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Festejos de São João: origens e tradições

Uma das mais ricas manifestações culturais brasileiras, as festas juninas marcam o período de junho e adentram julho, envolvendo quadrilhas, culinária típica, simpatias, entre outras tradições

“A fogueira tá queimando
em homenagem a São João.
O forró já começou.
Vamos, gente, arrasta pé nesse salão”

É dia de festa na roça. Fogueira crepitando, caipiras aprumados, barraquinhas com quitutes deliciosos e bandeirinhas de todas as cores e estilos enfeitando o salão. Tudo pronto para esperar a quadrilha, embalada por música típica e linguajar próprio. “Anarriê”, “alavantú”, “changê de damas” e tantos outros termos agitados pelo puxador, os quais, apesar de serem de origem francesa, já fazem parte do cotidiano e linguajar de quem integra as danças.

Alavantú (en avant tous)

Todos os casais vão para a frente

Anarriê (en arrière)

Casais vão para trás

Changê (changer/changez)

Trocar/troquem o par

Cumprimento vis-à-vis

Frente a frente

Otrefoá (autre fois)

Repete o passo anterior

Embora os festejos juninos sejam uma herança da colonização portuguesa no Brasil, grande parte das tradições da quadrilha tem origem francesa. E muita gente dança sem saber. Hoje a atividade está disseminada na cultura do País, mas já foi hábito dos mais abonados na corte da França. Tendo surgido em Paris no século XVIII, originando-se a partir de uma dança de salão para quatro pares, a quadrilha foi introduzida no Brasil durante a Regência e fez bastante sucesso nos salões nacionais do século XIX, principalmente no Rio de Janeiro, sede da Corte.

Depois desceu as escadarias do palácio e caiu no gosto do povo, que modificou suas evoluções básicas e introduziu outras, alterando inclusive a música. “A quadrilha, adaptada pelos brasileiros, adquire forma engraçada e brincante, numa sátira do casamento, festa maior que juntava as famílias nobres. A dança zomba das mentiras mantidas pela nobreza que casavam suas filhas em acordos muito mais comerciais que de sociabilidade e afetos, e também achincalha de forma irreverente com todos os tipos sociais que lhes impunha poder e opressão como o coronel (poder do dinheiro), o delegado (poder do governo), e o padre (poder eclesiástico que nem sempre esteve ao lado do povo como deveria). No casamento caipira, tudo é uma vingança pela 'gaiatice'”, explica a professora Lourdes Macena, doutora em Artes.

A sanfona, o triângulo e a zabumba são os instrumentos musicais que em geral acompanham a quadrilha. Também são comuns a viola e o violão. Nossos compositores deram um colorido brasileiro ao som e, dentre as músicas mais conhecidas, estão as escritas por Luiz Gonzaga, como “Pagode Russo” e “Olha pro céu, meu amor” (em parceria com José Fernandes). Outras canções de sucesso são “Capelinha de melão” (João de Barros e Adalberto Ribeiro) e “Chegou a hora da fogueira” (Lamartine Babo). “Estas músicas sempre estiveram consagrando elementos sensíveis relacionados à festa e foram se cristalizando na memória e no coração dos brasileiros. Tendo sido passadas de pais para filhos, de filhos para netos etc, estabelecem sensação de pertencimento e afinidade ao que é realmente junino.

Confira a playlist com músicas de São João!

Em Fortaleza, o grupo “Forró É O Novo” é referência do tipo tradicional de música apresentada nos arraiás. Composto por Marcenildo Duarte (sanfona e voz), Jeovane Zu (vocal e triângulo) e Sandro Sousa (zabumba e voz), começou as atividades há apenas cinco anos, mas os integrantes afirmam cultivar relação íntima com a cultura junina desde a infância. “Eu e Marcenildo fomos crianças que dançaram em quadrilhas – eu, na Pezinho no Chão, e nós dois na Santa Teresinha. A participação em festas juninas, a convivência com mestres dessa cultura local, me ensinou o que é ser na vida, a ter disciplina, caráter e também a desenvolver o amor pela música”, declara Jeovane.

Sandro começou a tocar com 12 anos e cresceu vendo o pai, sanfoneiro, encher-se de amores e compromisso com a Cumpade Braguinha, que depois virou a Beija-Flor do Sertão. “Um dia o zabumbeiro faltou o ensaio, eu comecei a tocar meio que escondido, gostaram do meu som e a partir daí eu não larguei mais a música”, explica. Marcenildo, por sua vez, sonhou com uma sanfona desde menino. “Comecei tocando violão na igreja, no Cristo Redentor. Mas tinha certeza que, se pegasse numa sanfona, eu aprenderia a manejá-la. Viajei para Belém, pedi uma sanfona para o meu avô de presente, mas ele disse até então que não podia adquirir uma, porque se tratava de um instrumento muito caro. Mas sabia que, se um dia fosse para ter uma, eu teria. E foi o que aconteceu”, lembra.

O trio se uniu pela paixão em comum por festejos juninos e baseia a vida e a carreira no forró pé de serra e em canções autorais. Marcenildo, Jeovane e Sandro tocam em festivais de Fortaleza, interior e também em outros Estados. O “Forró É O Novo” é conhecido pela alegria, dedicação e irreverência, além de compor canções autorais que já foram temas de quadrilhas como Junina Santa Fé (Alagoas), Arraiá Chapéu do Vovô (Goiás), Caipiras do Borocoxó (Tocantins), além das locais Filhos do Sertão, Paixão Nordestina, Cheiro de Terra (de Baturité) e Arraiá do Patativa (de Assaré). “Tocávamos pagode no início, mas chegou o ponto em que pensamos: vamos fazer o que nossa alma quer”, diz Marcenildo, e a alma deles pediram para seguir a origem que remonta os festejos de São João.

Figurino matuto

No fim do século XIX, as damas que dançavam a quadrilha usavam vestidos até os pés, sem muita roda, no estilo blusão, com gola alta, cintura marcada, mangas “presunto” e botinas de salto abotoadas do lado. Os cavalheiros usavam paletó até o joelho, com três botões, colete, calças estreitas, camisa de colarinho duro, gravata de laço e botinas.

Hoje em dia, na tradição rural brasileira, o vestuário típico das festas juninas não difere do de outras festas: homens e mulheres usam suas melhores roupas. Nos centros urbanos, há uma interpretação do vestuário caipira ou sertanejo baseada no hábito de confeccionar roupas femininas com tecido de chita florido e as masculinas com algodão listrados e escuros. Assim, as roupas usadas para a dança variam conforme as características culturais de cada região do país.

Os trajes mais comuns são: para os cavalheiros, camisa de estampa xadrez, com imitação de remendos na calça e na camisa, chapéu de palha, talvez um lenço no pescoço e botas de cano; as damas geralmente usam vestidos com estampas florais, de cores fortes, com babados e rendas, mangas bufantes e laçarotes no cabelo ou chapéu de palha. No rosto, pintinhas, para dar o aspecto de matutinhas, blush marcante e batom escuro.

Culinária típica

Produtos agrícolas genuinamente americanos, como milho, amendoim, batata-doce e mandioca, cultivados pela população indígena, tornaram-se a base da alimentação dos brasileiros. Os portugueses trouxeram a tecnologia, como o forno de fazer farinha, e costumes — modo de preparo dos pratos e temperos variados — que provocaram mudanças no processamento desses produtos. Hoje eles constituem o cardápio básico das festas juninas, acrescentando-se produtos regionais como o pinhão sulino, as castanha-de-caju e a do pará.

“As comidas típicas dizem respeito ao que a terra proporciona aos festeiros na época específica em que estas ocorrem. O mês de junho/julho evidencia, principalmente no Nordeste, o período em que estamos colhendo o que plantamos até então. Pela própria natureza de cada região colhemos neste período geralmente milho, amendoim, batata doce e mandioca para toda a safra. É importante destacar que continuamos celebrando o ato de colher, até hoje, pois, apesar de estarmos na cidade, o milho, a macaxeira, mandioca e todas as hortaliças e demais cereais que necessitamos continuam sendo plantadas sertão adentro e nós a rezar que Deus promova a bendita chuva que necessitamos para favorecer que sempre tenhamos comida”, detalha a professora Lourdes Macena.



Programação cultural

No Nordeste, a festa junina não é para se ver, mas para se viver. Nela brincamos de tiro ao alvo, de quadrilha improvisada, de pau de sebo, fazemos adivinhação - mesmo de brincadeirinha, damos banho no santo no rio madrugada adentro, fazemos jogo de argola, corrida de saco onde a única guerra é a do partido azul e encarnado, que ao final dançam juntos. A cor, a flor, a estampa, as fitas, o boi, a folia, o milho assado, a luz da fogueira nos enche de vida e festa. Nos tornamos mas terra, mas ligados à tradição e às origens. “É a comida feita de forma simples, é um mundo de sociabilidade possível que se busca, apesar da forma urbana louca em que vivemos contribuindo mesmo sem querer, para diminuir estas formas distantes de vida. Assim, corremos para este espaço nordestino na procura desses bens perdidos”, analisa Lourdes Macena.

Em Fortaleza e no interior do Estado, as festas são levadas muito a sério, com as quadrilhas sendo preparadas durante o ano inteiro para as competições. A maioria das festas acontecem, como o nome mesmo diz, no mês de junho, mas o calendário de eventos tem, nos últimos anos, se propagado julho adentro.

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Simpatias



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