequado para cada mulher, seja psicologicamente, quando ela não tá preparada, ou biologicamente, quando é uma necessidade ela optar por uma cesárea. Como eu trabalho muito com o parto humanizado, chega bem menos pedidos de registro de cesárea, mas eu faço os dois”, completou.

Apesar de ter começado a documentar partos há cerca de cinco meses, conseguir as primeiras clientes não foi difícil. “Quando eu decidi investir nisso, todo mundo abraçou o projeto. Faz pouco tempo e já cresceu de uma maneira muito bacana”.

A videomaker finaliza acrescentando que também trabalha com filmes de famílias. “São histórias. Uma família, por exemplo, me procurou dizendo que era o aniversário do marido e queria reunir todos os filhos para fazer uma surpresa em vídeo. Ou então a bebê vai fazer um ano e a família quer contar a história da criança, às vezes é uma história de superação. Eu sempre tento contar histórias de acordo com a particularidade de cada um. Não é nada superproduzido e, sim, mostrando o cotidiano”.