Diário do Nordeste Plus

Como fazer o seu
dinheiro render mais

Veja dicas que podem salvar o seu orçamento e ainda te proporcionar uma grana extra

Anchieta Dantas Jr.
Especial para o Diário Plus

"Sobra mês no fim do dinheiro". Soa até engraçado, mas a piada (de autor desconhecido) faz sentido para muitos brasileiros que todos os meses vivem a mesma história: recebem o salário e, quando vão ver o saldo, já estão no vermelho. Ainda mais agora, em que a economia brasileira vive momentos de incertezas e de aperto.

De fato, um dos grandes desafios para a maioria das pessoas é fazer com que o seu dinheiro dure mais – ou que pelo menos as dívidas consigam ser pagas. Porém, o que pouca gente imagina é que cada bala, cafezinho ou chocolate comprado no dia a dia faz muita diferença no fim do mês, às vezes até mais do que aquela roupa ou tênis novo.

E não se engane: é sempre muito mais fácil sair dizendo por aí que você ganha pouco, atribuindo, assim, o seu insucesso financeiro ao seu emprego ou ao momento econômico, do que assumir que deve porque quer.

Amanda Marçal diz que muitos acabam usando o cheque especial e isso traz ainda mais juros Foto: Arquivo Pessoal

"A maioria das pessoas não tem noção do seu orçamento mensal, de quanto dispõe de receitas e quanto vão precisar para pagar as suas despesas, e acabam vivendo fora do seu padrão de vida (acima da sua capacidade de pagamento ), realizando gastos desnecessários e, quando recebem o seu salário, não conseguem pagar as suas dívidas e nem fazer reservas", chama a atenção a educadora financeira da metodologia DSOP Amanda Marçal. "Com isso acabam procurando outros meios, como o cheque especial, para ajudar na cobertura do seu orçamento, trazendo mais juros e se tornando uma pessoa endividada", emenda.

Isso ganha força ainda, acrescenta o especialista no mercado de recuperação de crédito e diretor de novos negócios da PH3A, Marcelo Monteiro, porque lá atrás, em algum momento, o indivíduo perdeu o controle, entrando em um ritmo no qual não consegue voltar a ter folga nas finanças, ficando com o orçamento justo e, na grande maioria das vezes, deficitário. "E esse descontrole pode ter sido causado não apenas pelo fato de a pessoa gastar sempre mais e mais, mas porque ela pode ter tido algum imprevisto e, como não tinha dinheiro guardado para socorrê-la naquela hora, passou a ter a renda comprometida", fala.

Vilões do orçamento

Confeiteira tinha como vilã do seu orçamento as compras por impulso Foto: Arquivo Diário

Diante de um quadro como esse, a confeiteira Cris Lopes atribui às compras por impulso e ao uso não planejado do cartão de crédito o papel de grandes vilões para que ela não consiga administrar bem as suas finanças. Resultado? Todos os meses a conta não fecha e o orçamento da família fica no vermelho. "Acho que isso acontece devido àqueles gastos que não estão previstos. A gente sai de casa, vê algo que gosta e acaba comprando. Por mais que calcule e ache que terá condições de pagar, excede o limite", conta.

Conforme disse, o controle orçamentário da família até existe, mas é feito apenas listando os compromissos financeiros que têm mensalmente, embora alguns variem, como as contas de água e de luz. E, na sua avaliação, o fato de ser autônoma e ter uma renda variável também dificulta a organizar as contas. "Minha renda varia muito. Por conta de um mês ser bom, a gente confia que será igual no mês seguinte e nem sempre é assim. Pode ocorrer ainda de estarmos esperando um pagamento e ele não acontecer na data prevista e isso também pesa, provocando apertos", relata.

Além das despesas básicas da casa, Cris destaca como prioridades no orçamento o financiamento de um carro e de uma moto. "Quando não dá para pagar uma coisa ou outra a gente leva em conta primeiro as prestações do carro e da moto, pois se atrasarmos os juros são absurdos", afirma.

Quanto ao uso do cartão de crédito, ela é enfática: "é um veneno! A gente se vê sem dinheiro, apertada financeiramente e acaba comprando no cartão naquele momento. Mas uma hora tem que pagar a conta e quando chega o vencimento da fatura nem sempre é possível", afirma.

E embora o orçamento doméstico conte com a renda do marido, Cris garante que as contas nunca fecham. "Fazer uma poupança, então, é quase impossível. A gente sempre fica no vermelho", lamenta.

Dando a volta por cima

Para Marcelo Monteiro, a pessoa precisa ter muito claro o quanto ganha Foto: Arquivo Pessoal

Mas o que se pode fazer para reverter a situação de Cris e de tantos outros brasileiros? É a pergunta que não quer calar. Para começar a controlar melhor as finanças, os educadores financeiros Amanda Marçal e Marcelo Monteiro são taxativos: é preciso saber para onde o seu dinheiro está indo e porque no fim do mês já está com saldo negativo. Assim, dá para conseguir mudar alguns hábitos, pagar todas as despesas usuais, economizar mais dinheiro e, quem sabe, até investir.

"A pessoa precisa ter muito claro o quanto ganha, quais são seus gastos fixos e variáveis, para saber o que já está comprometido da sua renda, e o que ainda dispõe, se houver, para gastar", orienta Marcelo Monteiro. "A partir daí ela terá a noção exata se precisa cortar despesas, reduzindo assim seu padrão de vida, se for necessário, para ajustar seu o orçamento. Ela aprenderá a ser mais seletiva, a eliminar o desnecessário ou que é supérfluo naquele momento", fala.

Porém, por mais simples que possa parecer, "muitas pessoas tentam e não conseguem", afirma Amanda Marçal. "Por isso, indico ir pelo caminho da educação financeira, que passa por uma mudança de comportamento, atacando direto a causa do problema e não apenas a consequência. Há uma metodologia que funcionou para mim e para milhares de pessoas, que se baseia em quatro passos: diagnosticar, sonhar, orçar e poupar", que se traduz no método DSOP, ensina.

O primeiro, explica a especialista, significa fazer um diagnóstico dos gastos, anotando todas as despesas consumidas, dividindo-as por categoria, durante 30 dias, para quem recebe salário fixo, e por 60 a 90 dias, aqueles que têm uma renda variável. "Após esse período, você irá conhecer o seu 'Eu Financeiro' e descobrirá, de verdade, qual tem sido o seu padrão de vida", explica.

A partir daí, continua a especialista, vem o segundo passo, que trata dos sonhos. "A maioria das pessoas acham que só pode guardar dinheiro quando estiver sobrando na conta, mas, na verdade, os sonhos têm que vir como prioridade, antes das despesas. Mesmo que a situação não esteja favorável, os sonhos precisam ser alimentados, pois são eles que impulsionam as pessoas a fazerem alguma coisa, a querer mudar", destaca.

E o que é preciso para alcançar esses sonhos? É aí que entra o terceiro passo, que diz respeito ao orçamento, o quanto vai custar para realizá-los. "Quando se fala disso, as pessoas pensam logo em registrar o que ganham menos o que gastam, mas o orçamento financeiro deveria ser melhor que isso. O pagamento dos sonhos deve vir antes das despesas. Agindo dessa forma, registrando o que ganha (receitas) e subtraindo os sonhos (de curto, médio e longo prazos), com o saldo que sobrar, paga-se as despesas. Com isso a motivação muda para se adequar o padrão de vida", esclarece.

Já o quarto e último passo, claro, é poupar. "Não se deve confundir poupar com investir. Na realidade, o primeiro é o ato de reter, guardar; já o segundo é direcionar o dinheiro guardado. E isso deve ser feito de acordo com o prazo de cada sonho. Só faz sentido guardar dinheiro se for para realizar sonhos. Caso contrário, na primeira oportunidade a pessoa vai e gasta. Assim, aconselha-se que um dos sonhos de longo prazo seja a independência financeira, no caso a aposentadoria", fala.

Gastar menos do que ganha é o segredo

Hebert quer zerar suas contas e gastar menos do que ganha Foto: Arquivo Pessoal

Embora para a maior parte dos indivíduos pareça difícil, ou até mesmo impossível, manter o controle sobre os gastos, fazendo o dinheiro chegar ao fim do mês com folga e ainda investir, saiba que a história pode ser diferente. Quem aprendeu bem a lição foi publicitário Herbert Costa. "Resumindo, ter um objetivo de consumo, zerar as contas e gastar menos do que ganha é o segredo", revela.

Desde criança ele escutava o pai, então comerciante, dizer que para ter algo é preciso se organizar financeiramente. "Com 12 anos de idade, comecei a juntar dinheiro para comprar um carro quando fizesse 18 anos. E comprei à vista", conta. "Outro exemplo, é que para adquirir um apartamento para casar, em 2010, eu me programei durante quatro anos, a fim de dar como entrada a metade do valor e ficar com uma prestação pequena", emenda.

Mas o que pessoas como Herbert fazem para atingirem seus objetivos de consumo ou investimento? O primeiro passo, explica o publicitário, é analisar os gastos e ver o que pode ser cortado. "O que for supérfluo, desnecessário, deve ser tirado. Com o dinheiro que serviria para pagar essas contas, já dá para começar a formar uma reserva", ensina.

Outra dica, fala, é focar no que almeja. "Nada de compras por impulso. O que compro é por estar, de fato, precisando, ou diante de uma oportunidade que valha a pena. E repito: isso só é possível sem comprometer o orçamento quando se tem uma reserva financeira", afirma. "E se engana quem pensa que eu não me divirto, que vivo controlando os gastos para juntar dinheiro. Na verdade, tenho uma verba para diversão", frisa.

E para que tudo saia como planejado, ele mantém uma planilha em Excel, onde estão previstas todas despesas para o mês, incluindo não só as essenciais, como também o lazer e o que separa para realizar seus sonhos. "Para se ter uma ideia, isso me permite fazer sobrar, em média, todos os meses, 30% do meu salário, o que é logo investido em alguma coisa. Hoje mantenho, poupança, previdência privada, entre outros", conta. "Para quem pensa que é difícil ou impossível, basta começar, dar o primeiro passo. Depois que a gente se educa tudo se torna mais fácil", conclui.

Gastar menos do que ganha é um dos segredos Foto: Arquivo Diário

Montando um orçamento

Veja o passo a passo para ter um controle orçamentário eficiente e eficaz. As orientações são da educadora financeira Amanda Marçal.

  1. Registre todas as receitas (salários, pró-labores, aluguéis etc.) que ocorrem mensalmente, sem esquecer de considerar o valor líquido, que é o que você efetivamente recebe. "Não conte com o valor bruto pois, quando houver as deduções, o orçamento vai sentir o valor menor na conta", justifica;
  2. Logo em seguida, levar em consideração os seus sonhos/objetivos. "Coloque os valores por mês de acordo com o tempo calculado para a realização de cada um deles. Se a família ou pessoa estiver muito endividada, aconselha-se dimensionar a quantia no começo e, depois, realizar os ajustes possíveis", orienta;
  3. Subtraia dos rendimentos os sonhos de curto, médio e longo prazo, encontrando o saldo correspondente ao qual deve ser o seu padrão de vida, ou seja, o que vai ter disponível para pagar as despesas (com residência, pessoal, educação, outros);
  4. Assim, o cálculo do orçamento ideal deve ser: Receitas (-) Sonhos (-) Despesas;
  5. E se depois de pagar os seus sonhos, as suas despesas não couberem no orçamento, chega a hora de você adaptá-las ao mês e negociar. "O que não se deve fazer é deixar os objetivos de lado para continuar com as despesas, pelo contrário, deve-se diminuir os valores dos gastos, para priorizar a realização daquilo que realmente importa", orienta;
  6. No máximo, explica a especialista, pode haver uma redução do que irá poupar para os sonhos,mas nunca parar de guardar dinheiro ou trocar pelas despesas cotidianas. "Isso vai trazer para a sua vida uma nova cultura financeira e vai chegar um ponto em que seu orçamento estará ideal", afirma.

Mas não basta apenas ter um orçamento, lembra a educadora financeira. "É preciso mudar hábitos e criar uma nova cultura. O orçamento é uma forma interessante e importante de verificar os registros de recebimentos e despesas, mas não é a solução dos problemas financeiros", conclui.

O que fazer para não cair em tentação

Cartões ajudam a parcelar, mas podem ser vilões se faltar controle. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Uma vez com um orçamento nas mãos, chega a hora de mantê-lo, por assim dizer, monitorá-lo. E agir por impulso e sem planejamento na hora das compras tem sido a causa de rombos nas finanças de muita gente. A sensação de estar fazendo um bom negócio ao se comprar em promoções, por exemplo, é um dos fatores que potencializam os riscos do que se convencionou chamar de compras por impulso.

Mas como não cair em tentação e pôr a perder o seu controle orçamentário e a consequente missão de fazer o seu dinheiro render mais e, assim, realizar seus sonhos?

"Disciplina. Não tem segredo. O fato é que ela é a grande inimiga da tentação", expõe Marcelo Monteiro, especialista no mercado de recuperação de crédito. "Por isso, a pessoa precisa ficar bem atenta àquela voz interior que diz para não abandonar os seus objetivos. O indivíduo deve ficar muito atento ao que está fazendo para não cair em tentação. Assim, ela deve se questionar da necessidade daquela compra. Lembrar ainda das consequências sobre o seu orçamento e planos ou que poderá precisar do dinheiro para algum imprevisto", destaca.

"Uma dica muito legal que eu costumo dar é lembrar dos sonhos e, assim, parece que a vontade vai embora. Quando estamos focados na realização, as compras vão se tornar desnecessárias, pois podem ser um obstáculo para realizar aquilo que a gente tanto deseja", emenda Amanda Marçal. "E nunca comprar na mesma hora, pois isso faz a pessoa conseguir refletir se deve mesmo realizar o gasto ou não", finaliza.

Para ajudar no controle

Atualmente, existem diversas formas de controlar as finanças e que as pessoas podem fazer sem ter que gastar muito tempo. Nos smartphones mesmos têm aplicativos (apps) como Guia Bolso, Minhas Economias, dentre outros, que, no dia a dia, ajudam nesse controle. Confira uma lista de apps indicados pelos especialistas que podem ajudar nessa tarefa.