Diário do Nordeste Plus

Nova cara da música cearense

Embalados pelo cenário conturbado do mercado fonográfico e pelo barateamento das novas tecnologias, músicos cearenses inovam e empreendem para quebrar barreiras da produção local e criar um ambiente favorável à arte

O sonho de cair nas graças de uma grande gravadora, entrar em estúdio e registrar o tão almejado primeiro disco, definitivamente, acabou. Na contramão da crise das grandes empresas fonográficas, do formato compact disc (CD) e do mercado como um todo, os novos músicos apostam suas fichas na chamada carreira independente, onde cada artista ou banda organiza-se em uma verdadeira estrutura empresarial para traçar seus rumos por conta própria, gravar seus discos, produzir seus shows e divulgar sua arte.

A enxurrada de novos sons disponíveis para download gratuito, ao alcance de um clique, de novas bandas lançando discos, intérpretes, autores, de todos os estilos, qualidades e gostos, atesta o novo momento desse mercado, em que, por grande que seja a crise, maior ainda é a vontade de realizar.

Selos musicais

Igor Miná
Igor Miná na Mocker Studio Foto: Divulgação

Muitos artistas e produtores sonham em ter o seu próprio selo. Frequentemente usado como sinônimo de gravadora, o objetivo de um selo é muito claro: lançar músicas e artistas no mercado.

Em Fortaleza, a Mocker Studio, uma produtora para bandas independentes, novos negócios e projetos na área de arte, cultura e entretenimento, com ares de assessoria musical tem sido a salvação para quem está perdido na hora de produzir seu material. A proposta é mostrar tudo o que a banda precisa saber para produzir o próprio clipe com ferramentas simples e uma boa ideia.



Para Igor Miná, diretor criativo do Mocker Studio, ainda existem muitas barreiras a serem rompidas quando o assunto é música independente. “Produzir festinhas só com artistas autorais é difícil e custoso, porque o público ainda é muito pequeno. Muita gente, incluindo quem tem banda, acha caro pagar R$ 10 num ingresso ou num CD, nem que seja pra ajudar o amigo. Mas paga mais de R$ 100 num megashow internacional sem se tocar que aquela bandona um dia já foi pequena e precisou desse apoio – e contou com ele na cena em que surgiu. Música independente é uma economia, é um mercado, é trabalho, e outros lugares já perceberam isso. Se o dinheiro não entra, não tem como a roda girar. Os atores da cena, o que inclui bandas, produtores, selos e público, precisam entender que esses papéis devem ser interpretados por todo mundo: ora a banda toca, ora é público, ora produz, ora se lança de forma independente. Tudo está conectado nessa economia, e a cena precisa ser sustentável para evoluir, com todo mundo consumindo shows, discos e materiais promocionais. Se a gente ficar esperando os donos de casas de show, que normalmente dão preferência às bandas cover, abrirem espaço pras bandas autorais, e as políticas públicas de incentivo à cultura bancarem sozinhas esse ecossistema, a coisa não acontece”, revela.

Há um ano, a gravadora desenvolveu um projeto chamado Mocker Rock School, com workshops mensais e gratuitos na Livraria Saraiva voltados para bandas independentes da cidade. ”A ideia deu supercerto; os workshops da nossa miniescola de rock já passaram pela Feira da Música, pelo projeto Longitudes do Festival Ponto.Ce, pelo Grito Rock e em março deste ano viajamos para São José do Rio Preto a convite do Sesc, que se interesssou pelo conteúdo da Mocker Rock School e nos levou pra ministrar um workshop de gravação caseira.

Os encontros mensais na Saraiva continuam, agora com o nome de Mocker Rock Talks e novo formato: agora convidamos produtores, artistas, técnicos e outros personagens do ecossistema independente para dividir suas experiências com os presentes. E, além disso, acabamos de estrear um blog, também chamado Rock Talks, sobre música independente com ênfase na novíssima música produzida em Fortaleza”, destaca Igor.



A música autoral de Fortaleza se prolifera e se renova. Nas redes sociais, nas rodas de amigos, no quintal de casa, nos bares, nas casas de shows e em diversos outros ambientes, nascem acordes e batidas de rock, jazz, reggae, rap e até toques instrumentais. À revelia da tendência do mainstream, bandas independentes intensificaram sua produção com uma estética desenvolvida na contramão da tradição brasileira. Ao longo dos anos o rock mesclou-se ao maracatu. O baião é eletrônico. O brega virou pop. Misturaram-se os estilos, e os rótulos tornaram-se obsoletos, incapazes de albergar as mil caras da música cearense contemporânea. Conheça alguns sucessos de coletivos e bandas autorais que estão a todo vapor no Ceará.

Os gigantes do rock

Quinteto Jack The Joker
Quinteto Jack The Joker toca heavy metal progressivo Foto: Thiago Gadelha

Awake (Clipe oficial)

Vindo de um ambiente musical otimista e em pleno desenvolvimento, o quinteto cearense de heavy metal progressivo Jack The Joker lançou seu primeiro álbum estabelecendo um novo nível técnico às bandas do gênero no Estado. O grupo já surge com ares de gigante no cenário da música pesada.

Nos últimos anos, o Ceará tem dando seus primeiros passos rumo ao avanço de produções undergrounds, no gênero música extrema, quebrando barreiras e chegando a lugares onde antes era quase impossível de se imaginar. Prova disto é o desenvolvimento do grupo cearense de progmetal Jack The Joker.

A banda surgiu em 2012, apostando na modernidade e nas essências do rock progressivo unidas ao peso do Heavy Metal. Formada por Raphael Joer (vocal), Felipe Facó (guitarra), Lucas Colares (guitarra), Lucas Arruda (baixo), Vicente Ferreira (bateria). “A nossa proposta é capturar um público que aprecie o gênero rock progressivo. Vai além do cover, de tocar num barzinho. É realmente conquistar um público e mostrar que temos uma produção independente e madura”, revela Lucas Colares.

Em julho de 2014, a Jack The Joker lançou seu primeiro álbum, intitulado In The Rabbit Hole. Com dez músicas autorais e inéditas, o trabalho tem a assinatura do produtor paulista Adair Daufembach (Hangar, Project 46, Tony Macalpine, John Wayne e etc.) na mixagem e masterização. A origem de algumas músicas remonta o ano de 2008. O processo criativo inicial foi comandado pelos guitarristas Lucas Colares e Felipe Facó. A produção é marcada pelas melodias complexas, variando entre momentos acústicos e outros mais eletrificados e pesados.

Seus shows são compostos por músicas autorais e é possível notar influências genuínas de bandas clássicas e grupos mais modernos, como Dream Theater, Symphony X, Pain of Salvations, porém é inevitável não perceber a personalidade e a identidade criada pelo grupo por meio das composições harmônicas.

Através deste trabalho, a banda já registrou presença em diversos festivais de rock, patrocinados pelo Governo do Estado, na capital e no interior do Ceará. “Não há dinheiro que pague ver um público seu se formando e o fato de eles apreciarem a música e ao final do show virem te elogiar. Ali está o resultado daquilo que você levou a vida toda ralando e todo o estudo aplicado”,afirma Joer.

Sobre os desafios de sobreviver dentro do cenário de rock local, Lucas Colares revela que as dificuldades podem ser superadas com foco e qualidade. “Infelizmente viver de música, aqui no Ceará, ainda não dá. Acredito que, não apenas para o progmetal mas para qualquer gênero, seja de massa ou underground, crescer e conquistar seu público independente é bastante desafiador, precisa de responsabilidade, foco e muito investimento. Existe sim um público e precisamos conquistá-lo, este é o nosso desafio e por isso procuramos sempre trabalhar com um material de qualidade”.

O trabalho da banda progmetal Jack The Joker não para por aqui. O desafio do grupo agora é marcar presença nos palcos e consolidar a relevância de suas músicas em outros mercados. “Estamos no processo de gravação do segundo álbum. Desta vez a produção é uma parceria entre a banda e o produtor do primeiro disco, Adair Daufembach. A proposta é bem mais intensa, as composições foram criadas por todos nós, em grupo, então traz uma identidade própria da Jack The Joker. A previsão de lançamento é para este semestre”, revela Joker.

Álbum In the Rabbit Hole
Disponível para download na loja virtual iTunes audição em streaming e nas plataformas Deezer, Spotify e Rdio.

Música jamaicana para viajar

Banda Teletransporte
Banda Teletransporte durante ensaio Foto: Erika Fonseca

Live Biruta - Welcome To Jam Rock

Quando se fala em música jamaicana, logo vem à cabeça a imagem de Bob Marley. Não é para menos: o músico foi o responsável por encabeçar um dos estilos musicais mais intrigantes da história, o reggae. O Dub também surgiu na Jamaica, no fim da década de 60, com o objetivo de incrementar a musicalidade do reggae, uma espécie de remixagem nos quais se retirava grande parte dos vocais e se valorizava o baixo e a bateria. Com o tempo, o dub se transformou num estilo musical onde trilhas instrumentais são saturadas de efeitos processados (delay e reverb) aplicados a pedaços da letra e em algumas peças da percussão, enquanto os outros instrumentos passeiam entrando e saindo da mixagem, e algumas vezes do tempo da música.

E quando se mistura os dois estilos, reggae/dub, o resultado é um caldeirão mágico de elementos e texturas, guitarras, metais e teclados que pode te levar para qualquer lugar ou melhor, teletransportar. Foi assim que surgiu a banda Teletransporte.

O projeto surgiu em 2012, quando os amigos Milton Ferreira (baixo), Julio César Santana( Pepeu - bateria e efeitos), Bruno Rafael (guitarra), que já tocavam reggae/dub em formato instrumental com a banda Chacomdega e DanChá, se juntaram ao vocalista David Ávila e formaram um quarteto influenciado pela raiz do gênero jamaicano e com identidade cultural própria.

“A ideia do Teletransporte é te levar numa viagem sonora que envolve um trabalho autoral e ainda funde jazz com rock e todo universo rítmico brasileiro. É uma viagem relâmpago, te leva onde você quiser ir e não acaba enquanto houver música”, explica o guitarrista Bruno Rafael.

Além das músicas autorais, o quarteto trabalha um setlist eclético com couvers mesclando toda a pegada de Bob Marley, The Gladiators, S.O.J.A, Clinton Fearon, suas principais referências musicais o que garante um público diversificado. “Nós trabalhamos bem as versões que usamos nos shows. Exploramos os efeitos, brincamos com os sons e instrumentos para deixar o ritmo atraente para todas as idades e ambientes. O Teletransporte é um som que toca na praia, nas baladas e até em casamento”, argumenta o vocalista David Ávila.

Mesmo com todo cuidado em criar e mesclar arranjos e composições inéditas e inusitadas típicas de bandas independentes, o quarteto ainda sofre com o grande dilema de aceitação das músicas autorais por parte do público cearense. “Infelizmente, para nós, ainda não dá para sustentar um show completo apenas com nosso trabalho autoral. Muitas vezes a galera não conhece o repertório e não quer pagar para ouvir música que nunca viu. Além disso o dinheiro arrecadado não é o suficiente para arcar com todas as despesas de uma banda. Os instrumentos são caros, gravar CD é quase impossível, enfim, temos bastante trabalho pela frente”, reconhece David.

Entretanto, as dificuldades não impedem que os amigos planejem muitas viagens com o projeto Teletransporte. “‘Tá pensando que tá na Jamaica?’ , foi nossa primeira festa oficial, uma experiência que deu certo, e por isso não vamos parar. A gente cria, se diverte, viaja e o projeto permite que possamos compartilhar esta experiência com outros.

Baixe aqui as faixas do projeto Teletransporte pelo Soundcloud

Serviço:

Mocker Studio
oi@mocker.com.br
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