Diário do Nordeste Plus

Como ter sucesso
no exterior

As expectativas, conquistas, frustrações e os desafios da vida nova no exterior são muitos. Saiba como um grupo de cearenses conseguiu ter sucesso morando em outros países

O sonho de mudar o rumo na carreira profissional e conseguir um emprego no exterior tem levado a cada dia mais brasileiros, inclusive cearenses, a deixarem seus familiares e amigos na tentativa de alçar outros voos profissionais. As motivações são diversas, seja pela qualidade de vida, por melhores salários ou para desenvolver de forma mais aprimorada sua atuação no campo profissional.



Não há um número exato de quantos brasileiros estão morando no exterior. Tanto o Ministério das Relações Exteriores quanto o IBGE reconhecem a dificuldade de quantificar com exatidão em razão de muitos estarem como imigrantes ilegais. Contudo, o Ministério das Relações Exteriores estimou, em 2014, que mais de três milhões de brasileiros vivam fora do país. O Censo do IBGE de 2010 avaliou cerca de 500 mil.

No documento, o Ministério das Relações Exteriores explica ter usado como base os relatórios enviados anualmente pelos Consulados e Embaixadas sobre o número de brasileiros residentes. Ressalta, no entanto, que grande parte dos brasileiros vivem em situação migratória irregular e evitam submeter-se as sondagens.

Para orientar brasileiros que pretendem morar fora, o Ministério das Relações Exteriores elaborou cartelas com recomendações. Uma delas é para que o cidadão que parte para o exterior busque ainda no Brasil a Embaixada ou Consulado de onde pretende morar para saber sobre os procedimentos necessários.

Aprimorando conhecimentos na Espanha

Marina viva entre Londres e Barcelona Foto: Arquivo Pessoal

A fortalezense Marina Esmeraldo, autônoma na área de artes visuais, mora em Barcelona, na Espanha, há quase sete anos. Ela atua como ilustradora e diretora de arte freelance. Ela conta que, após trabalhar no mercado cearense, sentiu necessidade de expandir os estudos e aprimorar conhecimentos na então área de atuação, a Arquitetura e Urbanismo.

Esmeraldo se mudou para o País para fazer um mestrado em Design e Espaço Público ainda quando atuava em Arquitetura e Urbanismo, sua área de formação. No entanto, mudou o rumo da sua carreira ao estagiar em um estúdio de design de interiores. “Vim primariamente para estudar, mas pela estrutura da universidade também consegui estagiar e conhecer o mercado de trabalho em Barcelona. A questão é que no meio do caminho minha vida tomou um rumo bem diferente, acabei decidindo ficar na Espanha e mudei de profissão”, conta.

Hoje, ela gera desenhos e imagens para clientes, como revistas, livros, capas de discos e conteúdo para marcas. “Por conta da internet, trabalho com o mundo todo, dos Estados Unidos até a Austrália – com marcas globais como Google e WeTransfer, até empresas e negócios cearenses como a Catarina Mina, o salão de beleza Rituale e a marca Josephine”, relata.

Segundo Esmeraldo, na área do design e das artes visuais, a diferença salarial da Espanha para o Brasil é gritante, principalmente com a recessão no País e as taxas de câmbio entre as diferentes moedas. Ela destaca que o baixo custo de vida também permite a expansão do poder de compra. Outro fator positivo em Barcelona é a qualidade das instituições de ensino, com o acesso à cultura e ao universo do design e das artes visuais, além da qualidade de vida, aponta Marina.

“Na época em que vim pra Espanha, o mercado de trabalho na área de arquitetura estava em recessão violenta. De qualquer forma, a média salarial em arquitetura na Espanha é cerca de duas vezes mais que no Brasil, mas a questão é que o custo de vida aqui é mais baixo, então o dinheiro vai ainda mais longe”, destaca.

Encantos

Um dos trabalhos de Marina no exterior Foto: Arquivo Pessoal

Apesar dos encantos da vida em Barcelona, Marina cita que a recessão na Europa e especificamente no campo da arquitetura criaram barreiras na sua permanência. Além disso, ela também sentiu dificuldade no processo de imigração extremamente burocrático e complexo.

“O rumo da minha trajetória pessoal e profissional influenciou esse processo – além da mudança de profissão, casei com meu namorado, que é inglês. Uma das consequências foi que isso me proporcionou os meios legais de permanecer no País”, explica.

Por ser freelance, sua rotina atual na Espanha é diferente da época em que trabalhava em escritórios em Fortaleza. Segundo Marina, é comum em profissões criativas o hábito de longas horas de trabalho e uma remuneração não correspondente ao tempo dedicado. “Faço meus próprios horários, não preciso de carro e todo o meu transporte é feito a pé, bicicleta e transporte público. Trabalhar para si mesmo sempre implica trabalhar muito mais do que uma pessoa assalariada, mas particularmente sou muito mais feliz com esse estilo de vida”, disse.

Embora amigos e familiares morem em Fortaleza, Marina Esmeraldo afirma não ter planos de voltar já que construiu uma vida amorosa e profissional entre Barcelona e Londres. Para ela, também é importante o cultivo do contato e a presença junto aos clientes no país. O acesso a circuitos de eventos no seu mercado do trabalho é um fator atrativo da Europa.

“O Ceará é onde está minha família, a maioria dos meus amigos, as praias do meu imaginário e a gastronomia que mais me faz feliz, então a saudade (esse sentimento tão brasileiro) é sempre presente, mas no momento não tenho planos de voltar”, garante.

Em busca de uma vida nova no Canadá

Voltando ao Canadá depois de uma passagem de férias no Brasil Foto: Arquivo Pessoal

A analista de sistemas Ana Karoline de Castro chegou ao Canadá em 2009 sem perspectiva de contratação ou emprego em vista. Depois de conseguir alguns empregos em Quebec, em 2011 passou em um concurso público para atuar como gerente de projeto em um departamento de banco de dados de um órgão no País semelhante a Receita Federal.

Antes de mudar para o Canadá, ela fez uma pesquisa previa e identificou a carência de mão de obra na área de informática em razão de aposentadorias e pela dificuldades para contratação de novos profissionais. “Deixei o Brasil após a conclusão do meu pedido de visto de residente permanente no Canadá. Eu iniciei de fato a minha busca de emprego no momento que eu cheguei no Canadá”, relata.

Karoline conta que a maior motivação para a mudança de País foi a vontade de ter uma melhor qualidade de vida aliado ao desejo de morar no exterior, vivenciando uma nova cultura e uma nova língua. “Quando eu saí do Brasil, eu estava solteira, então sem família e sem filhos, trabalhando em uma área que seria relativamente fácil uma recolocação, então eu pensei, por que não? Se não desse certo, eu arrumaria as minhas malas e voltava para o Brasil, do mesmo jeito que eu arrumei as malas pra vir pra cá, simples assim”, lembra.

Poder de compra

A cearense garante que o fator financeiro não foi decisivo para a mudança, pois não ganha “rios de dinheiro”, mas ressalta possuir um poder de compra maior do que no Brasil. “Claro que não é um País perfeito, muita gente pensa que o Canadá é o céu na terra, chega aqui iludido, mas eu posso dizer pelos meus sete anos vividos aqui que muita coisa funciona”, destaca.

Entre as diferenças profissionais no Brasil e no Canadá, ela cita ter uma carga horária menor desenvolvendo uma jornada de 35 horas semanais, além da flexibilidade de horário para entrar e deixar o trabalho. Karoline relata que outra diferença ocorre nas relações de trabalho, pois no Canadá não é comum se misturar vida profissional e pessoal. Segundo ela, os canadenses não têm amigos no trabalho como normalmente ocorre no Brasil.

“O que eu sinto aqui, pelo menos nas experiências de trabalho que eu tive é que as pessoas não misturam muito amizade de trabalho com a vida pessoal. Colega de trabalho é colega de trabalho, não existe tanta amizade como eu tinha no Brasil. Na época que eu trabalhava no Brasil, eu conhecia a família da maioria das pessoas com quem eu trabalhava”, analisa.

Com família constituída no Canadá, incluindo um bebê de sete meses, a analista de sistema não tem planos de retornar ao Ceará, mas não fecha as portas. “A gente nunca sabe o dia do amanhã, não é?”, finaliza.

Economia estável na Austrália

Willy no Sydney Opera House Foto: Arquivo Pessoal

Formado em contabilidade e atuando na área de gestão financeira em Noosa Heads, na Austrália, o cearense Willy Gondim Lima conta ter escolhido o País ao visar a facilidade de se conseguir um emprego em razão da economia estável e menos afetada pela crise mundial. Willy trabalha há dois anos como gerente financeiro e administrativo de uma empresa de intercâmbio cultural.

Sua ideia inicial ao deixar o Brasil era estudar inglês por quatro meses e gerenciamento de projetos por um ano. No entanto, lá conseguiu uma oportunidade para trabalhar em um escritório de um professor do curso de projetos. “Antes disso, assim como todos os estudantes, me virava com empregos casuais de garçom, atendente, bartender. Uma excelente maneira de melhorar o inglês, fazer contatos e conseguir uma grana extra”, aponta.

A rede social Facebook foi importante na conquista do segundo emprego na Austrália. O contato inicial do contador com a oportunidade de emprego foi feito pela internet e a contratação aconteceu após duas etapas de entrevistas em um mês de espera. “Faço a gestão financeira da empresa com emissão de relatórios que possam dar suporte a tomada de decisão do business. Além de cuidar de parte dos processos administrativos internos como, por exemplo, implementações de políticas de bonificação, incentivo de vendas, benefícios trabalhistas, controle interno e etc”, explica.

Entre as diferenças do mercado de trabalho brasileiro e australiano, ele ressalta a carga horária de 38 horas semanais e um ambiente de trabalho mais descontraído e com uma pressão menor. “Achei que as empresas aqui são mais equipadas com tecnologia de ponta para a execução do trabalho e bem mais preparadas em termos de processos de gestão”, disse.

Apontando o diferenciado padrão de vida na Austrália, ele afirma não observar lá a desigualdade social vivenciada em cada parte do território brasileiro. Segundo ele, a cultura do País pode ser um pouco chocante no começo, mas um bom posicionamento e boas amizades quebram o susto inicial. “Brasileiros que moram aqui costumam dizer que a Austrália é um Brasil que deu certo”, disse.

De acordo com Willy, um inglês intermediário permite de forma mais acessível se conseguir uma ocupação casual no País. Ele ressalta que, apesar de não ser uma missão impossível, é difícil se conquistar um emprego em sua área de atuação, com um bom salário para os padrões da Austrália e a possibilidade conseguir a residência e cidadania.

“Basta você entender mais da cultura do País, como tudo funciona, saber os atalhos para os seus objetivos, ter muita perseverança e foco que tudo acontece no seu tempo”, alega. Segundo Willy, o único motivo que o faria voltar para o Ceará é o afeto por sua família e amigos, já que em termos profissionais o nível salarial e o padrão de vida na Austrália são elevados.

Vida de nômade

O prédio do Capitólio, em Washington, foi um dos lugares que Jivago conheceu trabalhando no exterior Foto: Arquivo Diário do Nordeste

Formado em Ciências da Computação, o cearense Jivago Alves trabalha com o desenvolvimento de softwares pelo mundo a fora. Em seu currículo, o cearense tem uma passagem pelos Estados Unidos e outra em Portugal. Sua primeira experiência no exterior foi como desenvolvedor de software por um ano e meio para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) com sede em Washington, nos Estados Unidos.

Jivago soube da seleção por um amigo e realizou uma entrevista técnica para participar do processo que durou mais de um mês. Ele lembra ter recebido o visto de trabalho e, em seguida, ter firmado contrato com o BID. Após mais de um ano nos EUA, ele retornou ao Ceará por quatro meses, mas não se adaptou a realidade de Fortaleza e decidiu procurar por novas oportunidades em empresas no exterior.

Hoje, o cearense mora em Lisboa, Portugal, trabalhando em uma agência de consultoria com uma das especialidades em desenvolvimento de software para web. Ele atua remotamente para a empresa. “Os motivos da mudança pra Lisboa foram para acompanhar minha esposa durante o mestrado dela e agora doutorado. Como já trabalhava remotamente, a mudança foi natural e não causou tanto impacto para a empresa”, explica.



Destacando que a remuneração não foi um fato decisivo para a mudança, Jivago conta que sua maior expectativa ao deixar o País foi em relação a vivência em uma nova cultura e o aprendizado de um novo idioma. Para ele, o fato permite que se saia da zona de conforto e se aprenda algo novo.

“Eu creio que a experiência em um novo País e uma cultura diferente foi o grande diferencial. Em relação a remuneração, eu não posso afirmar que seria gritante. A oportunidade de morar fora foi para mim um marco na minha vida”, disse. Segundo Alves, o trabalho de forma remota causa uma grande diferença em razão de fatores como a diminuição do estresse causado pelo trânsito ou transporte público.

Em contrapartida ao salário alto fora do País, ele pondera também haver um custo de vida elevado nas grandes cidades seja no exterior ou no Brasil. “Cidades como São Paulo oferecem maior remuneração em relação a Fortaleza, porém o custo de vida é maior”, avalia.

Jivago não descarta a chance de voltar para o Ceará, mas aponta que a ideia é ter novas experiências em locais diferentes. “A família e os amigos estão todos lá. Nós temos um ótimo clima com ‘verão o ano todo’. As pessoas são calorosas e as praias são perfeitas. Porém, a vontade de conhecer e viver em outros países é a nossa principal meta”, destaca.