Diário do Nordeste Plus

Até que ponto vai o
excesso de exposição na Web?

Saiba como os exageros nas redes sociais podem afetar sua vida; veja o relato de dois personagens que se mantêm conectados a todo momento

Com o passar dos anos, a tecnologia se fixou em nossas vidas. Conforme o tempo foi se construindo, o homem começou a se adaptar aos dispositivos tecnológicos. Atualmente encontrar algum membro da geração Z fora do círculo de conexão é uma tarefa bem complicada. Isso porque os integrantes desse conjunto, que nasceram nos anos 2000 até os dias de hoje (2016), cresceram possuindo produtos digitais, smartphones, PCs, tablets e smartwatches como brinquedos. Por meio das inúmeras plataformas especializadas em refletir os aspectos da vida humana, como Facebook, YouTube, Instagram e Snap, os internautas iniciaram um logo processo de produção, onde a todo momento expressam informações relevantes, que são exibidas nas redes para que outros utilizadores tenham conhecimento da sua existência no mundo virtual, potencializando o “poder do eu”.

O desejo de ser seguido e reconhecido por outras pessoas não é necessariamente uma prática atual. Esse grito por aclamação vem desde o surgimento da imprensa, na Alemanha, e com os desenvolvimentos de outras telecomunicações como a televisão e o rádio. Com a inclusão dos dispositivos móveis, passamos a ficar cada vez mais atarefados, mas não com o mundo real e sim com o virtual. Ou seja, substituímos o poder de comunicação do mundo real para nos relacionarmos virtualmente.

No ano de 2015, o Instituto Brasileiro de Geografia de Estatística (IBGE) constatou que a internet está presente em mais de 50% das casas do país. O número vem crescendo desde 2014. A única mudança no cenário foi a substituição do computador (PC), que saiu de primeiro lugar para dar lugar ao smartphone, atualmente na liderança. Por meio do fácil acesso aos dispositivos móveis e à web, os internautas brasileiros são os mais participativos na plataforma. Uma pesquisa feita pela Nielsen apontou que os usuários do Brasil são os que mais usam mídias sociais no mundo, deixando para trás países populosos como China, Índia e Estados Unidos.

Kéfera
O sucesso de Kéfera no YouTube a levou para produzir livros e até ser a atriz principal de um filme, "É Fada", em cartaz em todo o Brasil. Na foto, ela está no colégio de sua protegida. Foto: Divulgação

O hábito de se expor na internet já se tornou cultural do brasileiro. Nosso país é um dos mais relevantes quando os assuntos tratados são youtubers e/ou blogueiros. Temos nomes que se destacam no cenário mundial, como Whindersson Nunes, Gabriela Pugliesi, Julio Cocielo, Hugo Gloss, Kéfera Buchmann, Camila Coutinho, entre outros. Essas estrelas digitais já se tornaram maiores do que algumas emissoras e eles informam aos seus seguidores todos os momentos do seus dias, como se fosse um Big Brother.

Por meio desses símbolos digitais e dos dispositivos mobile, os brasileiros estão se classificando como a terceira população mais conectada do mundo. Um estudo realizado pela Global WeblIndex, empresa especialista em analisar dados do mundo digital, mostra que a cada ano, os internautas nacionais se conectam cada vez mais aos smartphones. Apenas de 2012 a 2015, o número de usuário conectados aqui no Brasil triplicou. Atualmente, os brasileiros ficam em média 3 horas e 40 minutos por dia no celular, ficando atrás apenas de Arábia Saudita (3 horas e 48 minutos) e Tailândia (4 horas).

Pensando na sociedade excessivamente conectada e disposta a tudo para mostrar o que faz nas redes sociais, os diretores Ariel Schulman e Henry Joost, conhecidos por dirigirem um documentário chamado "Catfish", onde mostram a realidade de relacionamentos online, apresentam ao público seu mais novo trabalho, "Nerve: um jogo sem regras". O longa surpreendeu o público, pois os autores mostram como a internet, junto com as redes sociais, pode transformar as pessoas. O filme retrata Vee, uma jovem sem vida social que está indo para a faculdade. Por pressão dos amigos, ela decide entra no “Nerve”, jogo virtual de “verdade ou desafio” que é acompanhado por vários usuários online, para ter o reconhecimento dos internautas. O game ainda é dividido entre desafiadores (telespectadores) e jogadores (personagens que ganham direito com os objetivos concluídos). No começo, tudo é prazeroso e divertido com pequenos desafios sendo impostos por alguns seguidores, mas com o passar do tempo, Vee se torna uma blogueira famosa e vira vítima de um roubo de identidade, elaborado pelos organizadores do jogo. Ou seja, ela não consegue mais ter sua privacidade de volta, pois é obrigada a realizar todos os desafios solicitados pelos seus fãs.

Não há assunto mais contemporâneo do que o filme. Ele está se tornando um sucesso de bilheteria, pois apresenta o lado obscuro das redes sociais, que muitas vezes passa despercebido. No mundo virtual nem tudo é o que parece ser; pessoas tendem a se passar pelas outras a todo momento. Além do mais, na internet tudo é extremamente escancarado e sempre aberto para exposição; informações confidenciais são transmitidas a todo tempo pelos usuários. Antes mesmo do filme, anos atrás, em Bruxelas (Bélgica), realizaram uma brincadeira onde um falso vidente adivinhava segredos de pessoas através do Facebook. Vários transeuntes participaram da pegadinha e o que o mago previu foi uma quantidade absurda de informações pessoais expostas nas redes sociais sem que os usuários soubessem. Itens como localização, número de documentos, vídeos, fotos e até senhas de cartões foram encontradas nos perfis.

Outra forma de entretenimento que também apresenta teorias sobre o futuro das pessoas em conexão com a tecnologia é a série britânica, Black Mirror, criada por Charlie Brooker. Na trama, o autor relata três histórias diferentes para cada temporada. Os episódios apresentados já envolveram sequestros ocorridos pelas redes sociais, assassinatos ocasionados por causas de bloqueios em plataformas digitais e até mesmo a ressuscitação de integrantes que morreram e voltaram à vida por meio de inteligência artificial.

A nova temporada de Black Mirror ficará disponível ao público no dia 21 de outubro por meio da Netflix. A série de Charlie Brooker apresentará seis histórias diferentes, onde envolvem passado, presente e futuro. Além do mais, os episódios irão mostrar como estamos a todo tempo sendo observados pelos nossos dispositivos tecnológicos.

Transtornos ocasionados pelo excesso das redes sociais

A inclusão da tecnologia nos dias atuais beneficiou diversos fatores na vida humana, como mobilidade, comunicação, saúde, educação e entre outros casos. Somente neste ano (2016), o Brasil bateu um recorde e constatou que 168 milhões de smartphones são usados em território nacional. Um estudo desenvolvido na 27° Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FVG – SP), constatou que em apenas dois anos esses números podem chegar a 236 milhões de aparelhos.

O fácil acesso aos dispositivos móveis fez com que a população mundial desenvolvesse um novo vício. Cada vez mais pessoas se tornam "zumbis" digitais. Ou seja, não conseguem se desligar da internet e só em pensar na possibilidade começam a ter crises. Durante algumas semanas, a Universidade de Chicago acompanhou o perfil de vários usuários e constatou que o apego às redes sociais é bem mais forte de que drogas químicas, como o álcool e o cigarro.

Elane Damasceno
Elane Damasceno diz que a transição entre o real e o virtual pode fazer com que o internauta se imagine livre para ser o que sempre sonhou. Foto: Helene Santos

A psicóloga Elane Damasceno especialista em terapia cognitiva comportamental, comenta que qualquer forma de excesso é prejudicial ao ser humano. Segundo a profissional, as pessoas viciadas em internet entram na rede para viver o mundo virtual, ou seja, ilusório. A transição desses mundos pode fazer com que o internauta se imagine livre para ser o que sempre sonhou. Para conseguirem ser notados nas redes sociais, os usuários precisam se mostrar. A apresentação do cotidiano faz com que uma pessoa coloque todos os seus sentimentos no mundo online, causando consequentemente o vazio existencial.

Usuários que passam pelos menos uma hora diariamente nas redes sociais podem sentir um misto de emoções, como inveja, tristeza, solidão, raiva e insatisfação com a vida. Essa concentração pode ocasionar transtornos mais sérios e destrutivos, como depressão, ansiedade e crises de pânico. Além do mais, esses internautas podem propagar outras doenças raras, tal como Nomophobia (medo por não ter acesso a um dispositivo móvel), Síndrome do toque fantasma (sensação de achar que seu smartphone está tocando ou vibrando a todo momento), Náusea digital (desorientação quando internautas passam muito tempo conectados) e a Cibercondria (tendência a acreditar que você possui as doenças que conheceu na web).

Como ter conhecimento se você é um viciado em internet

Daniel e seu livro para ensinar como se "desintoxicar" de tanta tecnologia. Foto: Reprodução do YouTube

Daniel Sieberg é um jornalista canadense e um ex-viciado em tecnologia. Por muitos anos se tornou refém dos dispositivos móveis. De um tempo para cá, ele conseguiu vencer a obsessão e deixar sua vida organizada. Especialista no assunto, Sieberg decidiu desenvolver o livro "The Digital Diet". Nele, o autor ajuda outros internautas a se desligarem do mundo online sem sofrer com a abstinência.

No livro, o autor "receita" uma dieta de quatro passos que mudarão a vida de qualquer viciado em internet:

  • Não usar nenhum tipo de gadget, como smartphone e tablet, ou acessar as redes sociais, a exemplo de Facebook e Twitter, por um ou dois dias. A ideia é avaliar como a tecnologia domina o seu dia a dia e o impacto que ela tem nas suas relações com as pessoas.
  • Fazer um balanço do número de gadgets e de redes sociais e blogs que acessa usando o "Índice de Massa Virtual"
  • Restabelecer relações pessoais que possam ter sido afetadas de alguma maneira pelo uso da tecnologia.
  • Incorporar as tecnologias realmente necessárias e até algumas que ajudam a gerenciar a sua vida, como aplicativos que indicam perda de peso, que impedem o envio de mensagens enquanto se dirige ou que organizam calendário.

Para saber se você é um viciado em tecnologia, o jornalista criou o "Índice de Massa Virtual", um cálculo que se parece com o IMC (Índice de Massa Corporal). Faça o teste abaixo e veja em qual aspecto você se enquadra.

Humor alternativo

La Fênix tem até loja onde vende produtos como a camisa desta foto. Foto: Reprodução da internet

O La Fênix surgiu há 12 anos inspirado no grupo de humor alternativo Jackass (elenco que fez história no cinema americano realizando desafios perigosos). Depois de assistir um filme, Rody Dio chamou seus amigos, pegou uma câmera e decidiu gravar os seus próprios desafios. Para não apagar as filmagens e mostrar para as outras pessoas, eles resolveram armazená-las no YouTube, criando assim o primeiro canal do grupo. Em pouco tempo, eles foram observando que o número de seguidores e de visualizações ia aumentando cada vez mais. Segundo Rogério Oliveira, o crescimento do grupo se deu pelos compartilhamentos do Blog Não Salvo e por ser uma forma de entretenimento diferenciada para a época.

Atualmente eles contam com mais de dois milhões de seguidores no canal e realizam desafios que muitas vezes são lançados por seus fãs. O grupo já comeu 150 sanduíches de uma vez, bebeu refrigerante com mentos, usou papel higiênico com pimenta, ateou fogo no corpo, entre outras coisas, apenas para ganhar visualizações. Os vídeos que são hilários para alguns e inconsequentes para outros rendem um sucesso estrondoso para o canal do La Fênix. Ao todo, 391.976.313 pessoas do mundo todo já assistiram algum vídeo do grupo. Toda essa popularidade fez com que eles fossem intitulados como os "Jackass" do Brasil.

Se engana quem pensa que o La Fênix sempre teve esse triunfo e reconhecimento. O grupo, que atualmente passa por uma reformulação de integrantes, está oficialmente no YouTube desde 2010. Porém, eles entraram na plataforma bem antes do tempo sugerido pelo canal. Isso porque a formação sofreu com os limites do YouTube. Ou seja, por causa de vídeos com conteúdo inadequado, que envolvem sangue ou alguma nudez, o La Fênix viu os seus antigos canais serem excluídos e tiveram que começar sempre tudo do zero. Segundo Rogério, um dos fundadores do canal, eles não são livres para fazer tudo que pensam. "Trabalhamos para o YouTube e temos que respeitar todos as diretrizes da plataforma, se não somos banidos".

Já amadurecidos, os integrantes possuem um escritório onde administram tudo que é relacionado ao canal. Os vídeos realizando desafios perigosos se transformaram em um trabalho sério. Como YouTubers, os integrantes devem passar o dia inteiro conectados, organizando eventos, parcerias e notificando os seus fãs. As múltiplas redes sociais fazem com que o La Fênix se aproxime ainda mais dos seus seguidores, notificando o porquê de que muitos desafios não são cumpridos. "Nós nunca vamos gravar algo que não queremos. Só filmamos coisas que achamos divertidas e temos que dar uma resposta para os nossos seguidores por meio das redes sociais".

Um personagem que sobrepõe o mundo virtual

Paulo Buuh saiu do YouTube, mas não desgruda das redes sociais. Foto: Thiago Gadelha

O maranhense Paulo Henrique, conhecido virtualmente como Paulo Buuh, virou um sucesso de views em 2013, depois que assaltantes roubaram seu celular em uma parada de ônibus de Fortaleza. Revoltado, ele chegou em casa e decidiu descontar toda a sua raiva em um vídeo, gravado no celular da irmã. Depois de uns dias, decidiu postar no Facebook para alertar os amigos que estava sem comunicação.

Achando engraçado, alguns amigos de Paulo, que moram no Maranhão baixaram o vídeo e compartilharam entre os grupos de WhatsApp de São Luís, Teresina e outras capitais do Nordeste. Viralizado no aplicativo, um canal incorporou a filmagem no YouTube e com os compartilhamentos de blogs, como Kibe Louco, Não Salvo, Galo Frito e Suricate, o vídeo atingiu mais de 800 mil visualizações.

O que é engenharia
Social?|

Um método de ataque, onde alguém faz uso da persuasão, muitas vezes abusando da ingenuidade ou confiança do usuário, para obter informações que podem ser utilizadas para ter acesso não autorizado a computadores ou informações.

A fama bateu na porta de Paulo Buuh da noite para o dia. Ele se recorda que quando saía de casa e pegava o transporte público era reconhecido pelas pessoas. "Sempre pediam para eu tirar fotos e fazer mais vídeos", recorda. Conforme os pedidos iam aumentando, Paulo decidiu fazer um canal e gravar o seu cotidiano semanalmente. Ajudado pelos meninos do Suricate Seboso (Blog humorístico de Fortaleza), ele foi ganhando público e tendo uma identidade própria, até que um dia decidiu parar. O YouTube ao invés de ajudar, estava "atrapalhando" sua vida, segundo Paulo. Ele era visto ou subjugado sempre como um personagem. Ou seja, as pessoas sempre o via como um ator, achando que tudo que ele fazia no mundo virtual era apenas uma forma de chamar atenção e ganhar seguidores.

Longe do YouTube há um certo tempo, o maranhense não desgruda agora das redes sociais. Os aplicativos mais usados por ele são o Instagram, Snap e Facebook. "Acredito que as redes sociais fazem as pessoas acharem que realmente somos reais e não apenas personagens". Diariamente ele grava vídeos nos aplicativos e encaminha para os seus amigos. "Não é de fato querendo voltar a ser um digital influencer. Eu gravo para me relacionar com o mundo digital e passar um pouco da minha alegria para os íntimos que me seguem".

Os riscos

O presidente da Associação de Peritos em Computação Forense do Ceará, Marcos Monteiro, comenta que a internet atual (2.0) foi desenvolvida para que cada internauta colaborasse com algum conhecimento na sua plataforma. Porém, cada informação pessoal uma vez divulgada pode ser usada contra qualquer usuário. Por meio da engenharia social, os criminosos estudam perfis e por meio das fotos reconhecem parentes dos seus alvos, para que um golpe possa ser armado.

O especialista aponta que cibercriminosos conseguem roubar dados de várias maneiras. “Algumas contas de e-mails podem ser acessadas através de ferramentas de recuperação de senha baseadas em perguntas cujas respostas facilmente são encontradas nas redes sociais do alvo, como cidade natal, data de nascimento, nome de um pet, escola, dentre outros; informações que também podem ser usadas para adquirir confiança”. Além do mais, o método mais comum de ser alvo de um bandido é através das exibições nas redes sociais. Internautas que se mostram demais no mundo virtual acabam se tornando presas fáceis. Isso porque, com um deslize, o hacker pode saber tudo sobre você, localização, bens, rotina etc.

"A informação é um ativo, tem valor e pode ser usada facilmente para cometer crimes de diversas formas e as redes sociais potencializam estes crimes e só tem uma defesa para isso, escolha bem o quer apresentar para o mundo", finaliza Marcos Monteiro.