Diário do Nordeste Plus

Ceará na rota das joias

Estado tem representantes que apostam em joias sofisticadas e artesanais produzidas em solo cearense e com requinte

No segmento das joias há 14 anos, Sandra Pinheiro se tornou referência no assunto. Arquiteta de formação, ela iniciou sua carreira com uma loja de objetos para decoração. No espaço, com o tempo, surgiu a primeira vontade de desenhar acessórios para comercializar. O sucesso foi absoluto e, desde então, ela se dedica à joalheria e é a responsável pela loja que leva seu nome. “Sou inquieta e sempre tive vontade de explorar minha criatividade latente. Busquei transmitir para as criações as minhas paixões, como arquitetura, história da arte, viagens e moda”.

Sandra Pinheiro é arquiteta de formação, mas trabalha no segmento de joias há 14 anos

Como designer de joias, atualmente com uma equipe de 10 pessoas, a cearense participa de todo o processo de produção das peças, desde a concepção até o produto final. Uma de suas principais inspirações são suas viagens, já que ela gosta de conhecer novas culturas e descobrir destinos ainda desconhecidos pelos turistas. "Amo descobrir novos lugares e o que mais me fascina é o poder de transformar minhas inspirações em algo belo e único. Como designer, tento ser uma multiplicadora da capacidade industrial e incentivadora do talento com ênfase nas características do produto”.

As joias criadas por Sandra já marcaram presença nas passarelas dos estilistas Walter Rodrigues e Mark Greiner e na dramaturgia brasileira, sendo usadas por atrizes como Marília Pêra, Vera Fischer e Marília Gabriela. A influenciadora digital Nicole Pinheiro, filha da cearense, também é vista constantemente com as joias criadas pela designer, que trabalha com materiais como ouro amarelo, branco e rosa 18k, prata 980, pérolas, madrepérolas, madeira, diamantes e cristais.

“Nosso diferencial é que também usamos pedras brasileiras para criar um mix de pedras multicoloridas com grande diversidade de tons e formatos”, destaca a empreendedora. Um bracelete feito a partir do material, aliás, é uma das peças que ela destaca como especial na sua carreira.

Bracelete criado pela designer com pedras brasileiras Foto: Divulgação

A coleção mais recente da marca Sandra Pinheiro, intitulada “Cores do Brasil”, trouxe o tropicalismo do País como principal referência. “Este ano, por conta das Olimpíadas que aconteceram no Rio, o Brasil vai estar no centro das atenções não só nos esportes, mas também em outras áreas, como o design, música e a nossa cultura em geral. A proposta da coleção é combinar o que é genuinamente brasileiro com um toque internacional e compor um mix de joias que simboliza nosso País com um ar divertido e original”.

Com uma loja física localizada no bairro Aldeota, Sandra se moderniza com o tempo e ressalta que o canal mais utilizado para a venda de suas peças é o Instagram. “Hoje vendemos para todo o Brasil. Vi um sonho se tornar realidade e só tenho que celebrar nossos 14 anos de sucesso. Tive que ser forte, determinada e guerreira. Acho que consegui. Fui precursora da joalheria autoral no Ceará e apostei em uma das características mais surpreendentes e inspiradoras do País: nossa diversidade de cores, tons e nuances. Meu foco é a mulher brasileira, guerreira, feminina e cheia de atitude”.

A cearense também aposta em joias para o público masculino que, segundo ela, está se rendendo à vaidade. “O homem moderno descobriu que não faz mal preocupar-se com a própria imagem e incluiu as joias na sua rotina como elemento importante. De olho nas tendências e no mercado internacional, busco inovar a cada dia com novos materiais e estilos variados, e tento desenvolver joias exclusivas e atuais para agradar do homem clássico ao contemporâneo”.

Atenta ao que acontece no mercado gringo e nacional, uma marca, em especial, faz o coração de Sandra bater mais forte. “Acompanho ativamente as tendências do mercado e o desenvolvimento das novas tecnologias. Minha principal referência é a Bulgari, que respeito e adoro”.

Parceria que deu certo

A LaVie Joias nasceu há seis anos, quando Tayra Romcy, que já trabalhava em um ateliê com uma prima, resolveu criar a própria marca, em parceria com o marido, Leonardo Aguiar. A empresa começou pequena, com os dois atendendo os clientes. Assim que abriram a loja, resolveram montar uma oficina para o desenvolvimento das peças criadas pela cearense, que é designer. Hoje contam com três ourives e profissionais terceirizados para darem conta da demanda.

“Eu e meu esposo dividimos as responsabilidades administrativas, comerciais e financeiras. Lançamos coleções quatro vezes ao ano, mas hoje em dia a moda está muito dinâmica, fazendo com que toda semana chegue lançamento nas lojas”, conta Tayra.

Com o intuito de unir diferentes estilos em um só endereço, a LaVie também aposta em parcerias com designers cearenses, como Rossana Romcy, Diana Barreira e Marcia Hissa. “Além das peças desenvolvidas por nós, no nosso ateliê, também trabalhamos com joias de empresas de fora”.

Outro destaque da LaVie é a linha de noivas. Mês passado, por exemplo, Tayra confeccionou a coroa usada por Thyane Dantas no casamento com Wesley Safadão. O acessório foi feito em 21 dias e Ysis, filha do casal, ganhou uma miniatura da joia. “Devido à pressa e o tempo curto para a realização do casamento, a coroa foi idealizada e desenvolvida baseada no desejo da Thyane, seguindo a mesma linha de inspiração que compunha o vestido”.

A linha, aliás, surgiu de uma necessidade que a designer viu no mercado cearense. Há três anos, na época de seu casamento, como não achou acessórios que “casassem” com o vestido escolhido por ela, decidiu criar suas próprias joias.

“Após a minha festa, várias noivinhas me procuraram para saber onde tinha comprado os brincos e minha tiara. Foi aí que vi a oportunidade em agregar a sessão noivas em nossa loja, lançando essa tendência que hoje já é vista em algumas lojas no Brasil”.

Tayra Romcy criou a coroa usada por Thyane Dantas no casamento com Wesley Safadão Foto: Instagram/Reprodução

Como trabalha com metais como prata e ouro, o preço das peças da LaVie variam, mas a marca tem joias com valor a partir de R$ 70. Tayra, aliás, faz questão de frisar que o mercado cresceu muito nos últimos anos. Com o dinamismo das redes sociais, além do site e das duas lojas físicas, ela conta que recebe muitas encomendas via WhatsApp, inclusive do exterior. “Embora vários pedidos de franquia terem sido solicitados, não pretendemos expandir a marca este ano”, declara.

Outro destaque do empreendimento é a linha infantil. Mãe há pouco mais de quatro meses, o projeto nasceu antes do primeiro filho, Álvaro, chegar ao mundo, mas é um dos xodós de Tayra atualmente. A peça mais especial de sua carreira também tem ligação com o pequeno. “Perpetuei os primeiros batimentos cardíacos do meu filho em uma placa de ouro e presentei meu esposo com essa joia que ele carregará para sempre junto dele”.

A LaVie Joias tem oficina própria e conta com três ourives, além de uma equipe terceirizada Foto: JL Rosa

Feito à mão

Com apenas 23 anos, Bruna Bortolotti descobriu na família a ouvesaria (quem trabalha com metais preciosos). O avô, Seu Bomfim, de 80 anos, trabalhou como vendedor de joias e avaliador de penhor, quando aprendeu ainda mais sobre os metais preciosos. Foi ele a principal referência da jovem, que decidiu se aventurar pela profissão de ourives e assina a marca Bortolotti. “Ele começou vendendo relógios no Centro e, logo em seguida, joias, mas não eram peças autorais. Naquela época não se valorizava o design e sim o metal em si. Minha família sempre teve as joias que ele fazia e cresci ouvindo essas histórias”.

Anel criado pela ourives de prata Foto: Arquivo pessoal

Quando entrou no curso de Arquitetura, na universidade, criou o hábito de desenhar constantemente. “Só que no curso a gente não tem a oportunidade de construir um projeto até o final, vê-lo se concretizar. Eu vi na ouvesaria a oportunidade de participar de todas as etapas da construção de uma peça. Meu processo criativo é livre, até hoje é assim. Sempre estou com o caderno, nas aulas, em qualquer lugar. Eu não sou de jeito nenhum metódica”.

Com as criações no papel, a cearense vai até o ateliê que divide com o avô, um inventor nato. No espaço, é possível encontrar máquinas adaptadas pelo senhor para a ouvesaria e que facilitam o trabalho da dupla. “Muita coisa eu vou descobrindo e modificando à medida que executo. Muitas vezes faço somente um esboço, nada detalhado. Se eu desse pra outra pessoa, ela provavelmente não conseguiria executar”.

Antes de começar a criar sua próprias peças, ela viajou para São Paulo para fazer um curso, onde aprendeu o básico. “Quando eu voltei pra casa, contei pro meu avô e a gente arrumou o espaço para eu trabalhar com ele, que vai me ensinando no dia a dia o que eu preciso”.

Bruna divide o ateliê com o avô Foto: Thiago Gadelha

A principal vitrine da marca é o Instagram, já que o processo de venda acontece na rede social. Foi através do perfil, aliás, que ela recebeu o convite de Iury Costa para assinar as joias da coleção do estilista desfilada no Dragão Fashion Brasil deste ano. Bruna, por enquanto, não consegue lançar coleções em intervalos de tempo certos, devido à rotina atarefada.

Bruna Bortolotti assinou as joias da coleção de Iury Costa este ano no Dragão Fashion Brasil Foto: Roberta Braga/Silvia Boriello/Ricardo K.

O material mais utilizado pela ourives é a prata, pela facilidade de comprar e devido ao preço acessível. “Eu faço peças de ouro sob encomenda, porque tem um retorno maior. Também trabalho com cerâmica. É uma grande vantagem eu trabalhar com o meu avô, porque eu não dependo da oficina de ninguém. O que eu pensar em fazer, ou dou um jeito ou ele me ajuda na ideia. Ele inventa uma solda ou um maçarico para aquilo. É uma profissão que vem da família. Meu avô fez isso a vida toda e agora eu achei uma forma de dá continuidade ao trabalho dele. O processo é todo artesanal, inclusive porque as máquinas foram feitas por ele”.

As peças da Bortolotti Art variam entre R$ 100 e R$ 200. “Tem algumas peças que eu faço e nem coloco para vender. Essas são as mais especiais e as primeiras que eu fiz também. Quero continuar tendo, no futuro, uma tiragem pequena, pois a ideia é me concentrar em produzir peças com qualidade e não com a quantidade”.

Preço acessível

Na contramão da joalheria tradicional, a cearense Rachel Gomes resolveu investir na fashion jewelry ou, em uma adaptação para o português, bijuterias de luxo. É dessa forma que ela consegue aliar design e informação de moda em peças com preços mais acessíveis que joias e com mais qualidade do que as bijuterias. Com formação em Arquitetura e Urbanismo, ela se apaixonou pela ourivesaria quando fez um curso, em São Paulo, em 2011.

“Tenho necessidade de criar, alma de artista, e na joalheria encontrei uma forma de mostrar o meu mundo. Eu tive um ateliê por dois anos, mas queria difundir mais minhas criações e poder vendê-las para mais pessoas, fazer acessórios mais democráticos que pudessem levar meu design a um público ainda maior”. Foi assim que, há cerca de um ano, a designer abriu a marca de fashion jewelry que leva seu nome.

Rachel Gomes aposta na fashion jewelry: bijuterias com mais informação de moda e preço acessível. Foto: Thiago Gadelha

Se antes ela trabalhava com materiais como ouro e prata, nessa nova fase Rachel atua com peças feitas a partir de latão com banho de ouro e que custam, em média, de R$ 40 a R$ 90. Ela é a responsável por todo o projeto técnico dos acessórios. Como abriu mão de sua oficina, a produção acontece em São Paulo. “Mas acompanho tudo. Sou eu que tomo as decisões e faço as mudanças necessárias”.

Apesar dessa mudança, a empreendedora garante que a produção segue sendo manual. A grande vantagem é que terceirizando, ela tem mais pessoas trabalhando para sua marca. “O primeiro anel que eu fiz na bancada foi muito especial, ele não tinha nada demais, mas tem o lance da memória afetiva. Todas as peças são como filhos, pois fazem parte de um momento”.

No quesito inspiração, Rachel pontua que qualquer momento do seu dia a dia pode inspirá-la nos desenhos das joias. “É importante destacar que sempre faço testes de usabilidade. É um trabalho que nunca dá férias, mas eu amo, já faz parte de mim”.

Neste ano, a designer já lançou três coleções, sendo a mais recente intitulada “Art Nouveau”. “Tenho paixão por esse momento da história da arte. São linhas simples e fluídas que têm muito a ver com o estilo da marca”. Para 2017, já faz planos: quer lançar quatro coleções e aumentar o alcance nacional do empreendimento. Além das vendas através do perfil no Instagram e do endereço virtual, que facilita a comercialização para outros estados, Rachel também fez parcerias com marcas locais.

“O mercado cearense vem crescendo no segmento da joalheria. Um fator que acredito ter influenciado foi a crise. Muitas pessoas começaram a se interessar por marcas locais e a investir em produtos novos devido aos preços mais acessíveis e à qualidade das peças, que às vezes são melhores que marcas nacionais e até mesmo estrangeiras”.

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Sandra Pinheiro: @sandrapinheirojoias
LaVie Joias: @laviejoias
Bortolotti Art: @bortolotti.art
Rachel Gomes: @rachelgomes