Diário do Nordeste Plus

Canais educacionais são sucesso no YouTube

Brasileiros encontraram na internet ferramenta que funciona como vitrine para seus trabalhos paralelos, além de fórmula para conquistar alunos de forma criativa

Que o YouTube se transformou em negócio para pessoas ao redor do planeta, todo mundo já sabe, já que são mais de 1 bilhão de usuários do recurso. Na plataforma, existem pessoas que abordam temas que vão desde beleza a tutoriais de faça você mesmo e fazem sucesso com milhares de visualizações. Conteúdos educacionais também se destacam no site e YouTubers brasileiros são a prova disso.

Rafael Procópio é a mente criativa por trás do canal “Matemática Rio”, o maior quando o assunto é, como o nome propõe, matemática. São mais de 1.900 vídeos publicados e 385 mil inscritos, além de milhões de visualizações diárias. O carioca, como ele mesmo conta, tem alunos, em sua maioria, brasileiros, mas também recebe feedback positivo de pessoas que residem em Portugal e na África.

A única fonte de renda de Rafael Procópio é o canal Matemática Rio e o site de mesmo nome, que oferece diversos planos para os alunos Foto: Divulgação

O projeto, que junto com o matematicario.com.br, site que oferece plano de estudos, simulados, monitoria, lista de exercícios e aulões ao vivo preparatórios para o Enem, é sua única fonte de renda e começou de forma despretensiosa. Formado em 2006 em matemática, ele, que sempre gostou de gravar vídeos, uniu seus dois maiores prazeres em um só. “No começo, não sabia produzir nada. Comecei a fazer da maneira que achava correto e fui me aprimorando com o tempo. Comecei o Matemática Rio em 2010”.

No canal, ele tira dúvidas em poucos minutos dos assuntos mais cabeludos da matéria. Em vídeo postado recentemente, por exemplo, ele faz uma relação entre o fenômeno Pokémon Go e o Sistema Métrico Decimal. Com muito bom humor, o professor ainda faz paródias de sucessos musicais, tudo incluindo a matemática no meio. O carioca criou uma versão de “Bumbum Granada”, dos MCs Zaac & Jerry, em que faz uma relação com o Bourbaki, grupo de matemáticos franceses que estudaram a teoria dos conjuntos.

“Os problemas que resolvo vêm muito das sugestões dos alunos. Quando acho alguma coisa interessante, faço o vídeo e publico. As paródias nascem de forma intuitiva. Crio a letra em cima da música, gravo e publico. Faço tudo sozinho”, conta.

Ele acha que o diferencial do seu trabalho é não ser um professor tradicional. “Tem alunos que gostam do professor mais sério, mas têm outros que se identificam mais comigo. Sou um cara do entretenimento, que faço humor junto com as aulas. Tento não ser monotônico, incluir piadinhas na edição. Para os alunos não acompanharem de forma passiva, quando passo um exercício, peço para eles pausarem o vídeo e tentarem resolver e só depois comparar com a minha resposta. É uma forma de interagir, não desistir do vídeo e uma maneira mais eficaz de aprender”, explicou o professor, que antes de se dedicar à web lecionou em escolas públicas do Rio de Janeiro.

Rafael frisa que a tecnologia não substitui o professor, mas ressalta a importância da ferramenta para a educação. “Por exemplo, não consigo pensar em ensinar de maneira mais fácil trigonometria que não seja através de gifs animados. Através de uma imagem, o aluno consegue ver um gráfico e como as coisas funcionam. E não só com trigonometria, mas com qualquer assunto. Em um vídeo meu, já tratei de comparação do volume do cone com o do cilindro e um gif me ajudou a mostrar isso para as pessoas em pouco tempo. Existem também programas de geometria dinâmica, como GeoGebra, que auxilia nas visualizações de gráficos e sólidos geométricos. A tecnologia vem para revolucionar o modo de apresentar a matemática. Antes a gente tinha que ficar imaginando as coisas, e agora conseguimos materializar melhor todo esse material de maneira mais prática”.

O professor destaca que o feedback positivo é uma das partes recompensadoras do trabalho e uma forma de conhecer quem está do outro lado da tela do computador ou smartphone. “Recebi o comentário de um índio de uma tribo no Amazonas que queria estudar engenharia. Para isso, ele navega três horas para chegar em Manaus, ter acesso a um computador e conseguir assistir minhas videoaulas. Na tribo, como não tem escola, ele não teria como estudar. Isso me dá uma motivação extra. Na contramão, voltando de São Paulo, encontrei com o Pedro Bial no avião, que logo me reconheceu. Ele falou que os filhos estudavam matemática a partir do meu canal. Quando chegavam da escola com alguma dúvida, recorriam à internet e ao Matemática Rio. Ao mesmo tempo que você consegue entregar um material de qualidade para o filho do Pedro Bial, você também entrega o mesmo material para um índio ou para alguém do sertão nordestino, que tá sem professor na escola, por exemplo. É incrível”.

Encontro especial

Rafael Procópio participou de encontro com o Papa Francisco em maio deste ano Foto: Arquivo pessoal

Em meio ao sucesso com a plataforma digital, um momento dessa trajetória foi especial para Rafael. Em maio deste ano, ele foi o brasileiro escolhido para representar o País, com um time de mais de 10 YouTubers de vários segmentos do mundo, em um encontro com o Papa Francisco. O carioca era o único professor do evento. O objetivo era discutir caminhos para a paz e a diminuição do ódio através, por exemplo, da educação.

“Tinha youtubers de várias religiões, eu que sou ateu, evangélicos, católicos, muçulmanos, etc. Cada um fez uma pergunta para o Papa sobre como poderia se tornar uma pessoa melhor. Eu perguntei, por exemplo, sobre esforço pessoal. Como uma pessoa pode se esforçar e conseguir sair do status quo e mudar de vida. E ele falou que a palavra é motivação”.

Projeto que deu certo

A gaúcha Carina Fragozo começou seu canal, English in Brazil, ao perceber que as dicas que compartilhava no endereço virtual (englishinbrazil.com.br) de mesmo nome poderiam atingir um número maior de pessoas se estivessem documentadas em forma de vídeo. Em uma semana, tive mais de mil visualizações. Achei incrível, pois tinha certeza de que não eram mil amigos ou mil ex-alunos que tinham assistido, e sim pessoas que me conheceram na internet”.

“Aos poucos fui aperfeiçoando a edição, o áudio e a iluminação. Não pensei nisso quando criei o canal, mas hoje eu percebo o quanto posso ajudar pessoas que, assim como eu na adolescência, não têm condições de pagar por um curso e que, através dos meus vídeos, se sentem motivados a aprender e atingir seus objetivos. Jamais imaginei que um dia teria uma sala de aula com mais de 200 mil alunos e, a cada comentário, me sinto mais motivada a compartilhar conhecimento e atingir mais e mais pessoas”.

O próximo passo de Carina Fragozo é montar seu próprio curso virtual Foto: Arquivo pessoal

A professora, que é doutorando em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP) e embaixadora da plataforma YouTube Edu, diz que os temas das videoaulas geralmente são sugeridos pelos alunos. Ela também gosta de dar dicas de pronúncia, já que sua área acadêmica é a fonologia, além de gravar vídeos especiais respondendo várias perguntas.

“Dou muitas dicas de estudo, como anotar palavras novas, ler, desenvolver o listening, usar o dicionário, tudo para que o aluno também aprenda a ser autônomo e saiba buscar o conhecimento. Tenho uma lista de ideias e pedidos para gravar. O conteúdo é infinito, tenho material para uma vida”.

A gaúcha destaca a importância do YouTube como vitrine para sua profissão. Apesar de receber pedidos de alunos para terem aula com ela, por enquanto, Carina ainda não conseguiu montar seu próprio curso por ter uma rotina apertada. “Estou escrevendo minha tese de doutorando, mas esse é meu próximo passo. O YouTube funciona como uma vitrine para atingir o público e, então, lançar produtos referentes ao seu conteúdo. como cursos, livros e loja virtual”.

Apesar de ter um retorno financeiro, a professora, que já lecionou inglês para ensino médio, técnico e em escolas de idiomas, mora em São Paulo e diz que o YouTube ainda não é sua principal fonte de renda. “Ainda não tenho dias certos para gravar, até porque preciso estar com uma energia boa para clicar no REC e dar aula para uma câmera. Mas dedico pelo menos um dia da semana para escrever roteiros e editar e outro para gravar no mínimo dois vídeos em sequência. Sou eu que faço o roteiro, edito, respondo comentários, cuido das redes sociais. O “English in Brazil” ainda é uma ‘equipe’ de uma só pessoa”.

No curto período que lecionou de forma tradicional, percebeu que o interesse dos alunos mudou, por isso defende a importância da tecnologia como ferramenta para educar. “Se os alunos não são mais os mesmos, as aulas não podem seguir o mesmo modelo de 20, 30 anos atrás”.

Carina ainda reforça que seu público é muito variado: são pessoas em todos os níveis de proficiência e de todas as idades. “Esses dias um senhor de 60 anos disse que descobriu o meu canal e está se sentindo muito motivado para finalmente aprender inglês. Recebo muitas mensagens de pessoas que tinham desistido de aprender a língua porque achavam muito complicado e que se motivaram pela forma simples e didática que explico o conteúdo. Através da internet, consigo atingir um público que jamais atingiria com aulas presenciais”.

Conheça outros canais educacionais

Pamella Brandão - Redação e Gramática Zica

Pamella Brandão Foto: Reprodução/Instagram

A professora Pamella Brandão é a responsável pelo canal Redação e Gramática Zica, que traz dicas gratuitas de redação e gramática, vestibulares e concursos públicos. Ela também mantém um site de mesmo nome, que traz material complementar aos vídeos.

Paulo Jubilut - Biologia Total

Paulo Jubilut Foto: Reprodução/Biologia Total

Com o sucesso na internet, o professor deixou as aulas presenciais para se dedicar exclusivamente à internet, onde também mantém um site de mesmo nome. Sua proposta é ensinar biologia de forma lúdica e dinâmica.

Ueslei Reis - Canal da Física

Ueslei Reis Foto: Reprodução/Canal da Física

Videoaulas de físicas são lançadas no canal às terças-feiras. Professor aposta em resolver questões do Enem e contar um pouco da história da disciplina.