Diário do Nordeste Plus

Missionários cearenses se espalham pelo mundo

O Diário Plus conversou com pessoas em quatro continentes que deixaram o conforto de suas vidas para se dedicarem à pregação da palavra de Deus

Há um conceito popular que compara os cearenses com o povo judeu, dada a propensão da nossa gente a migrar para diversas culturas diferentes, se adaptar e realizar grandes conquistas. Em termos religiosos, entretanto, é o cristianismo que tem levado nossos conterrâneos a se espalharem pelos quatro cantos da Terra. Em pelo menos cinco dos seis continentes há alguém nascido no Ceará pregando a palavra de Deus. O único onde não conseguimos identificar nenhum foi na Antártida.

Não há como mensurar quantos estão mundo afora porque eles são enviados de diversas formas e alguns trabalham no anonimato, em locais onde o simples fato de se dizer cristão pode levar à morte. Para quem vive no Brasil, pode parecer difícil de acreditar, mas o cristianismo é a religião mais perseguida do mundo.

Então, o que leva alguém ao deixar o conforto e a tranquilidade do seu lar para se dedicar a povos e culturas diferentes? A resposta está na própria definição do que eles são. Trata-se de uma missão de vida. O texto bíblico do Evangelho de São Mateus conclui com a ordem dada por Jesus já ressuscitado: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado”.

Foi a partir desta comissão que a antes considerada seita judaica se tornou na maior religião do mundo e influenciadora de toda a cultura ocidental. No Ceará, por exemplo, 92,5% da população se declaram cristã. São 78% de católicos e 14,5% de protestantes, segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E é para dar prosseguimento a esta missão, iniciada por 12 homens na Judeia, que muitos cearenses têm saído de suas casas para terras distantes, novas e diferentes línguas e culturas muitas vezes novas para eles.

África

É o caso da missionária batista Eliane Semedo. Há seis anos em Cabo Verde, país com cerca de 530 mil habitantes formado por um arquipélago no noroeste do continente Africano. Apesar de ter sido colonizado por portugueses, a língua mais falada lá é o crioulo cabo-verdiano, cujo aprendizado, junto com a saudade da família que ficou em Fortaleza, é a maior dificuldade enfrentada por ela. “Posso dizer que ainda estou em fase de aprendizagem. Mesmo depois de seis anos, tem sempre alguma coisa nova para aprender, e principalmente com os aspectos culturais”, disse. Parte do trabalho dela, inclusive, envolve a tradução do Novo Testamento para o crioulo.

Igor Miná
Eliane com as crianças em Cabo Verde Foto: Arquivo Pessoal

Ela ressalta que a escolha de realizar o trabalho missionário não foi dela, mas de Deus. “O chamado de Deus mexe com a nossa vontade. Ele me fez querer ser missionária e foi algo que eu aceitei de muito bom grado, com muita alegria”, explicou. Eliane também destaca que esse chamado não se trata de algo místico, mas centrado na racionalidade. É algo que vem de Deus, mas também envolve a minha consciência, a minha razão da necessidade desse ministério no mundo inteiro. Quando eu conheço uma mensagem, que eu acredito que é a mensagem mais importante na vida de qualquer pessoa, como forma de amor às pessoas e obediência a Deus, eu preciso transmitir essa mensagem”, afirma.

A partir daí ela se preparou no seminário e em outros cursos. O trabalho missionário, segundo ela, é para a vida toda. “O que me motiva a fazer esse trabalho é a glória de Deus e o amor às pessoas. Eu sei que cada pessoa para quem eu transmito a mensagem, quer pessoalmente, quer por meio escrito, através do trabalho de tradução da Bíblia para o crioulo, eu demonstro amor por essa pessoa. E dessa forma também eu glorifico a Deus em obedecê-lo e exaltá-lo. É querer ver todo mundo adorar a Deus, porque só assim que a gente tem uma vida verdadeira e uma vida com felicidade autêntica”, ressalta.

“É um trabalho que tem grandes dificuldades, mas que tem frutos eternos. Todos os outros trabalhos que a gente faz terminam aqui, mas esse não, a gente vai ver os frutos na eternidade”, concluiu.

Ásia

A mesma visão do trabalho em missões tem o casal Rômulo e Tamires (nomes fictícios). Os dois estão com os dois filhos, ainda crianças, no Timor-Leste, país que ocupa metade de uma ilha no sudeste asiático. Apesar de oficialmente a quase totalidade da população professar o catolicismo, os dois relatam que há perseguição contra cristãos e, por isso, atuam como missionários no anonimato.

Lá, o português e o tetun são as línguas oficiais. Entretanto, menos de 10% falam o idioma dos brasileiros, complicando um pouco mais o trabalho deles. Contudo, um ano e 8 meses depois, eles já dominam o idioma nativo.

Apesar de estarem do outro lado do mundo, eles dizem que a adaptação foi tranquila, resultado da preparação feita no Brasil e à viagem de campo feita antes da transferência definitiva. Mas a distância de amigos e familiares, uma internet precária e cara são complicadores, junto com o serviço de saúde do país, “especialmente para o nosso filho que tem alergia à proteína do leite de vaca e aqui não tem o leite específico para ele tomar, não tem medicamentos para tratar as crises, nem exames para acompanhar, nem médicos especialistas”, relata Tamires. Ela e o marido foram enviados por uma organização missionária protestante.

Entretanto, o desejo deles de obedecer à palavra de Deus é maior que todas estas dificuldades. Para o casal, a motivação para prosseguir com o trabalho é “a transformação que Deus fez em nossas vidas, de onde ele os tirou e o desejo de que essas pessoas também possam ter suas vidas transformadas pelo poder do Evangelho, o qual transpõe os limites de religião, mas traz mudanças reais nos aspectos sociais, econômicos, políticos, educacionais, enfim, toda a vida deles”, explicou a missionária.

Europa

A igreja católica também envia missionários cearenses para diversos locais do planeta. Daniel Porto, por exemplo, está na Hungria há dois anos. “Para mim, ser missionário é continuar o trabalho de Jesus, a missão de Jesus. Jesus me deu a missão de levar o Evangelho até os confins da Terra. E ser missionário para mim é identificar minha vida com a vida de Cristo. Assumir em mim essa missão”, resumiu.

Daniel diz encontrar a motivação para o trabalho no amor. “Deus me amou gratuitamente e esse amor gratuito recebido é um amor gratuito que tem que ser dado. Eu me sinto com a missão muito particular de dar. Eu recebi muito e é natural. Esse amor de Deus me preenche. Sinto-me a pessoa mais feliz do mundo, mesmo morando longe dos meus pais e da minha família”, afirma.

O missionário da Comunidade Católica Shalom mora na casa de uma família húngara com 15 filhos. “Tive a oportunidade de frequentar a escola e de me adaptar à cultura e aos costumes locais, me adaptar à língua”, disse. O húngaro, segundo ele, é uma das línguas mais difíceis do mundo. “Muitas vezes falta o feijão, a farofinha do cearense, mas encontrei outras coisas que se tornaram minha farofa e o cuscuz do dia a dia, compara.

Para ele, “estar na Europa é pagar uma dívida de gratidão com o povo europeu. Nós fomos evangelizados por eles”, destaca. Daniel disse que o desejo de ser missionário surgiu no fim da adolescência. “As coisas da igreja não me diziam respeito. Na verdade, eu nem gostava de frequentar a igreja”, revelou. “Aos 17 anos fui convidado para um acampamento de jovens e lá tive a minha primeira experiência de Deus. Sempre que pensava em Deus, pensava numa pessoa muito distante, que me amava, mas esse amor não me dizia respeito, estava no céu e eu na Terra”, relata. Mas nesse acampamento pude experimentar e tocar o amor de Deus e isso transformou minha vida. O que me fez ser missionário foi experimentar o amor de Deus e, seguindo Sua voz, dar essa experiência de amor gratuito, sem o qual ninguém pode viver”, completou.

América

Banda Teletransporte
Paulo Henrique em Lima, no Peru Foto: Arquivo Pessoal

Paulo Henrique Albuquerque também atua pelo Shalom em Lima, capital do Peru. Cearense de Morrinhos, o religioso entende que o missionário “é a Igreja que vai até os confins da Terra anunciar que Deus ama os homens”, resume. Para ele, a missão também consiste em desenvolver trabalhos sociais. “Desde serviços pastorais, a evangelização em si, como serviço aos mais necessitados, através de hospitais, abrigos, asilos, orfanatos em todo o mundo”, explicou.

O missionário também relata um chamado de Deus para realizar o trabalho. “Fui descobrindo que Deus me chamava a algo mais, mais comprometedor, descobri que Deus me chamava a uma vocação”, disse. “Não podia dizer ‘não’ ao chamado de Deus”, destacou.

Ao contrário dos outros cearenses, Paulo Henrique não teve tempo de se preparar. “Fui enviado num período em que geralmente não tem remanejamentos e tinha que estar na missão em um mês”, disse. Nem espanhol ele sabia falar. “Então aprendi tudo na prática, falando, perguntando, buscando conhecer a cultura in loco”, acrescentou.

Para ele, a maior dificuldade foi entender, na prática, o que era viver em outra cultura. Contudo, a adaptação foi rápida. “Tive certa tranquilidade com o idioma, que não é tão difícil. Fui buscando conhecer o máximo de pessoas possível, tentar conhecer um pouco a história daqueles que participava do Shalom em Lima para, assim, ser o mais rápido possível alguém mais próximo”, detalhou.

O missionário ressalta que a maior recompensa para ele é ver o resultado na vida das pessoas. “Aprendemos que nós só plantamos e Deus faz germinar, Deus faz nascer os frutos. Vejo uma missão que cresce, vejo novos jovens que estavam sem esperança, sem fé, perdidos, doentes e depois de conhecer o amor de Deus através do nosso trabalho têm sua vida transformada, tem um sentido de vida, uma nova expectativa de uma vida totalmente nova”, comemora. Paulo Henrique disse ainda que manifestou à comunidade a disposição para “de não mais voltar”, mas se precisar deixar o serviço, “continuarei sempre disponível para ser enviado em missão de novo”.