Diário do Nordeste Plus

As facetas da
Cidade 2000

Conhecido como polo gastronômico de Fortaleza, devido às praças que oferecem opções de refeições que vão dos pratinhos feitos ao açaí, basta uma volta rápida ao redor do bairro para conhecer moradores apaixonados e histórias inspiradoras que crescem entre as casinhas

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Texto: Jacqueline Nóbrega

Com formato aproximado da taça Jules Rimet, troféu que consagrou o Brasil tricampeão na Copa de 1970, a Cidade 2000 nasceu na mesma década, idealizada pelo urbanista Paulo Barbosa Magalhães, como um conjunto habitacional localizado no Sítio Cocó, distante do Centro da cidade e de regiões urbanizadas de Fortaleza. É o que explica a professora Clélia Lustosa, do departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), autora da dissertação de mestrado “Cidade 2000: Expansão urbana e segregação”.

“O bairro nasceu como solução para resolver o déficit habitacional. Como na época a Cidade 2000 foi construída em um terreno distante, um grande problema surgiu, já que a população não tinha infraestrutura para residir no bairro. Foram os moradores que se organizaram para exigir água, esgoto, energia, sistema de transporte, coleta de lixo, segurança, etc. O Estado, de certa forma, direcionou o crescimento da cidade”, explica ela.

Apesar de ter sido planejado, o bairro vem perdendo essa característica ao longo dos anos. O arquiteto Ricardo Bezerra, no entanto, diz que essa ocorrência é comum. “As pessoas tendem a personalizar suas casas,fazer mudanças. A Cidade 2000, por exemplo, era toda térrea. Com o tempo, houve acréscimos e subdivisões. Os moradores queriam acomodar um parente que se casava, por exemplo, ou a pessoa queria ter uma renda extra e criava no andar de cima um comércio”.

“A Cidade 2000 não tinha tanto controle urbano, então muita gente invadiu as calçadas. Por incrível que pareça, eu sou ‘meio morador’ do bairro e nunca vi ninguém reclamar disso. Tem algumas casas que engolem até o poste. Ele fica embutido dentro da parede. Outro caso pitoresco é o de um morador que colocou uma escada de caracol pegando um pedaço da faixa de rolamento e botou um jarro na frente, para advertir os carros”, complementa, sobre as modificações do bairro.

Próximo da aposentadoria, o arquiteto adquiriu uma residência na Cidade 2000 com o intuito de ter um espaço alternativo para trabalhar. Após passar por uma reforma, o imóvel de dois andares foi transformado no ateliê do artista plástico Wilson Neto, no primeiro andar. O segundo andar ganhou uma laje e é o ambiente onde Ricardo divide com a esposa, Bete Farias, bons momentos. O endereço na Alameda Ana Elisa ganhou até um nome: Casa Gaudincha: uma mistura dos nomes de Gaudi e Garrincha. “É um bairro tão agradável que passamos metade do tempo lá”.

“No dicionário, a primeira acepção da palavra urbano nada tem a ver com cidade e, sim, com cordial, cortês, educado. Essa é a definição da palavra urbano. O que a gente percebe é que a Cidade 2000 é verdadeiramente urbana. Um fato curioso é que as casas do bairro são de fundos correspondentes. Eu convivo com pessoas da quadra 1 e da 3 e moro na 2. A minha vizinhança imediata é maravilhosa. Eu e minha esposa já moramos em vários lugares ao longo da vida e lá é onde a vizinhança é mais urbana. A gente sente muita segurança no bairro, apesar de se associar violência a conjuntos habitacionais. Isso se explica devido à visibilidade da rua. A maioria das casas tem janelas e portas que dão para a rua, que se torna vigiada sempre”, destaca.

Bairro remete ao interior

O jornalista Mike Lucas, de 22 anos, é outro residente apaixonado pelo bairro. Há um ano e meio estabelecido na Cidade 2000, na Alameda das Cecílias, explica que o que lhe chamou atenção, a princípio, foi o fato de o local remeter ao seu interior, Camboas, distrito de Paraipaba, localizado a cerca de 93km de Fortaleza.

Mike Lucas
Mike Lucas mora há um ano e meio na Alameda das Cecílias Foto: Helene Santos

“Outro ponto positivo é a localização. O bairro está quase no coração da cidade. Quando eu ainda estudava na universidade, ficava perto. Como não tenho carro e me locomovo de ônibus, é um privilégio estar próximo do Terminal do Papicu. Além da questão de ser tranquilo, aqui você não ouve relatos de assalto. Gosto muito de andar na rua, realmente não vejo violência”.

Entre os seus planos está o de comprar um imóvel na Cidade 2000. “Por ser bem localizado, é um bairro que se valoriza muito, mas gostaria muito de me fixar por aqui”.

Na famosa praça principal, em frente à delegacia, Mike indica para quem vai pela primeira vez comer o pastel do Robson e da Cleide. “Além dos tradicionais pratinhos”.

“O fato de você sair de casa e dar "bom-dia" para o seu vizinho, conhecer as pessoas pelo nome, saber onde cada um trabalha é tão incomum na cidade grande e normal para nós, da Cidade 2000. Eu, por exemplo, tenho uma relação de confiança com as minhas vizinhas. Quando viajo para o interior, peço para elas cuidarem da minha casa e vice-versa”.

Seu Aldenor Freitas, de 86 anos, é uma das figuras mais conhecidas da Cidade 2000. Todos os dias, ele acorda e vai trabalhar na sua banca, que fica ao lado de um supermercado conhecido do bairro. Assim como Mike, apesar da diferença de idade, ele também elege a Cidade 2000 como o melhor bairro para se morar em Fortaleza.

Aldenor Freitas
Aldenor Freitas tem a banca da 2000 há 38 anos Foto: Helene Santos

“Vivo aqui com a minha família, minha esposa e filhas há 38 anos. Assim que cheguei, montei a banca. É um bairro tranquilo de se morar. Eu sou uma pessoa muito reservada, até esqueço o nome das pessoas, mas conheço as feições de todo mundo que vive por aqui”, disse ele, em um bate-papo rápido em seu ambiente de trabalho.

“De noite, a praça fica cheia. Vem gente até de fora, de outros bairros. É muito bem frequentado. Eu moro bem pertinho, passo todos os dias lá. Não pretendo me mudar daqui”, completou.

Espaço gastronômico

Tânia Lins é funcionária da Barraca da Maria
Tânia Lins é funcionária da Barraca da Maria, que comercializa pratinhos com comidas típicas Foto: Kleber A. Gonçalves

A famosa praça em frente à delegacia funciona todos os dias e, a partir das 18h, já se vê movimento no espaço e no entorno, lotado de restaurantes. Os frequentadores são moradores e pessoas que se deslocam de outros bairros de Fortaleza para comer refeições, que vão desde os famosos pratinhos feitos ao açaí, passando pelo acarajé.

Funcionária da Barraca da Maria, que comercializa pratinhos com comidas típicas, Tânia Vieira mora na Cidade 2000 há 43 anos e atende quem está à procura de comidinhas deliciosas com a maior simpatia. Dona Maria Ester, responsável pelo quiosque, foi pioneira no negócio no espaço. “Aqui é maravilhoso para morar, além de ser muito tranquilo. A gente sai da praça por volta de meia-noite e não tem perigo. Todo mundo se conhece, conversa um com o outro”, frisa Tânia.

Ela ainda destaca que o polo gastronômico ganhou força ao redor da cidade. “Funcionamos todos os dias, mas vem muita gente de fora. Temos clientes da Parquelândia, Aldeota e Papicu. As pessoas gostam muito de acarajé e das comidas típicas, como é o nosso”, explicou a ajudante, enquanto preparava um pratinho para uma cliente.

Mas não é só de comida que vive a pracinha. Um pouco mais à frente, mas ainda no mesmo espaço público, Gorete Feitosa reúne roupas seminovas e atrai os olhares dos mais curiosos. Ela contou que começou a vender as peças para ajudar o filho único, que sofre de um problema renal e necessita de um tratamento especial que vem dos Estados Unidos.

“Sou mãe de um filho único, formado em uma das melhores universidades da cidade. Quando iniciou o primeiro emprego, no entanto, sofreu um problema renal. Ele foi desenganado em Fortaleza, mas tem um tratamento que vem dos Estados Unidos que pode ajudá-lo. Enquanto eu respirar, vou trabalhar para pagar o tratamento do meu filho”.

Gorete Feitosa vende roupas na Cidade 2000
Gorete Feitosa vende roupas na Cidade 2000 para ajudar o filho Foto: Kleber A. Gonçalves

Nascida no município de Tauá, interior do Ceará, apesar das dificuldades que enfrenta na vida, Gorete se preocupa em oferecer um mix de produtos de qualidade para os clientes. “A gente vende um pouco de tudo. Tem roupa para homem, mulher, acessórios, sapatos. Tudo seminovo e de marca”. Os produtos da cearense também podem ser vistos no site www.topbazar.net

No entorno da praça, um dos restaurantes que se destacam é o Açaí do Assis. O dono, que empresta o nome ao empreendimento, veio da Bahia fixar endereço no Ceará. Primeiro abriu o Acarajé do Assis, que já faz sucesso há 10 anos entre os moradores do bairro e quem visita a Cidade 2000. “O Acarajé funcionava antes só na Praça Leonan Onofre e abrimos em julho na pracinha da delegacia (o acarajé também funciona no entorno do espaço público). Já sou proprietário do açaí há quatro anos e tenho quatro pontos, no total, inclusive em outros bairros de Fortaleza. Nosso diferencial é trabalhar com um produto de qualidade. Em qualquer esquina você encontra um açaí, mas nem todos são bons e cremosos”, comenta o proprietário do empreendimento.

“Inclusive, fui o criador do self-service de açaí em Fortaleza. Depois outras pessoas viram que deu certo, é claro, e também aderiram. Percebi que era uma necessidade do consumidor colocar a quantidade de açaí que queria, com os ingredientes de sua preferência”, completa Assis, que é um grande admirador da Cidade 2000.

Assis proprietário do Acarajé do Assis e do Acaí do Assis
Assis veio morar no Ceará para investir na comida baiana. Hoje é proprietário do Acarajé do Assis e do Acaí do Assis, ambos com pontos na Cidade 2000 Foto: Kleber A. Gonçalves

“Aqui você pode vir com sua família para qualquer lugar da praça e usufruir do espaço público sem se preocupar com a onda de assaltos, por exemplo. Somos privilegiados por viver nessa comunidade. Nós, moradores, podemos amanhecer o dia na praça que não tem problema. Sem falar da culinária do bairro, que é famoso por ter várias delícias. É um bairro que mais parece uma cidade do interior”.

Alternativa lúdica

Morador da Cidade 2000 há 27 anos, Alex Ferreira encontrou no hobby de confeccionar fantoches, bonecos de biscuit, fantasias e maquetes, uma forma de se comunicar com o filho, Gabriel, de 16 anos. O jovem, que tem autismo, é a estrela de filmes gravados e editados pelo pai.

“O Gabriel não gosta de brincar. Ele não mexe em nenhum dos brinquedos espalhados pela casa. Um dia, há dois anos, minha esposa filmou despretensiosamente uma peça que fiz para o meu filho e percebi que ele acompanhava tudo que eu fazia. O Gabriel entrou na brincadeira junto comigo, interagiu e eu achei isso muito interessante”.

Alex e Gabriel

Inspirado na nova forma de comunicação com o garoto, Alex começou a transformar as sugestões do filho em aventuras que fazem sucesso nas redes sociais e no YouTube “Eu sempre filmei as histórias por causa do Gabriel, porque ele pede para depois assistir. Quando vê tudo finalizado, com as cenas do filme original, como é o caso do vídeo ‘Gabriel e a fera’, ele acha que tá dentro da produção, fica louco”.

“Colocar no YouTube os vídeos foi uma forma de guardar nossos projetos. Algumas pessoas começaram a ver, principalmente no Facebook, e tomou grandes proporções. Já participei de alguns eventos de autismo para falar sobre o assunto, já que descobri uma forma de interagir com ele. Se eu for filmar o Gabriel, ele pinta, desenha, cola, faz tudo. Os vídeos dele são de todo tipo, cozinhando, atuando, confeccionado brinquedos. Com isso eu vi que muita gente passou publicar vídeos nas redes sociais de filmes que fez com seus filhos especiais”.

A repercussão dos vídeos fez Alex receber um convite da Dove para participar de uma campanha digital da marca. “Eles entraram em contato comigo e eu vou entrar nessa propaganda com outros homens reais. Eles vão pegar essas pessoas e transformar em super-heróis. Não sei muitos detalhes, mas como a história do Gabriel é muito legal, eles disseram que também vão inclui-lo”.

Alex e Gabriel Ferreira
Basta conhecer Alex e Gabriel Ferreira para ver a cumplicidade da dupla Foto: Kleber A. Gonçalves

O artista plástico ainda conta sua vontade de reunir os moradores da Cidade 2000 para fazer uma apresentação de teatro no quintal de casa. “Pensei em contar um palco de madeira onde eu pudesse fazer um teatrinho aqui e convidar quem quiser. Eu ainda não fiz isso porque eu não sei como o Gabriel lidaria”.

Ele ainda faz questão de frisar o fato de o bairro ter moradores que se preocupam uns com os outros. “Aconteceu com a gente mesmo. Uma noite estávamos dormindo e umas 2 horas da manhã a vizinha ficou nos chamando para avisar que o portão estava aberto. A vida aqui é muito boa. Vi o bairro crescendo ao longo dos anos e não tenho vontade de me mudar. Temos dois shoppings próximos, hospitais, praia. A gente até brinca que o pessoal que mora na 2000 não precisa sair do bairro para nada”.

Reutilizando o vidro

André Romcy, de 38 anos, é artista plástico e morador da Cidade 2000. Na casa que divide com a esposa no bairro, também funciona o ateliê de sua empresa, Cacos de Vidro. Terceira geração da família de vidraceiro, ele começou no trabalho aos seis anos ajudando o progenitor. “Meu pai tinha uma vidraçaria e todo mundo da minha família é do mercado. Sempre trabalhei com ele e fui aprimorando minha técnica ao longo do tempo. Eu faço, por exemplo, montagem especial de prédio, cúpula de shopping etc. Como hobby, tinha a arte em vidro. Um tempo atrás, decidi que não queria mais trabalhar com medição e construção civil”.

André Romcy
André Romcy começou no ramo da vidraçaria por influência da família Foto: Helene Santos

Há mais de seis anos a arte em vidro virou sua única fonte de renda. André vende os objetos criados por ele, como penduradores de chave e imãs, na Avenida Beira Mar e em lojas da cidade escolhidas a dedo. “Eu compro vidro, mas também aproveito garrafas que geralmente vão pro lixo, como a long neck de cerveja. Já usei 3 mil peças de vidros em objetos grandes. Agora estou com um projeto chamado Brilha Fortaleza. Meu intuito é fazer Fortaleza brilhar. No viaduto da Santos Dumont com Engenheiro Santana Jr, na coluna em frente ao Mucuripe Music, tem uma mandala de espelhos que eu fiz e coloquei lá. Agora eu quero fazer várias mandalas para espalhar pela cidade. Estou fazendo uma de 3 metros de circunferência que vai para a rua também”.

Alzira, esposa de André, ainda destacou o ecoponto que a Cidade 2000 recebeu em junho, que oferece à população o benefício do programa Recicla Fortaleza, outro ponto positivo para os moradores. “Com o ecoponto a gente consegue dar o destino correto ao material que não usamos, como, por exemplo, no nosso caso, a boca e o fundo da garrafa, ou um pedaço de madeira que não aproveitamos tudo. Isso é muito importante.

O artista plástico completa: “A 2000 tem tudo de positivo, como a área gourmet. Aqui nós estamos cercados de restaurantes para todos os públicos. Temos farmácias, padarias, supermercado, tudo você encontra pertinho de casa”.

André Romcy'