Diário do Nordeste Plus

Lugar de mulher é onde ela quiser

Apesar da cena humorística local reunir homens, em sua maioria, mulheres cearenses também se destacam pela veia cômica afiada

Além de ser conhecido como Terra do Humor, o Estado do Ceará é berço de grandes humoristas, como Tom Cavalcante, Renato Aragão e Chico Anysio, e reúne diferentes estilos, que vai do humor de cara limpa ao improviso. No entanto, apesar de tantas referências masculinas no meio, as mulheres cearenses também se destacam pela veia cômica afiada.

Talita Sá tem no currículo 10 anos de teatro e experiência como cantora. Há pouco tempo, no entanto, resolveu investir em mais uma faceta artística. A cearense é uma das poucas mulheres, se não a única, que aposta no stand-up comedy no Ceará. Casada e mãe de duas filhas, ela se divide entre a rotina com a família e as apresentações em teatros locais.

O sonho de trabalhar nos palcos começou ainda na infância, como Talita conta. “Meu negócio é palco e gente. Eu gosto de estar no meio do povo. Eu não tenho canal no YouTube, apesar de ser um projeto para o futuro, porque me sinto melhor no palco. Meu foco é o público. Desde a época de colégio, sempre tive uma veia artística, era a mais ‘ispilicute’. Ficava à frente dos grupos de dança e era a oradora da turma”.

Talita Sá criou um espetáculo de stand-up comedy baseado em histórias de sua vida Foto: Thiago Gadelha

Ainda na infância, participou do programa de calouros do apresentador Irapuan Lima. “Eu ganhei umas quatros vezes como ‘a voz infantil’. Minha mãe tem todos os recortes guardados até hoje. Meu pai era cantor e sempre que ia passar o fim de semana com ele e o via com a banda, sentia que era aquela vida que eu queria pra mim”.

A carreira artística teve que ser adiada por um período, quando Talita descobriu que estava grávida aos 15 anos. “Quando eu completei 19, surgiu a oportunidade de fazer um teste para ser vocalista de uma banda. Não deu certo, pois meu marido não gostava do assédio e da rotina. Anos depois, entrei para uma nova banda, mas depois de oito meses saí. Eu me sentia muito feliz no palco, não era nem a questão do retorno financeiro, pois ganhava R$ 30, mas ele não aceitava”.

O teatro foi uma alternativa mais “tranquila” para alimentar sua veia artística. Em 2006, entrou para uma oficina e ao longo dos últimos 10 anos se aprimorou fazendo cursos, inclusive com nomes de peso, como Caio Blat e Leonardo Miggiorin. “O artista tem um negócio dentro dele que não consegue fazer outra coisa que não seja trabalhar com arte. No teatro, fui da comédia ao drama. Quando contava o episódio da gravidez aos amigos próximos, eles me incentivaram a montar um espetáculo de stand-up comedy com histórias da minha vida”.

“O artista tem um negócio dentro dele que não consegue fazer outra coisa que não seja trabalhar com arte”Talita Sá

Talita Sá participa de gravação ao lado de Ciro Santos e Lailtinho Brega Foto: Reprodução/Instagram

Além do show solo, “O que não mata, vira comédia”, Talita já fez participações em apresentações de humoristas locais, além de ser diretora do grupo Incenart Produções, que reúne vários atores. “Já fui apontada como revelação stand-up feminino no Ceará. Eu acho que as mulheres são um pouco covardes, porque sei de muitas talentosas, mas que não têm peito para enfrentar um palco sozinha. No stand-up você sobe no palco e tem que criar. Eu não gosto do humor que ofende a plateia. Por exemplo, alguns humoristas interagem com o público e falam que fulana está com uma roupa brega ou chamam alguém de velho. Acho que a piada tem que ter um limite. A pessoa pagou o seu show e não deve sair de lá se sentindo humilhada. Existem várias vertentes para o humor”.

É por isso que ela prefere reunir os causos de sua vida no espetáculo que apresenta. “Falo de situações que vivi durante meus 20 anos de casada e de momentos da minha vida profissional, como, por exemplo, quando eu tive que matar uma galinha no palco do teatro”.

Entre suas referências, estão nomes como Tatá Werneck, devido à sua originalidade, Ingrid Guimarães e Heloísa Périssé. “O produtor do Tirullipa assistiu a um show meu no Teatro do Via Sul e disse que eu parecia com a Kéfera, mas eu não gosto dela. O público dela é mais adolescente. Acho o Porta dos Fundos mais adulto, mas eles não são inspiração pra mim, já que não quero fazer esquete. Tenho vontade de fazer um grupo similar ao deles, mas comigo assinando o roteiro”.

O próximo show que Talita quer apresentar nos palcos chama-se “Scândalo com Talita Sá”. “Além do stand-up, quero voltar para a música, mas cantando MPB. Quando eu entro no Facebook ao vivo, as pessoas sempre pedem para eu cantar. Também abro o meu show cantando. Todos os humoristas cearenses me abraçaram de maneira incrível, me dão força e convidam para participar de apresentações”.

Referência no teatro cearense

Com 32 anos de carreira como atriz, Solange Teixeira foi incentivada pela escola a participar da primeira peça de teatro. “A professora inventou que em um determinado semestre não haveria prova e, sim, um espetáculo teatral. Tinha 16, 17 anos na época”. A partir da primeira experiência, não parou mais de atuar. Escolheu se graduar em ciências contábeis e até tentou criar uma carreira na área, mas o coração falou mais alto. “Vi que ficar no escritório não é para artista. Abandonei e comecei a trabalhar exclusivamente com a profissão de atriz. Já fiz trabalhos para televisão, entrei até para a área do cinema e não parei mais”.

“Vi que ficar no escritório não é para artista. Abandonei e comecei a trabalhar exclusivamente com a profissão de atriz”.Solange Teixeira

Integrante da Cia. Cearense de Molecagem, de Carri Costa, a cearense diz que não sabia que tinha uma veia cômica tão afiada e que foi a comédia que a escolheu. “Gostaram do meu trabalho e começaram a me chamar para várias peças, sempre na área cômica. Embora ano passado, fiz o filme local ‘Mistério em Praia Branca, e a cena que eu atuo, embora pequena, não é cômica. É uma mãe defendendo o filho da polícia. A gente é atriz e gosta de fazer várias coisas. O que mais amo mesmo, no entanto, é a comédia. O fato de fazer o outro feliz. Quando a peça termina e as pessoas vão falar com você, é emocionante. Poucas pessoas aqui, na área teatral, recebem um feedback do público dizendo que acompanha seu trabalho, que gosta. E eu escuto isso. É muito gratificante”.

A atriz esteve no elenco de peças de comédia que são sucessos no Ceará, como “Tita & Nic”, que volta aos palcos nos dia 2, 3 e 4 de setembro, no Dragão do Mar, “Loucuras de amor”, “As vizinhas” e “Cacos de família”. No entanto, seu personagem mais marcante foi em um espetáculo intitulado “As Anjas”. “Fiz na época no fim da década de 90 e me rendeu muitos prêmios, como melhor atriz no FestMinas (MG) e no Festival de Anápolis (GO). Eu interpretava a Fonsina, uma mulher amargurada. A história gira em torno de sete amigas que se encontram em um carro e ninguém sabe porque está ali. A peça vai ganhar uma adaptação só com homens esse ano”.

Solange Teixeira se dedica exclusivamente ao teatro hoje Foto: Eduardo Queiroz

Ela conta que até tentou fazer stand-up comedy, mas seu coração fala mais alto pelo teatro. “Participei no fim dos anos 80 de um concurso com a Poliana Moraes (ou Poliana da Paraíso), mas não é minha praia. O pessoal até que pensa existe uma rixa entre as pessoas do teatro e do humor, mas não. Eu até admiro o que eles fazem, porque é só a pessoa e o público e eles têm que manter o tom da apresentação durante todo o tempo”.

Atualmente, a atriz está envolvida com a peça “Em pensar que tudo isso é oco!” e se prepara para levá-la para uma escola pública, além do espetáculo infantil e acessível, com audiodescrição, “Miralu e a luneta encantada”. Solange ainda tem um projeto de teatro itinerante, chamado InConto Marcado, que realiza espetáculos e oficinas de teatro no interior do Brasil, em parceria com a atriz Daniele Rodrigues. “A proposta é levar dois contos para crianças de escolas públicas que incentivem à leitura. Tem lugares que são tão pequenos que vai a família toda”.

No cinema, ela está no elenco de “Shaolin do Sertão”, de Halder Gomes, que estreia em novembro nos cinemas brasileiros. Na produção, atuou ao lado de Dedé Santana. “Imagina você entrar no estúdio e ver aquele ser, que fez parte da sua infância. Eu passava o domingo inteiro esperando para assistir Os Trapalhões. Ele é simples, divertido e foi uma experiência incrível”.

No filme “Shaolin do Sertão”, a atriz atuou ao lado de Dedé Santana Foto: Divulgação

Veterana dos palcos

Karla Karenina, intérprete da famosa personagem Meirinha, começou sua carreira como humorista há 28 anos. Em 1998, no Pirata Bar, ela faz sua primeira apresentação pública. Muito antes disso, aos 14 anos, ela já encarava o público em espetáculos de dança. “A experiência como bailarina foi um alicerce muito importante para o desenvolvimento da disciplina, da expressão corporal e do jogo cênico como um todo. Em seguida, ainda nos tempos de colégio, veio a música, a poesia, o teatro.Tudo isso me deu suporte pra que eu desenvolvesse o meu trabalho profissional em todas as outras linguagens que fui, ao longo da minha carreira”.

Karla Karenina é humorista há 28 anos Foto: Kid Júnior

Ela reforça que ainda há poucas mulheres na cena humorística, assim como quando começou. “Acho que isso se deve mesmo ao peso do machismo que, infelizmente, ainda impera na nossa sociedade. Notamos nas piadas ‘inocentemente’ contadas de cunho machista. O fato de o homem se expor, cair na estrada, enfrentar as dificuldades da noite, da rotina pesada das apresentações nos bares e restaurantes e não ter que viver o dia a dia de afazeres de dona de casa e de mãe. Acho que isso tudo ainda tem um peso para nós, mulheres. Pensando nisso, reconheço a coragem e a ousadia minha e de Valéria Vitoriano (Rossicléa) que, mesmo com tudo isso, aos trancos e barrancos muitas vezes, conseguimos conciliar vida pessoal sendo mães e seguirmos fazendo o que tão poucas conseguem. É uma pedreira, mas muito gratificante”.

Karla ainda confessa que já sofreu preconceito, de forma “velada”, e comemora a oportunidade de quebrar paradigmas. “Não me detive nisso, não. No início até por completa ignorância e inocência, confesso, mas depois eu já tava meio ‘vacinada’ e segui meu caminho olhando pra frente. É muito prazeroso mostrar que posso ser diferente, transgredir. Essa é uma das melhores partes nessa missão da arte. E eu nasci pra isso. É maravilhoso poder provar pra si mesmo que a melhor forma de se conquistar o ‘verdadeiro sucesso’ da vida é legitimar, defender e viver suas verdades. E o que é melhor: posso fazer rir, sim, e continuar sendo mulher, feminina, mãe, sem tentar repetir as mesmas fórmulas preconceituosas”.

“É muito prazeroso mostrar que posso ser diferente, transgredir. Essa é uma das melhores partes nessa missão da arte”.Karla Karenina

Além de humorista e atriz, como sua atuação em “Velho Chico” recentemente, por exemplo, a cearense também é terapeuta especialista em deep memory process e psicodrama transgeracional. Ela segue conciliando todas as profissões. “Aparentemente, são profissões tão diferentes, mas igualmente prazerosas. No set terapêutico trabalho com o psicodrama e a atriz é fundamental; no set artístico trabalho com as emoções do público e a terapeuta é imprescindível. A atriz e a terapeuta juntas me abriram novas frentes como a de palestrante e facilitadora de cursos e oficinas. Vamos multiplicando os talentos e desenvolvendo outros. Sou mesmo essa criatura múltipla, curiosa, inventiva, adoro fazer muitas coisas”.

Karla Karenina posa ao lado de Valéria Vitoriano, Ciro Santos e Falcão, na Praça da Imprensa, em 1992 Foto: Sheyla Fontes/Agência Diário

Ainda de acordo com a humorista, Meirinha é seu talismã, já que foi através da personagem que Karla foi vista como atriz, além de lhe ter aberto as portas para outros trabalhos. O nome, aliás, surgiu como uma brincadeira. “Eu disse: Meu nome é Rosimeire, mas pode me chamar de Meirinha, que é mais íntimo, durante conversa no 145, antigo serviço da Teleceará nos anos 80”.

Karla admite que sua trajetória não é fácil e que renunciou de muita coisa durante o caminho. “Passei por diversas crises existenciais, financeiras e tudo, mas valeu! Uma cearense de classe média, sem referência no mundo artístico, conquistar espaços como a Escolinha do Professor Raimundo, adentrar o reino da dramaturgia da Rede Globo e do cinema é raro. Cantei, dancei, escrevi livro e sou até imortal. Ocupo a cadeira 24 da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo”.

Além de fazer apresentações em eventos particulares, ela também aguarda o lançamento do filme “Shaolin do Sertão”, no qual interpretou a personagem Marciclene, além de estar planejando um projeto para a web. “Vem coisa boa por aí”, faz suspense.