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Do Ceará para o mundo

Os fortalezenses Raffael, Ronny, Rômulo Alves e Bruno Taffy lotam estádios e ginásios e são aclamados nos países por onde passam

O Ceará é conhecido mundialmente por sua beleza, cultura e a singularidade do seu povo. Além do mais, o Estado é famoso por ser palco de grandes modalidades esportivas, como futebol, vôlei de praia, futsal, tênis de mesa, atletismo, hipismo, basquete, entre outros. O Estado sempre lapidou atletas para o Brasil e outros países, como é o caso de figuras como Shelda Bedê, heptacampeã do Circuito Mundial de Vôlei de Praia e medalhista de prata no Jogos Olímpicos de Sydney (2000) e Atenas (2004), Thiago Monteiro, participante de três Olimpíadas representando o Brasil no tênis de mesa e Edivaldo Prado, paratleta com mais de 100 medalhas no currículo.

De uns tempos para cá, o Ceará tem ganho fama de ser um celeiro de bons atletas no cenário futebolístico, seja nos campos (futebol) ou nas quadras (futsal). Mesmo amargando grandes decepções nos últimos anos, os times do Estado têm contribuído para os esportes, revelando craques que levam o nome da nossa região pelo mundo afora, como é o caso de Raffael, Ronny, Rômulo e Bruno Taffy, esportistas que chegam a ser desconhecidos no cenário local, mas que atraem multidões na Alemanha, Rússia e Espanha, respectivamente.

Um ídolo alemão

Raffael Caetano de Araújo, de 31 anos, é filho do ex-lateral direito Caetano, que fez história com as camisas de Ceará e Fortaleza nos anos 80. Inspirando-se no pai, Raffael começou sua jornada no mundo da bola, primeiro se divertindo nas peladas do Bairro de Fátima e depois indo para AABB jogar pelo time de futsal da instituição. O jovem logo se destacou nas competições locais, por sua serenidade, que o acompanha até hoje, e pelo seu faro de gol, que logo rendeu o apelido de "Faísca".

Por causa dos gols, vieram as oportunidades. Aos 11 anos, a família de Raffael juntou dinheiro e o levou para fazer um teste na base do Vitória, time da Bahia. Nos primeiros dias, com a presença dos pais, o atleta rendeu o esperado, mas depois que viu o pai e a mãe retornarem para o Ceará, teve que lidar com o primeiro desafio da profissão, a solidão. Quando batia o desespero, Raffael ligava para Caetano chorando. O pai, um antigo jogador profissional, aconselhava seu filho.

Raffael com o pai, o ex-jogador Caetano, e o irmão Ronny, que também joga no futebol europeu, na cobertura em Fortaleza Foto: Bruno Gomes

Após algum tempo na base do Vitória, Raffael se transferiu para o tradicional Juventus/SP, localizado no bairro da Mooca. Lá, ele fez parceria com Hernanes, atleta profissional que joga atualmente na Juventus da Itália. O clube foi uma espécie de ponte para o jogador, porque foi lá que Raffael mudou de vida. Logo depois de completar 18 anos, um representante chegou ao centro de treinamento do Juventus e disse aos jogadores que o FC Chiasso, time da Suíça, precisava de um atacante. Antes do anúncio ser feito, um olheiro suíço já tinha passado pelo CT do clube e informado aos dirigentes do time europeu que tinha encontrado um jovem habilidoso e velocista.

Não sabendo a língua e sem conhecer a cultura local, Raffael arrumou suas coisas e se mudou para Europa. Logo no início da sua estadia no velho continente, o atleta teve que matar um leão por dia para se adaptar ao frio, à comida e às diferenças de cultura. Ao todo, ele ficou de 2003 a 2005 no FC Chiasso, disputando a Challenge League, segunda divisão, marcando 30 gols em 61 partidas disputadas. O bom aproveitamento pelo clube de Chiasso fez com que o Zürich, time da primeira divisão suíça, contratasse o jogador. Lá, ele foi rei, disputando três temporadas e meia, ganhando duas Ligas Suíças, participando de 106 partidas e marcando 53 gols, obtendo um aproveitamento de 0,5 por jogo. O bom rendimento fez com que os torcedores os chamassem de "Ronaldinho Suíço".

Raffael (esquerda) encontra Neymar pela Champions League Foto: AFP

Em janeiro de 2008, depois de boa campanha, Lucien Frave, técnico do Zürich, e Raffael mudaram de time, foram para o Hertha Berlim da Alemanha. Na primeira temporada com a camisa da Alte Dame (velha senhora), o cearense foi bem, deixando o time numa posição intermediária na tabela. Na temporada seguinte (2008/2009), ele foi um dos destaques de toda competição por ter salvo o time de Berlim do rebaixamento. Porém, a fase de 2009/2010 foi decepcionante para Raffael, mesmo com gols, o atleta não conseguiu evitar o baixo rendimento da equipe e pela primeira vez na carreira foi rebaixado para uma divisão inferior. Por conta da queda, a direção do Hertha dispensou vários atletas, mas manteve Raffael para ser um dos pilares para a nova temporada (2010/2011), com ele em campo o time de Berlim não só conseguiu voltar para elite do futebol alemão, mas conseguiu ser campeão da Bundesliga 2 (Série B alemã).

"Foi na Ucrânia (Dynamo Kyiv) onde vivenciei a maior dificuldade da minha carreira. Não consegui jogar da maneira que jogava antes, porque minha família e eu não nos adaptamos ao idioma e a cultura local"Raffael

Depois de cinco temporadas sendo o jogador chave do Hertha Berlim, Raffael chamou a atenção dos dirigentes do Dynamo Kyiv da Ucrânia. Em julho de 2012, o atleta foi contratado para ser o dono da camisa 7, eternizada por Andriy Shevchenko, maior ídolo do país. Porém, foi no clube ucraniano que Raffael teve a sua pior fase. Por conta do frio, o atleta só conseguiu entrar em campo 13 vezes e só marcar um único gol. Por conta da sua falta de adaptação, o atleta retornou à Alemanha para defender as cores do Schalke 04. Ele também não deixou saudades nos Azuis Reais e depois que o seu contrato se inspirou ele rumou para Mönchengladbach.

Raffael (último de camisa branca à direita) comemorando quebrar a invencibilidade do Bayern de Munique Foto: AFP

A cidade pode ter o nome difícil para os demais cearenses, mas há quatro anos é a casa de Raffael. O dono da camisa 11 do Borussia é um dos jogadores mais aclamados dos Potros. No clube, o jogador passou dos 100 jogos oficiais (127) e já acumula 50 gols. Pelo tricolor alemão, Raffael já conseguiu feitos inacreditáveis, como receber aplausos de Pep Guardiola, calar a Allianz Arena (estádio do Bayern de Munique), fazendo dois gols em Neuer, quebrando a invencibilidade do maior time alemão e levar o Gladbach para a disputa da tão sonhada Liga dos Campeões.

O hummer de Berlim

Ronny Heberson Furtado de Araújo, 30 anos, é o segundo filho de Caetano e irmão de Raffael. O atleta é mais um cearense que possui uma carreira consolidada no Velho Continente. Na Europa, Ronny é um dos destaques da equipe do Hertha Berlim há sete anos, mas atua fora de seu país de origem há mais de uma década (11 anos).

Ronny é considerado o chute mais potente da Europa. Foto: Arquivo Diário do Nordeste

Diferentemente do irmão, Ronny começou sua carreira profissional nos times de base do Corinthians (Sub-17 e Sub-19). Por ser um dos jovens mais promissores do centro de formação do clube paulista, foi utilizado no plantel no ano de 2005, realizando 9 partidas, marcando 2 gols e se sagrando campeão do Campeonato Brasileiro. Em 2006, por ser uma temporada conturbada para o Timão, não obtendo bom resultado como no ano anterior, o jovem lateral esquerdo teve pouco aproveitamento.

A sua pouca utilização fez com que Ronny se transferisse para o Sporting de Portugal. Foi no time luso que o jogador começou a mudar sua colocação no campo a pedido de Paulo Bento, técnico do clube na época, deixando a lateral esquerda para jogar na meia. A mudança fez com que Ronny ficasse conhecido no mundo todo. Isso porque, foi pelo Sporting que o atleta conseguiu um recorde por efetuar o chute mais rápido da história, fazendo a bola morrer no gol com 222 km/h.

"Eu já machuquei a mão de um goleiro do Hertha com a potência do meu chute"Ronny em entrevista ao portal LANCE

As boas atuações em Portugal, fizeram com que Ronny fosse atuar junto com seu irmão no Hertha Berlim em 2010/2011. Depois dos campinhos da infância, foi a primeira vez que os dois vestiram a camisa do mesmo clube. Logo na primeira temporada, o atleta se sagrou campeão da 2.Bundesliga, recolocando o Alte Dame na elite do futebol alemão. Nos anos seguintes, sem a parceria com o irmão, Ronny foi um dos líderes da equipe e mesmo com boas exibições não conseguiu impedir o rebaixamento do ano de 2011/2012.

O atleta surpreendeu a todos, quando decidiu ficar e reerguer o Hertha, na temporada seguinte (2013/2014), ele mais uma vez conquistou a taça de campeão da 2.Bundesliga virando ídolo da torceida. Nas 7 temporadas com a camisa da Velha Senhora, Ronny conquistou dois títulos, fez 123 jogos e marcou 28 gols.

Cidadão russo

Atualmente, Rômulo Alves Nobre é considerado pelos especialistas, um dos maiores jogadores de futsal do mundo. O fixo que se transferiu nesta temporada (2016/17) para o Barcelona, começou sua ligação com o esporte nos campinhos de terra da Barra do Ceará, em Fortaleza. Como a maioria, o jovem queria ser uma estrela, sendo reconhecido por defender os maiores times de futebol do mundo. Porém, aos 17 anos, viu que trilhar os passos do futsal seria mais viável. Isso porque, o Estado é conhecido mundialmente desde os anos 80 pelos jogadores que revelou.

Com o pensamento em mente, Rômulo deixou a base do Ceará e se transferiu para o Sumov, time cearense de futsal. O clube foi responsável por formar toda a origem do jogador, junto com outros times paulistas, mas foi somente no Paraná que o jogador começou a chamar atenção. No Estado, o atleta foi um dos pilares do Umuarama, time do interior, por dois anos (2006/2007). De lá, ele retornou para São Paulo para defender o Santa Fé. No clube, Rômulo só precisou de alguns meses para chamar a atenção de times da Espanha.

No início do segundo semestre (abertura do mercado europeu), o Carnicer Torrejón Futsal, localizado em Ardoz, comunidade próxima de Madrid (Espanha), levou Rômulo Alves. Sem sentir dificuldades, o atleta precisou de apenas seis meses, como no antigo clube do interior paulista, para chamar a atenção de times maiores. Ao final do campeonato espanhol de futsal (2010), os russos do Dynamo Moscou fizeram uma oferta valiosa e contrataram o jogador.

Rômulo disputando uma partida pelo Dynamo Moscou Foto: Reprodução/ Dynamo

Foi em Moscou que a vida de Rômulo começou a alcançar voos maiores. Em pouco mais de um ano, depois de grandes exibições com a camisa do Dynamo, o atleta foi convidado pela Federação Russa a se naturalizar pelo país para disputar a Copa do Mundo e a Eurocopa, ambas de 2016. Esquecido pelo técnico da Seleção Brasileira de Futsal e já adaptado ao país, Rômulo aceitou e começou a defender a camisa russa em 2013.

O atleta defende a Rússia desde 2013 e é vice-campeão mundial pela Seleção Foto: Divulgação

Durante seis temporadas sendo um dos jogadores de mais destaques do Dynamo de Moscou, Rômulo ganhou por quatro vezes a Super Liga e a Copa local. Os títulos e as boas exibições pela equipe e pelo país, chamaram a atenção do Barcelona, que precisou investir pesado para tirar o cearense da Rússia. Mesmo com poucos meses no time espanhol, Rômulo já é reverenciado pelos torcedores e um dos líderes da equipe por conta da sua experiência. No vestiário do clube da Catalunha, ele encabeça o pôster junto com os outros brasileiros do elenco, como Ferrão, Bateria, Dyego e João Batista.

Rômulo aceitou reduzir seu salário em 30% para realizar o sonho de defender o Barcelona Foto: Divulgação/Barcelona

Embora possua dupla cidadania, Rômulo nunca se ausentou do Ceará; quando está de férias, ele vem com sua família para curtir os pais, os amigos, o calor e tentar acompanhar os jogos do Fortaleza, clube ao qual ele é fanático.

O destaque madrilenho

A história de Bruno Taffy Nogueira Aguiar, 26 anos, chega a ser curiosa. O atleta de futsal, que atualmente é sensação do campeonato espanhol, começou sua carreira no Fortaleza, disputando e fazendo uma bela apresentação na Copa São Paulo de Futebol Júnior, torneio masculino juvenil de Sub-20. Após o torneio, o atleta foi emprestado para o time de futebol de Aracati, para ganhar entrosamento e ritmo de jogo. Porém, um ano depois Bruno desistiu do esporte.

Quando todos pensavam que Bruno Taffy tinha se aposentado e largado o mundo da bola, o atleta surpreendeu e apareceu como uma das contratações do time de futsal do Santos. Na equipe, o jogador fez parceria com Falcão, maior jogador do esporte, e conquistou títulos importantes com o time da baixada santista, como o campeonato da Liga Futsal e vice-campeonato da Liga Paulista. Após se destacar na temporada, o jogador chamou a atenção do exterior e em 2012, o time H.Llevante Manacor, da Espanha, contratou Bruno.

"Sempre tive vontade de conhecer e jogar em outro país. Logo quando saí do Santos, o H. Llevante Manacor me enviou uma proposta, eu achei interessante e aceitei".Bruno Taffy

Logo no primeiro período, o jogador teve que se adaptar rápido e junto com o brasileiro João Batista, deixaram o Llevante Manacor na 10ª colocação, salvando o time das últimas posições. Na temporada seguinte (2013/2014) não foi diferente, Bruno Taffy passou mais um período ruim com a equipe, amargando o 12º lugar na tabela. Pensando em algo novo, os dirigentes do time decidiram mudar de nome e de cidade, transferindo-se para Mallorca e criando o Palma Futsal.

Taffy (penúltimo da esquerda para a direita) no treino do Palma Futsal Foto: Instagram

A "nova" equipe fez com que Bruno Taffy esquecesse os anos difíceis na Espanha e logo na primeira temporada, o atleta levou o time do Palma para as quartas de finais da Copa do Rey e a Copa da Espanha pela primeira vez. No ano seguinte (2015/2016) foi ainda melhor para profissional e para o time da cidade de Mallorca. Isso porque Taffy se destacou marcando 31 gols na Liga e levando a equipe para o vice campeonato da Copa do Rey.

O seu retrospecto fez com que ele entrasse na lista dos melhores jogadores do ano, chamando atenção do Inter Movistar de Madrid, uma das equipes de maior relevância do país. Em julho desse ano (2016), o atleta foi contratado pela "La Maquina Verde", depois de quatro anos defendendo as cores do H. Llevante Manacor/Palmas Futsal.

Taffy (primeiro à esquerda) no vestiário com colegas do Movistar Foto: Instagram