Diário do Nordeste Plus

Nômades da nova geração

Jovens abrem mão de empregos consolidados em troca de qualidade de vida em outros continentes e para conhecer novas culturas

É cada vez mais comum ver histórias de jovens que abandonam tudo, às vezes até o emprego em empresas conceituadas no Brasil e a rotina, para conhecer o mundo viajando. Essas pessoas se mantêm com subempregos, que pagam pouco, mas o necessário para garantir qualidade de vida em outros continentes, ou usam a internet como recurso para se estabelecer lá fora, os famosos nômades digitais.

Isabela Monteiro e Wellingson Grangeiro, ambos de 28 anos, se planejaram e juntaram dinheiro dois anos para viajar mundo afora. Quando se conheceram, antes mesmo de iniciarem um relacionamento sério, já trocaram ideias sobre o assunto. Em janeiro deste ano, já casados, largaram seus respectivos empregos na melhor fase profissional (ele é engenheiro civil e ela jornalista) e deram um até logo aos amigos e familiares para viverem o sonho. Wellingson, que é cearense, de Sobral, e Isabela, que é paulista e fortalezense de coração, já que morou na Capital durante 14 anos, passaram três meses na Itália e estão há quatro na Irlanda e têm como meta conhecer 50 países antes do primeiro filho.

Isabela e Wellingson em Milão, na Itália Foto: Reprodução/Vou na Mala

“A ideia é se estabelecer em algum país da Europa por duas facilidades. A primeira é que eu sou descendente de italianos, então tenho a cidadania e o direito de morar e trabalhar na União Europeia, e o Wellingson também por sermos casados. A segunda é que da Europa é muito mais fácil e barato viajar para qualquer lugar do mundo. Nossa intenção é conhecer um pouco de todos os continentes, sem pressa. Até agora, visitamos 13 cidades na Itália e moramos em Nápoles por 2 meses, visitamos a pequena República de San Marino, a capital da Irlanda do Norte, Belfast; a capital da França, Paris; e moramos atualmente em Dublin, capital da República da Irlanda. Também já conhecemos algumas cidades vizinhas”, contou ela.

Nápoles, pelo menos até agora, foi a cidade que mais encantou o casal durante o período morando em solo europeu. “A cidade não é devidamente valorizada por muitos turistas que vão à Itália, mas é incrível. Tem muita história, arte, cultura, a comida é a mais deliciosa do mundo e os napolitanos são supercalorosos e receptivos. Sem dúvida, é um lugar que voltaremos sempre”, completou a jornalista.

E agora, Dublin

Em solo irlandês, ela trabalha como barista em uma rede de cafés. Além de ajudar para se manter, Isabela destaca que a experiência é essencial para você se aprofundar na cultura do lugar onde mora e fazer novas amizades. Assim que chegaram em Dublin, a paulista exerceu a função de auxiliar de vendas. Ela dá dicas de como os aventureiros de primeira viagem podem conseguir o primeiro emprego fora do País.

“A principal dica para quem quer fazer o mesmo é falar bem o idioma local e estar disposto a trabalhar com o chamado ‘subemprego’, que apesar de pagar o mínimo, oferece qualidade de vida. Além disso, investir em um curso no país onde você está pode trazer bons resultados, como no meu caso, um curso de barista me deu a oportunidade de ser contratada em um uma grande franquia de café. Existem muitos sites, mas eles variam de país pra país. Ficar atento aos anúncios colados nas portas dos estabelecimentos e ir entregar o currículo em mãos é uma boa ideia”.

Para Wellingson, a experiência de estudar com pessoas de outros países tem sido uma das partes mais incríveis da viagem. “Estudo com pessoas do mundo todo, como China, Japão, Arábia Saudita, Rússia, etc. Aprendi muito sobre as culturas de cada um desses lugares e quebrei muitos preconceitos sobre algumas delas”.

“A família nos apoiou em todo momento já que sabia que esse era um sonho nosso”, completa ele. Isabela, no entanto, alerta, já que viver distante dos familiares e amigos é complicado: “É importante saber que é uma decisão difícil, a saudade aperta, nem sempre as coisas saem como planejado, e é preciso ter a mente aberta para sair da zona de conforto e conhecer o novo. Tendo isso em mente, sim, indicamos essa vida para quem tem esse sonho”.

Para matar a saudade de quem ficou, eles também criaram um site onde compartilham o dia a dia com amigos e leitores curiosos, além de um perfil no Instagram e um canal no YouTube. No Vounamala.wordpress.com, com um texto bem-humorado, o casal compartilha dicas como a melhor pizza da Itália, o que conhecer em Nápoles e relatos detalhados de, por exemplo, como os dois encontraram um lugar para morar na Irlanda após 12 dias de intensa procura.

Nômades digitais

O casal Debbie Corrano e Felipe Pacheco, ambos de São Paulo, também resolveu colocar seus pertences em uma mala para viajar ao redor do mundo. No caso deles, tinham ainda dois passageiros extras: os cachorrinhos Luca e Lisa que, sim, acompanham os donos para onde eles vão. A família narra a saga no site Pequenosmonstros.com.br e somam, juntos, nas redes sociais, 10 mil seguidores, que se inspiram dia a dia com as aventuras do casal.

Felipe Pacheco e Debbie Corrano viajam ao redor do mundo na companhia dos dois cachorros, Lusa e Lisa. Na foto, a família posa pelas ruas de Córdoba, na Espanha Foto: Arquivo Pessoal

Debbie conta que, antes mesmo de se conhecerem, os dois já nutriam um amor pelas viagens. Com seis meses de namoro, fizeram uma de carro pelos Estados Unidos. “Foram três meses. Ou a gente praticamente casava ou se matava. Deu certo e o namoro também. A história da viagem continuou nos acompanhando e evoluindo. Foi um desejo mútuo de conhecer o mundo que nos levou para essa vida trabalhando e viajando ao mesmo tempo”.

Publicitários, seguem trabalhando com planejamento e criação de ações digitais para marcas de onde estiverem. “Já fazíamos isso dentro de uma agência até 2012. Em 2013, começamos a fazer de casa e nos planejar para viajar e trabalhar ao mesmo tempo e só em 2014 partimos para o mundo”.

Desde então, passaram por mais de oitenta cidades, mas moraram somente em seis: São Paulo, Berlim, Barcelona, Córdoba, Lisboa e Budapeste. Após dois anos viajando entre várias cidades, decidiram estabelecer uma base em Berlim, para facilitar no processo. “Chegou um momento que estávamos sofrendo para transportar tudo de um lugar para o outro porque estávamos com uma mala imensa só com roupas de inverno, vivendo em um calor de 45 graus no Sul da Espanha. A cidade escolhida para termos uma casa para onde voltar no fim de cada fase foi Berlim, onde moramos pela primeira vez. Lá é um lugar bem especial que você pode ser quem quiser, muito seguro e uma capital muito barata comparada com a maioria dos países da Europa e até com São Paulo”.

Você pode trabalhar enuquanto viaja pelo mundo?

Nem tudo são flores na vida de viajante. Ela destaca que se adaptar a um lugar novo é sempre complicado. “Como estamos cada hora morando em um lugar diferente, precisamos reaprender coisas básicas como qual é o melhor mercado, onde comprar certo tipo de comida, quais são os hábitos daquele povo, fazer novos amigos. E aí, quando nos adaptamos totalmente, já é hora de ir para o próximo lugar. É uma delícia, mas bem cansativo porque ninguém te ensina essas coisas”.

Debbie, no entanto, destaca que “viver por aí conhecendo novas pessoas e culturas” já é um sonho realizado. “Sempre que eu estou em um ponto turístico incrível, daqueles que a gente sempre sonha em conhecer, olho ao meu redor e vejo meus dois cachorros e meu namorado, me dá aquela sensação maluca de ‘isso é tão incrível que parece de mentira’”.

Para quem tem vontade de encarar o desafio, a paulista frisa que é importante saber que viajar trabalhando é muito diferente de tirar férias. “Tem várias vezes que o dia está incrível lá fora, você tem vários planos em uma cidade nova, mas precisa ficar dentro de casa trabalhando até de madrugada, sem nem olhar pra rua”.

Este ano, antes de viajarem para o novo destino, estão passando uma temporada em São Paulo e fizeram um tour ao redor do Brasil. “ Às vezes esquecemos que a maior parte das pessoas do mundo são boas e essa viagem nos lembrou muito isso. Deu aquela renovada de fé na humanidade. Fomos de Santos até Recife de ônibus em uma semana e conhecemos muitos brasileiros inspiradores”.

Dúvida recorrente

Uma das dúvidas mais recorrentes de quem acompanha Debbie e Felipe nas viagens é como eles fizeram para levar os cachorros. A principal dica, segundo a publicitária, é se planejar. Ela alerta que a burocracia para conseguir todos os documentos do bichinho pode levar em torno de cinco meses.

“Não é impossível como as pessoas pensam e também muito mais barato do que a gente acha. Só não existe a possibilidade de abandonar o bichinho”, faz questão de destacar. “Nas viagens mais curtas a Lisa e o Luca normalmente não vão porque é muito estressante pra eles e muitos lugares ainda não aceitam animais, mas em todos os lugares que moramos eles vão junto conosco. São como nossos filhos. Mesmo os dois tendo quase 9 anos, eles são muito saudáveis, comem comida natural e adoram viajar, já ficam superanimados quando pegamos as caixas de transporte”.

A família morou em Lisboa por alguns meses. Na foto, eles posam em frente à Praça do Comércio Foto: Arquivo Pessoal

Para auxiliar quem ainda está perdido no que deve fazer para viajar com seu animal de estimação, a família fez um guia completo e criaram até um ebook, que custa 12 euros, para compartilhar todas as dicas. Eles dividiram o manual em temas como segurança, companhia área, preço, caixa de transporte, documentação e cuidados finais.

Os planos para a próxima viagem ainda estão indefinidos, já que Debbie e Felipe querem fugir do verão europeu. “Estamos em dúvida ainda entre o sul da Itália ou Melbourne, na Austrália”.

Veja o perfil de pessoas que abriram mão da rotina e encararam a aventura de viajar ao redor do mundo:

360 meridianos

O site é alimentado por três jornalistas, Luíza Antunes, Natália Becattini e Rafael Camara, que compartilham suas experiências de viagens. O trio largou seus respectivos empregos para dar a volta ao mundo. Ao todo já estiveram em 30 países e o principal intuito do endereço virtual é motivar outras pessoas a fazerem o mesmo.

Foto: 360 meridianos/Reprodução

BikesAndSpices

Em março de 2012, Karla Cerri e André Cherri iniciaram uma viagem de volta ao mundo em bicicletas para realizar alguns trabalhos, conhecer novos sabores, pessoas e culturas. Em três anos e meio, o casal visitou 40 países e compartilha suas aventuras na página do Facebook.

Foto: Reprodução/Facebook

Um mundo a dois

Com mais de 3 mil seguidores no Instagram, o casal Pedro e Florinda Wickbold decidiu aproveitar a lua de mel em uma aventura ao redor do globo. Na rede social, eles, que já visitaram 37 países e 120 cidades, compartilham os momentos mais divertidos da aventura.

Foto: Reprodução/Instagram

Vamo com a gente

Victor tinha um emprego público efetivo e era proprietário de um restaurante. Fran estava um pouco frustrada com a profissão de enfermeira. Quando o marido propôs vender o empreendimento e pedir uma licença do trabalho para os dois darem uma volta ao mundo, ela saiu do emprego e topou. Os dois registram cada passo da aventura no site Vamo com a gente.

Foto: Reprodução/Facebook

Nômades digitais

Jaqueline Barbosa e Eme Viegas largaram seus respectivos empregos (ela era professora de inglês e ele publicitário) pois queriam viajar mesmo sem estar de férias. Eles decidiram abrir uma empresa 100% na nuvem e são as mentes criativas por trás dos sites Nômades Digitais, Hypeness e Casal sem Vergonha.

Foto: Reprodução/Instagram