Diário do Nordeste Plus

Cemitério: para além da morte

Palco de passagem de uma vida para a outra, guarda elementos simbólicos e culturais de uma sociedade

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Texto: Bruna Salmito

A morte é uma pauta cotidiana. Pode ser considerada como passagem de uma vida para a outra. O cemitério, palco dessa passagem, tem o poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, e não é apenas abrigo para a morte. Apesar de certa estranheza, o lugar permite o entendimento de uma determinada cultura. A arquitetura, as artes, as esculturas e os elementos simbólicos inseridos no ambiente permitem compreender a sociedade na qual estão inseridos.

Michel Vovelle, historiador modernista francês, explicou, em 1993, que os cemitérios ganharam importância para os arquitetos, a partir do século XIX. E é justamente nesse período que surgem os projetos de cemitérios urbanos como são conhecidos hoje. A exemplo estão os de Viena, Père Lachaise, na França, o cemitério de Estocolmo e, no nosso caso, o Cemitério São João Batista. Fundado em 1862, é considerado o mais antigo de Fortaleza. Foi inaugurado oficialmente em 1886, quatro anos depois da sua fundação, em substituição ao Cemitério de São Casemiro.

Antes da existência de espaços destinados ao sepultamento dos mortos na Capital, até 1828, os ricos que morriam eram colocados nas paredes das igrejas. O restante da população era sepultada nos arredores. O método era condenado pelos médicos, uma vez que a decomposição desses corpos poluía o ar.

O Cemitério São João Batista nos remete ao saudosismo e à imponência. A igreja, localizada à frente, logo na entrada, aguarda os visitantes, que chegam chorosos e esperançosos por uma vida eterna. Os jazigos posicionados próximos ao corredor de entrada refletem o poderio que tradicionais famílias cearenses faziam questão de transparecer. São anjos, colunas, retratos, flores e crucifixos construídos em forma de mausoléus e capelas, em mármore e granito. Os tamanhos também impressionam. São dois, três, quatro metros de altura.

A assinatura de Virgílio Távora sobre o granito deixa claro que ali está enterrado um dos principais políticos do Ceará e do Brasil. O Cristo e as pilastras que preenchem o espaço deixam explícitas o compromisso com a religiosidade. Ao seu lado, outro jazigo também impressiona. Material nobre, símbolos bem definidos e cruzes revelam um pouco do modo de vida desse vizinho. A pequena foto indica que ele é um conhecido dos fortalezenses: General Sampaio, herói de guerra que ilustra uma das mais importantes ruas do Centro da cidade. Um pouco mais à frente estão os túmulos do arquiteto Adolfo Herbster, do médico e historiador Barão de Studart e de outras personalidades.



Caminhando entre as ruas, percebemos, além da saudade ali impregnada, as memórias de pais, mães, filhos, filhas, tios, avôs e avós de gerações que fizeram parte da história da Capital. O coletivo também se faz presente. “Aqui foi um acidente com um avião. Vários que trabalhavam na mesma empresa morreram”, responde um coveiro sentado perto do local.

“Observando esses espaços é possível entender um pouco da nossa sociedade”, destaca Paulo Lima de Brito, membro da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais. De acordo com o pesquisador, espaços como os cemitérios podem ser vistos como uma projeção da cidade, em uma releitura da sociedade. “O comportamento social em relação à morte vai estar relacionado com a própria configuração da sociedade. A gente pode imaginar o São João Batista como se fosse um microcosmo da própria estratificação de Fortaleza. Nós temos as ruas como uma avenida. Os túmulos estão voltados para o caminho principal, como se fosse uma Santos Dumont. Os detalhes refletem o comportamento de uma época. E essa simbologia hierárquica e social está fortemente identificada aqui, mas está conjugada com a parte religiosa, de ter a sua memória estabelecida”, destaca Paulo.


“Os primeiros planos são os que têm menos tipos de gavetas(...) No primeiro plano você tem mais altura, mais imponência. A medida que as classes sociais vão sendo distribuídas no cemitério, os planos vão ficando mais baixos”
Paulo Lima de Brito, membro da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais

De acordo com o historiador francês Michel Ragon são nos cemitérios que se repetem os elementos arquitetônicos e paisagísticos apresentados nas cidades e onde se reproduz, de fato ou de forma idealizada, a ordem socioeconômica dos vivos. Ao entrarmos no Cemitério São João Batista, nos deparamos com três planos, primeiro, segundo e terceiro, distribuídos em 92 mil m². Ao todo, são 25 mil túmulos. No primeiro, vemos a imponência dos grandes túmulos, construídos entre os anos de 1866 e 1916. São jazigos de famílias tradicionais e, muitas vezes, personalidades da nossa história: são escritores, políticos, poetas, heróis de guerra, médicos, militares e advogados.

No segundo, percebemos uma mistura do suntuoso com o mais simples. O mármore divide espaço com o azulejo. Os mausoléus são trocados por construções mais simples, porém também carregadas de sentimento. No terceiro plano, vemos a presença assídua de túmulos mais simples, intercalados com alguns poucos mais caprichados. É quase como aquelas casas mais trabalhadas que se misturam em ruas mais simples. E aqui o coletivo se faz novamente presente: há túmulos que gavetas são colocadas uma em cima da outra, quase como um prédio e seus apartamentos, bem diferente dos grandiosos localizados no início do cemitério.

De acordo com o historiador Pedro Holanda Filho, essas diferenças podem ser entendidas como diferenças socioculturais. “Claramente são diferenças sociais. As construções tumulares revelam diferenças socioculturais. Ao observarmos esse conjunto arquitetônico, somado aos epitáfios e seu teor discursivo, pode-se perceber os diferentes sentidos dados à morte”, diz.

Túmulo do Virgílio Távora
Capela
Corredor
Túmulos coletivos
Túmulos Judaicos
Gavetas
Vista geral

Movimento semelhante

As diferenças não se limitam ao mais antigo cemitério de Fortaleza. Outras necrópoles também evidenciam, de maneira bem mais discreta, diferenças socioculturais. Apesar de ser um cemitério jardim, o Parque da Paz possui diferentes categorias de localização de jazigo. Além da posição geológica, o preço de aquisição varia de acordo com a proximidade à capela. De acordo com a administração, há locais em que o espaço custa 25 mil reais.

Em outros, o preço do túmulo é R$ 20 mil. Atualmente, só há jazigos nos setores que custam R$ 15 mil. “É como se fosse uma situação imobiliária. Então você tem um plano mais caro, mais próximo da frente, para nascente, direto para a Igreja”, destaca o historiador Paulo Lima de Brito. Atualmente não há vagas no Cemitério São João Batista. A única forma de adquirir é comprando de famílias que já detêm espaços no cemitério.

Segundo Pedro Holanda, esse movimento pode ser explicado pelas diferentes concepções de morte e pelos distintos comportamentos em relação ao universo post-mortem . “Esse movimento é explicado pelas concepções de morte, pelo perfil socioeconômico daqueles que são sepultados. No São João Batista, que pelo menos durante um século, desde a sua fundação, foi o principal cemitério da cidade, os primeiros túmulos são de personalidades fortalezenses, que tinham o desejo de demostrar a sua importância, seu poder; além de se criar a imagem do herói, a exemplo do túmulo do Caio Prado (1889), presidente da Província do Ceará, à direita, logo na entrada do cemitério”, detalha.


As diferenças podem ser explicadas pelas concepções de morte, pelo perfil socioeconômico daqueles que são sepultados. No São João Batista os primeiros túmulos são de personalidades fortalezenses, que tinham o desejo de demostrar a sua importância, seu poder

Fotografia TumularÍndice do Falecido
FloresSimbolizam saudade e são a expressão deste sentimento na forma de um signo visual
Tocha Ícone como metáfora da vida eterna. No cristianismo representa o fervor religioso
Epitáfio O signo linguístico se destaca no epitáfio, texto em homenagem ao falecido
Cruz Símbolo do cristianismo e da fé
Cristograma Símbolo do cristianismo e da fé. Combinação das duas primeiras letras gregas do nome de Cristo ("X" e "P" superpostos)
Alfa (Α) e Ômega (Ω) Símbolo do cristianismo e da fé. Expressa a eternidade. O princípio e fim da vida.


A partir do século XX, as construções tumulares vão ficando mais simples, embora ainda carregadas de religiosidade e como um reduto de perpetuação, de memória. Ocorrem também modificações na forma de sepultamento em relação ao século XIX. Os cortejos ficam cada vez menores e mais rápidos, evitando a circulação do cadáver, para que não cause constrangimento na sociedade ativa. A vestimenta começa a ganhar cor (antes se usava apenas preto) com o avançar do século XX. As cerimônias são cada vez mais íntimas. A própria concepção do corpo morto é modificada, passando a ser visto cada vez mais como causador de doenças.

Turismo

A mudança no perfil dos rituais fúnebres mudou o modo como os cemitérios são encarados. Em várias partes do mundo, esses locais são espaços turísticos, seja para conhecer túmulos de personalidades, apreciar as obras de arte ou simplesmente desfrutar dos jardins desses locais.

Na rota turística estão os cemitérios europeus, começando pelos franceses. Père Lachaise, de Montparnasse e Montmartre são mundialmente conhecidos pela arquitetura e pelos jardins arborizados. Os cemitérios ingleses Highgate e Golders Green Crematorium, localizados em Londres, também são alvos de contemplação. Na América do Sul, a Argentina é destaque com o Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, parada quase que obrigatória para os turistas que visitam a região. No Brasil, esse movimento é visto nas grandes capitais, como Rio de Janeiro e São Paulo. “Hoje é possível inclusive conhecer cemitérios em São Paulo e Rio de Janeiro através do Google Street View. Nessas cidades também há o serviços de visitação guiada, o exemplo mais famoso é o Cemitério da Consolação, em São Paulo. No Nordeste, não tenho conhecimento desse movimento, a não ser de algumas visitas ocasionais ao Cemitério São João Batista por grupos interessados pelo tema”, destaca o historiador Pedro Holanda.